Sobre esfihas e guerras

MARCELO GRUMAN*

esfihaQuem mora nas imediações do Largo do Machado, uma grande praça que divisa os bairros do Catete e Laranjeiras, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, conhece ou, pelo menos, já ouvir falar na Rotisseria Sírio-Libanesa, restaurante na Galeria Condor que diz vender a “melhor comidinha árabe”. Seja de manhã, à tarde ou à noite, o movimento é intenso de gente se deliciando com esfihas, quibes, arroz com lentilhas, berinjelas, abobrinhas e pimentões recheados, coalhada seca, kaftas, além dos doces de amêndoa e damasco. É uma fornada atrás da outra, a massa é leve e o recheio é saborosíssimo. A fidelidade dos fregueses passa de geração em geração: meu filho adora a esfiha de queijo (eu prefiro a de carne), acompanhado de um suco de caju extremamente doce, mas gosto é gosto. Um conhecido, sacrílego, afirma categoricamente que uma parente sua, em Alepo, na Síria, cozinha (ou cozinhava?) tudo aquilo mil vezes melhor. Difícil imaginar sem salivar.

O Brasil acolheu muitos imigrantes vindos da Ásia Menor nas duas primeiras décadas do século XX, grande parte fugindo das tensões políticas no Império Turco Otomano, dentre eles, sírios, libaneses, gregos e turcos. Como os imigrantes sírios e libaneses chegavam ao país com o passaporte do Império Turco-Otomano, eram classificados como “turcos”. Por causa da mesma língua nativa, da dedicação ao comércio popular, do padrão endógeno de casamentos, da vida social voltada para dentro da colônia, era mais natural ao restante da sociedade ignorar as diferenças entre os dois grupos e simplesmente fundi-los nesta categoria maior, processo que os acadêmicos chamam de “prototipicalização”. O mesmo aconteceu com aqueles judeus oriundos do Império Russo, classificados de “russos”, ainda que fossem de nacionalidades distintas (como poloneses ou romenos). Mesmo após a extinção dos impérios os termos permaneceram como meio de identificar os comerciantes, muitas vezes carregados de sentido negativo.

Os imigrantes sírios e libaneses descobriram, ainda nos finais do século XIX, que a abolição da escravatura havia criado uma expansão dos mercados sem um crescimento paralelo do sistema de distribuição de bens. Assim, estes “turcos” desbravaram o interior brasileiro, carregando suas mercadorias em mulas através do interior de São Paulo e Paraná. Vendiam a prazo, eram prestamistas, os “turcos da prestação”. Com o tempo, e muito trabalho, se estabeleceram nas cidades em pontos fixos de comércio. Os imigrantes judeus seguiram seus passos. Filhos e netos destes imigrantes conseguiram, em boa medida e para certo desgosto dos mais antigos que viram seus negócios familiares sem perspectiva de continuidade, entrar para universidades e formarem-se médicos, advogados e engenheiros. Piada judaica, mas que serviria para outros grupos étnicos:

– Parabéns, Sara. Soube que sua filha vai se casar. Quem é o sortudo?

– Obrigada, querida. Chama-se Isaac e é médico.

– Médico? Ouvi dizer que era engenheiro.

– Não. O ex-marido dela é que era engenheiro.

– Ué, esse não era advogado?

– Não, meu bem. Esse foi o primeiro marido.

– Pois eu a invejo, Sara: tantas alegrias de uma filha só!

O Árabe do Largo do Machado continua firme e forte. Acho até que os donos atuais nada têm a ver com seus fundadores, muito menos com raízes no Oriente Médio. Nem sei mesmo se os fundadores são oriundos daquelas bandas. Seja como for, a tradicional Rotisseria acaba de ganhar um forte concorrente. Instalado numa barraquinha na lateral da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, a poucos metros da Galeria Condor, um indivíduo que fala algumas poucas palavras de português com forte sotaque digno das piadas mais estereotipadas, vende esfihas, quibes e falafel (aquele bolinho feito de grão de bico). As embalagens com oito unidades vendidas a dez reais cada (cada salgado na Rotisseria sai a cinco reais) fazem sucesso e atrai a curiosidade dos passantes.

