Rede social e a comoção infinda dos paralelos: o ethos da pergunta que não quer aprender

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

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Não uso o meu perfil no Facebook para banalidades engraçadinhas. Uso-o para convergir, fundir ou chocar processos artísticos e científicos díspares, criando novas politicidades críticas por meio da paralaxe suscitada pela correlação entre discursos verbais e (áudio)visuais. É bem possível que eu transforme isso numa ação de extensão formalizada pela UFRRJ. Trata-se de uma experiência crítico-poética ímpar para mim, a qual considero que vale compartilhar. Gosto de dividir tais experiências com alunos, ex-alunos e leitores em geral, ao mesmo tempo em que é uma ótima oportunidade de divulgar trabalhos férteis e dispersos em nichos de menor procura no mar banal da rede social. Então, em certa medida, o meu perfil se torna uma vitrine, embora não consumista. Portanto, é seletiva e com princípio editorial-poético explícito de expressividade crítica. Quando associo poemas, pinturas e fotografias, por exemplo, tento sempre jogar a favor dos trabalhos convergidos na nova discursividade, que também é uma oportunidade de experimentos para novas dobras de sentido e interfaces de ciências humanas com artes.

Não sou normativo em relação à minha área: História. Não sou historiador ‘tout court’ porque não aprecio nada que me encurte. Celebro sempre aquilo que me expande, que me dá a sensação de não ser simplificado numa média habitual de banalidades e preconceitos. Sou exigente em densidade e respeito pela complexidade que meu processo de criação contém. Atinge a minha dignidade e ativa a minha fúria tudo que fere o que me define: Fere porque deprime, não provocando ‘desdobramento-rosa’, mas somente ‘desdobramento-plano’ para risos fáceis de hienas cínicas (paradoxalmente burras e metidas à besta). Tais hienas têm a boçal capacidade de transformar um origami numa folha plana amarrotada. Hienas não têm amparo no meu perfil no Facebook, pois quem ampara sem critério chora sozinho, depois, o fel amargo do vazio do desamparo ético.

Não trago para a rede social um protocolo de escrita apressado, bidimensional e violador de dignidade, mas intencionalmente provocador de aprendizagem empática que não reforça expectativas habituais, pois ensinar não é simplificar a estrada. Estrada simplificada é cativeiro de manada… Tudo isso se explicita na forma como me expresso, que não se encurta porque não poupa dobras de sentido. Afinal, considero o interlocutor como alguém inteligente que gosta do desafio quando passa pelo meu perfil, que é minha sala virtual, na qual não forço ninguém a ficar ou entrar; mas quem entra deve respeitar os termos de sociabilidade do anfitrião…

Não compactuo com reação emocional de nula elaboração intelectual para temas complexos. Viver não é nada simples… Nas redes sociais, muita gente aciona informação num regime infindo de paralelos rasos que não produzem conhecimento, mas apenas comoção… Para superar o nível banal da comoção dos paralelos rasos, é necessário um grau de elaboração e preparo que vai além da pressa e da desculpa centrada no medo pragmático sobreviventista, ou de justiceiro-carniceiro. Nenhum senso de justiça deve reter-se, por exemplo, num pendor de ‘vindicatio dei’, solicitante escuso de linchamento de gado, cujo nível raso de reação emocional criminaliza, na prática, a pobreza e se conduz com padrões ainda pouco assumidos (e, portanto, pouco enfrentados) de racismo.

Não restrinjo o uso da rede social à banalidade apressada e preconceituosa. Para mim, é um recurso de comunicação que serve para educar. Daí, considero que há um campo de sentido a ser expandido nas redes sociais: acabar com este monopólio imbecilista tácito de gado que acredita que rede social não pode ser lugar de elaboração reflexiva densa. Quem deu à manada o direto divino de definir tal função tão restritiva para um meio de comunicação de massa tão fértil? A postura anti-intelectual (aparentemente banal e galhofeira) na rede social é muito perigosa para qualquer aperfeiçoamento de longo prazo da democracia e dos direitos civis. Não é este tipo de manada que deveria monopolizar o tom (pseudo-)“polêmico” (na verdade, só promotor de comoção) das redes sociais. Por outro lado, devo também fazer ‘mea culpa’: É preciso haver alguma sabedoria protolocar nos doutos que pouco exercitam empatia para a sua complexidade crítico-criativa nas redes sociais.

Não oferto o “Padrão Globo de Banalidade”. Tampouco me encastelo ou considero que meu tipo de elaboração de conhecimento é para poucos. Contudo, tornar acessível algo pouco habitual não é simplificar vocabulário e discussões, mas modular adequadamente processos de participação na construção de conhecimento complexo, provocando a manada a sair do cativeiro de estradas há muito pisadas. Portanto, ter uma postura simplesmente arrasante do interlocutor raso é também deseducadora e reforça estereótipos anti-intelectuais num ambiente social-institucional que já é hostil à educação de qualidade.

Não se mata mosquito com tiro de canhão… Se você, douto, não se sente preparado para um combate honrado (afinal, se há despreparo em uma das partes, não há honra no combate), é melhor o silêncio do que o desgaste que provoca mútua estupidez: Você se estupidifica quando não calibra os seus protocolos de ação comunicativa para o contexto de expressão pretendido. Cativar sem aprisionar é fundamental para complexificar os horizontes de experiências; mas também selecionar e silenciar é preciso quando afirmações e perguntas que atinjam você não têm a efetiva intenção de aprender com você, mas apenas reforçar certezas anti-intelectuais às custas de seu douto mau humor… Então, caro, respira fundo, desliga o computador e vai ler um bom livro…

Não me dissolvo na banalidade do ‘conspirador-mosquito’ de certezas apressadas e banais; nem cerco de cactos o meu juízo… Aproximo-me com os recursos que tenho. Valorizo-os porque foram conquistados com muito trabalho em meio à grande desigualdade social e despreparo familiar. Então, para quem não se considera douto (e tampouco quer ser hiena ou ‘conspirador-mosquito’), fica também a dica: Se você não conhece profundamente um assunto, instituição ou pessoa, por favor, não deduza, não opine, não conclua com seus preconceitos; não diminua o valor de quem se esforça em desenvolver elaborações que vão além da força dos hábitos para justamente não sermos apenas gado. Pergunte com sabedoria para aprender que a sua vida pode não ser apenas um matadouro recheado de tiros de comoção. Isso pode ser o começo de um bom diálogo e, talvez, um grande passo para haver menos imbecilistas no (ciber)espaço. Democracia não é o direito à precariedade de opiniões e ao despreparo. Não celebre ou se orgulhe de sua precariedade material e imaterial de pragmático sobreviventista. Não se esconda no medo… Podemos ser mais do que gado para mercado. Já há tanta “baleia azul” por aí em perversas migrações[1]… Você não precisa ser mais uma…

Enfim, ensinar, particularmente num sentido escolar, é também provocar acesso àquilo que é complexo sem simplificar, pois deve possibilitar margens de desdobramentos que expandam dialeticamente o horizonte de experiências dos interlocutores. O imediatismo bélico na resposta (ou na pergunta que não quer aprender) não desarma a ignorância.

vianna* ALEXANDER MARTINS VIANNA é professor de História Moderna do DHRI-UFRRJ e coordenador do PROFHISTÓRIA-UFRRJ. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2771002270804635

[1] Alusão ao livro poético “A perversa migração das baleias azuis” (Ibis Libris, 2015: 154p.), do professor, poeta e historiador da UFAL Alberto Lins Caldas.

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