Um filme encantador

FÁBIO VIANA RIBEIRO*OMDRP B

Paulo Ronái, no prefácio da bela e relativamente recente edição de “Os meninos da rua Paulo”[1], observa que a língua húngara era (e creio que ainda o seja) uma espécie de cemitério do pensamento. Isso por conta de sua dessemelhança e não parentesco com as outras grandes línguas faladas no mundo moderno. Nesse sentido, é curioso que “A Pál utcai fiúk” (é este o título original do livro!), publicado pela primeira vez em 1907, tenha se tornado o romance húngaro mais conhecido no mundo. Ou mesmo, apenas se tornado um romance conhecido no mundo ocidental. O filme, produção húngara do diretor Zóltan Fabri, de 1969, seguiria o mesmo caminho.

OMDRP CComo de hábito, a versão cinematográfica de “Os meninos da rua Paulo” é inferior ao livro. Ainda que este seja um problema comum a todos filmes baseados em livros – que foram, afinal e originalmente, escritos para serem lidos; e não para serem visualizados no cinema – o filme de Zoltán Fábri possui, por si mesmo, algumas e claras limitações. Poderia ter sido dirigido por um diretor mais experiente, contado com melhores atores, melhor roteiro, etc. Mas, ainda assim, o que é surpreendente, sua encantadora magia sobreviveu a tudo isso. Em minha lembrança de criança, que vi o filme no cinema quando tinha a idade dos personagens, e também mais de trinta anos depois como adulto – o que parece ficar do filme em nossa memória são coisas muito essenciais, comuns a todos os que ainda guardam lembranças desses primeiros anos da vida.

O mundo das crianças é um mundo de coisas pequenas, sonhadas e significativas. Um mundo de fantasias incompletas, contraditórias e descomprometidas com a seriedade da vida e com a própria realidade. Fazem, não valendo nada ou quase nada, conquistas que os adultos, mais tarde, desencantados (desses, que sempre justificam seus “atos realistas”, dizendo que “é assim que as coisas funcionam”) tentarão inutilmente substituir por riqueza, poder, prestígio… Possivelmente são essas experiências, adormecidas nas lembranças de cada um, que fizeram de “Os meninos da rua Paulo” um filme tão universal e atemporal. Por volta dos 10 anos de idade, um terreno vazio onde se joga bola com os outros meninos do bairro tem o tamanho do mundo. Ou pelo menos, do mundo que conseguimos enxergar. No filme, é o território das brincadeiras e reuniões de um grupo de meninos. Fora dali são, como todas as crianças, treinadas para entender a família, a escola e a parte que resta do mundo. À sua maneira, povoam suas disputas com aquilo que melhor acharam retirar dos livros e do que até então descobriram que existe na realidade. Existem eles, e existem também os outros meninos do bairro. E a disputa pelo melhor lugar para brincarem.

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Como no mundo dos adultos, existem disputas pelo poder; assim como traição, coragem e lealdade. Mas, no mundo de um grupo de crianças na Budapest do início do século XX, essas são coisas que, mesmo não contando com o apoio da realidade, são feitas de regras sérias e solenes. O professor os proíbe de se organizarem como clube; suas leis só valem para eles mesmos, nenhum deles é de fato um soldado e o outro grupo não é exatamente um inimigo. A história gira em torno de Nemecsek, que é o menor e mais novo do grupo. Apesar da descrença geral, é o mais altruísta e corajoso de todos. Como acontece no início da infância, todas as coisas são para ele o que parecem ser. O líder Boka, ao contrário, é o maior e o mais velho. E já se preocupa também com outras coisas e se sente responsável por Nemecsek.

O final do filme, triste como poucos, sugere o que para muitos seria seu principal assunto; a passagem da infância para a vida adulta. Uma bela e poética metáfora desse momento da vida. Consta que todos os livros de Ferenc Molnár foram banidos da Hungria durante o período comunista. Sem motivo, pelo menos no caso de “Os meninos da rua Paulo”. O que tanto o livro quanto, mais tarde, o filme descrevem, é aquilo que nenhuma forma de educação que se pretenda inovadora ou realista consiga talvez eliminar, em seu esforço de promover uma educação “voltada para a vida e para a realidade da criança”. Aspectos políticos e pedagógicos à parte, há sempre um momento incontornável da vida em que deixamos de acreditar que as coisas são apenas o que parecem ser. A magia, tristeza e doçura do filme descrevem essa passagem, que poderia ter como lugar outra cidade, outras crianças, outros pais e outros professores. No caso, esse lugar era um apenas terreno baldio em Budapest.

Ficha técnica
Título original: A Pál utcai fiúk
Gênero: drama.
Direção: Zoltán Fábri
Duração: 110 min.
Ano: 1969.
País de origem: Hungria.
ribeiro-fabio* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] MOLNÁR, Ferenc. Os meninos da rua Paulo. São Paulo, Cosac Naify, 2005.

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2 comentários sobre “Um filme encantador

  1. Há muito procurava saber sobre esse filme…que bom encontrar esse texto … Assisti na década de setenta e nunca o esqueci.

    Um abraço

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