Pergunto ao “turco” de onde ele vem, já adivinhando a resposta: Síria. Está aqui há dois meses. Legal? Ilegal? Pouco importa. Não sei se ele é o dono do negócio ou se trabalha para outro. Também não sei se é cristão, xiita ou sunita, se é a favor do ditador Assad, se apoia o Estado Islâmico ou se não se importa com nada destas coisas. Só sei que, sorrindo para mim ao dizer há quanto tempo aportou no Rio de Janeiro, sabe-se lá como e em que condições, se sozinho ou com família, exibindo seus dentes amarelados, senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, uma aceleração no batimento cardíaco e um nó se formando em minha garganta. Pela primeira vez tive contato real com a tragédia que se abateu sobre o povo sírio. Ele é a cara da guerra, sua representação fidedigna, muito mais valiosa que qualquer análise política ou militar dos doutores e das estatísticas que vomitam números em cima de números da guerra asséptica vista pela televisão. Ele é a miséria humana.

Compramos uma embalagem de esfihas de berinjela e outra de falafel. Uma delícia. A Rotisseria perdeu um freguês.

gruman* MARCELO GRUMAN é Antropólogo e Doutor em Antropologia Social (PPGAS/MN/UFRJ).

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3 comentários sobre “Sobre esfihas e guerras

  1. Artigo de Marcelo e comentário de Regina são excelentes. Mas temos de acrescentar que as tragédias começam, iniciam e explodem entre os cidadãos do próprio País na luta pelo poder ou na insatisfação do povo com seu governante, seja o motivo que for – interno ou externo.
    A luta para obter o poder e ou continuar nele – cega, aniquila qualquer ética e senso; destrói os avanços conquistados em séculos, além de arruinar psicologicamente, por gerações, os conterrâneos.
    Os homens eliminam seus semelhantes, destroem a natureza e querem exterminar o passado.
    Quantas vezes a humanidade já passou e já assistiu as cenas dos êxodos?

  2. Tenho vontade de dizer um comovido obrigada ao Professor Marcelo Gruman por trazer, através dos perfumes e sabores da comida arabe, um pouco da vida e do sofrimento dessas populaçoes bombardeadas por alguns, lapidada ou oprimida por outros e, em todo caso, expulsa de suas casas, de suas cidades, de seu mundo.
    No século XIX, meu avô chegou ao Brasil com um passaporte turco, como todos os outros, fez aquele percurso que voce descreve acima, enquanto isso a aldeia siria onde ele nasceu tornou-se territorio libanês e o passaporte e as condiçoes de vida da familia aportada ao Brasil mudaram para melhor.
    Mas aqueles exilados todos, arabes, judeus e outros povos, podiam naquele tempo pegar navios, navegar com segurança até paises e continentes que os acolhiam e refazer a vida e, acho que geralmente, reencontrar esperança de felicidade.
    Hoje, os paises ocidentais, responsaveis pela tragédia que se abate sobre toda essa regiao, constroem em suas fronteiras cercas de arame farpado, transformam o mundo em volta deles num campo de concentraçao às avessas, e entregam essa multidao à gana sem piedade de traficantes de seres humanos, ultimo recurso de quem nao tem mais a quem apelar. E eles morrem quando as casquinhas de nozes em que navegam capotam longe das costas. nas familias que chegam às costas europeias, as crianças estao azuis de frio, nessas tendas sem aquecimento, quando ha uma tenda, pelo menos.
    Isso tudo é absurdo e insuportavel, mas faz bem que alguém ponha o dedo na ferida e na dor dessa gente que, ou é esquecida ou é desprezada, condenada e assimilada aos fanaticos que os matam de perto, enquanto os avioes os matam de longe.

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