Relativismo unidimensional

FÁBIO RIBEIRO VIANA*

Van Gogh - Le Moulin
Van Gogh – Le Moulin

Por menos que boa parte das pessoas não apreciem o envelhecimento (inclusive chamando-o de “melhor idade” e outros eufemismos politicamente corretos), percebo que estar próximo dos 50 anos trás boas vantagens. Uma delas é saber diferir modismos e fases, de coisas que de fato possuem consistência. Da mesma forma, é possível comparar, por nossa própria experiência (sem necessidade de recorrer aos livros ou à internet), como algumas coisas eram e em que se transformaram.

Não estarei dizendo nenhuma novidade ao observar o quanto a universidade mudou nos últimos 20 anos. Entre muitas mudanças, uma das mais curiosas talvez seja a da sociabilidade. Em muitíssimos departamentos, o padrão de trabalho da maioria dos professores é o de ficarem em casa. Como tudo o que realmente interessa e conta pode ser feito pelo computador, para muitos faz cada vez menos sentido aparecer na universidade. Apenas o necessário. Conversar, discutir, tomar um café com outros professores é coisa de excêntricos. No máximo com outro excêntrico, interessado em conversar sobre literatura, música, qualquer ideia ou teoria. Três professores fazendo isso é coisa raríssima nos dias estranhos que nos alcançaram, como diria a música. Há 20 anos atrás, era bem comum o contrário…

Talvez em função disso, as ideias circulam cada vez menos no cada vez mais opressivo ambiente acadêmico. Ideias iguais andam sempre de braços dados umas com as outras. E estão sempre “de mal” de ideias diferentes. Por mais que as propostas oficiais variem, o objetivo de 90% dos encontros de área é o de confirmação de certezas, e só muito raramente a comparação e discussão de hipóteses distintas. Os nomes podem variar, mas no fim o resultado é sempre o mesmo. Grupos de estudos raramente buscam, com seus estudos, chegar a alguma conclusão diferente da convicção que motivou sua formação. A já surrada expressão “diversidade” significa, também em 90% dos casos, uma perspectiva que significa cada vez menos este sugerido objetivo.

Há 20 anos atrás, uma discussão poderia ser considerada pública se tivesse acontecido num debate, no café da faculdade ou mesmo em sala de aula. Atualmente, as discussões verdadeiramente públicas (e isso é uma grande vantagem, em termos de alcançar um público maior, democratização da palavra, etc.) acontecem na internet; e por esses tempos, principalmente no Facebook. E foi lá, mesmo já tendo lido coisas semelhantes muitas outras vezes, que fiquei intrigado com o enorme pesar de uma ex-aluna com o fato de ter parentes que eram “homofóbicos, racistas, machistas e xenófobos”. A discussão sobre o tema é interminável, comportando grandes e ainda confusas questões. Inclusive semânticas: faz sentido usar o termo “fobia” quando não se trata de medo? Ou ainda que opinião própria não seja o mesmo que preconceito, que não é o mesmo que discriminação, que não é o mesmo que intolerância?

O que me deixou intrigado com o pesar de minha ex-aluna, foi menos seu pesar (que, no fim, é o de todos os filhos, em seu eterno conflito com a geração anterior; ou a de todo ser humano, em sua inatingível solidão…) por ter uma família diferente da que gostaria (deixando de lado esse paradoxo, de que, afinal, essa diferença bem poderia ser tolerada em nome da diversidade…); mais que isso, o intrigante relaciona-se com a restrição da lista. Sim, os números mostram que as coisas não são fáceis para gays, negros, mulheres e estrangeiros. Mais que os números e as estatísticas, a própria realidade cotidiana mostra isso; que simplesmente estas são condições sociais que efetivamente limitam a vida daqueles que as vivem.

Como, de uns tempos para cá, o olhar do meio acadêmico se tornou obsessivo para tais assuntos, resulta daí o curioso caráter monotônico de discussão do tema “exclusão social”. Ou seja, que o mesmo só pode ser discutido em função de alguns poucos grupos e de uma única forma. De uma única forma mesmo; não raro, resultando em cenas bizarras: “você é burra, não sabe a diferença entre sexo e gênero”, “entenda de uma vez por todas, ser gay não é questão de escolha!”, “compareça ao nosso centro para lhe explicarmos e ser informado sobre seu comportamento machista!”, etc. Qualquer ideia, qualquer que seja, por quem quer que seja, deve ser respeitada. Das mais parecidas com as nossas próprias, às mais distantes de nossas crenças. Considerando inclusive que, no meio acadêmico, o choque deveria ser entre teorias, e não entre crenças… Teorias podem ser discutidas como tais, defendidas por meio de argumentos bons e ruins, comparadas umas às outras como meras possibilidades de explicação da realidade. Teorias podem ser livremente discutidas; podem sentar-se à mesa com seus donos, ao lado de outras teorias muito diferentes. E serem levadas a sério por quem quiser, e não serem levadas a sério por quem não quiser.

E é nesse sentido, inclusive, que a existência de muitos outros grupos, também socialmente excluídos, é solenemente ignorada no meio acadêmico. Se o objetivo for, de fato, a inclusão dos excluídos, faltaria discutir as formas de exclusão a que estão sujeitos obesos, pobres, neopentecostais, idosos, crianças, feios, etc. E não se trata de uma lista retórica. Também no meio acadêmico ocorre a exclusão estética de quem está acima do peso padrão (o fato de existir um padrão “cientificamente estabelecido”, não o isenta de ser também “socialmente construído”…); por meio dos cartazes da própria universidade, por meio das exclusões feitas entre os alunos, etc. De modo semelhante os pobres são, na universidade, ótimos objetos de estudo e tema inesgotável de artigos, dissertações e teses; mas suas próprias palavras e sua presença na universidade são, quando muito, vistas como generosa e benevolente concessão daqueles que, além de ilustrados, são também generosos e benevolentes. Inclusive pelo fato de que as palavras e ideias dos pobres “que ainda estão alienados” são por demais ingênuas e contraditórias para serem levadas a sério. Também os neopentecostais, mesmo sendo numerosos na universidade, devem guardar para si suas igualmente ingênuas crenças; obscuras demais para combinarem com as certezas científicas do meio acadêmico. E assim por diante.

Em parte, há razão na observação feita por uma (para alguns) insuspeita colunista: Aconteceu igual com o rock, o punk, o movimento LGBT ou o Black Power. O capitalismo enxerga a tendência e, com ela, a possibilidade de reduzir as lutas ao que interessa: dinheiro. O significado por trás daquilo pouco importa. Tudo é diluído para formar um conjunto belo, colorido e atraente, perfeito para os anúncios e comerciais de TV. O sistema consegue a proeza de lucrar com uma atitude contra o sistema.”[1]

E então, novamente, o caráter unidimensional do atual ambiente acadêmico e das obsessões politicamente corretas. Posto ser esse ambiente que define, também ele, quem deve ser considerado excluído e que padrão, dos tantos hegemônicos existentes, deve ser combatido – esquecendo-se aí que mesmo essas escolhas são, também elas, “socialmente construídas”. E, por esse motivo, tão longe quanto quaisquer outras, de serem consideradas as únicas ou sequer as mais razoáveis. Nada deveria ser mais óbvio que uma consequência imediata do relativismo seria a de ser ele também passível de ser relativizado.

Tratar-se-ia, então, de nos compreendermos independente de qualquer padrão? Certamente que não. Motivos “técnico sociológicos” impedem que a vida social seja vivida sem nenhum padrão ou com padrões continuamente diversos e mutáveis. Mesmo os que mais se incomodam com a existência de determinados padrões – minha ex-aluna, por exemplo – mesmo esses os buscam. Buscam pelo menos a confirmação de seu padrão preferido nas escolhas que fazem seus amigos, ídolos, pais, etc. O mistério, não tão misterioso assim, refere-se à busca e aceitação de um padrão e à negação de outros. E, assim sendo, não se tratando verdadeiramente de uma luta pela desconstrução de padrões ou de maior espaço para a diversidade, não haveria nada de novo sob o sol. Considerando inclusive, e ainda, o fato de que no ambiente acadêmico muitos dos grupos que mais criticam os “padrões hegemônicos” serem radicalmente preconceituosos, intolerantes e discriminatórios em relação a qualquer um que não concorde com suas posições. E não apenas por isso. A julgar pela forma autoritária como a diversidade é buscada, parece-me cada vez mais evidente que a substituição de um antigo padrão só faria nascer em seu lugar outro padrão, carregado dos mesmos erros que se buscava eliminar.

ribeiro-fabio* FÁBIO RIBEIRO VIANA é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] Cynara Menezes. “A direita privatizou a liberdade (e nós deixamos)”. Revista Caros Amigos. Acesso em 30.11.15. http://carosamigos.com.br/index.php/cotidiano/5661-boteco-bolivariano-cynara-menezes-perdas-e-ganhos-3

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5 comentários sobre “Relativismo unidimensional

  1. Caro Jonas,

    Obrigado pela leitura; muito atenta, por sinal. Uma das ideias centrais é essa mesma que você destacou. Frequentemente os defensores de algumas bandeiras emancipatórias se esquecem de contradições básicas. E nessas, todos perdem.

    Um grande abraço!

  2. Prezado prof. Fábio!

    Seu texto me fez pensar nos rumos da Universidade e na derrocada do livre pensar. Concordo com você em muitos aspectos. Vivemos um momento de muitas certezas, mesmo que escondidas por trás de discursos “emancipatórios”. Você me fez pensar naqueles que não se enquadram no que é aceitável socialmente pelos que se consideram “libertários”, mas que são incapazes de reconhecer o seu próprio modo autoritário de enxergar a vida. Enfim, é um texto que faz pensar e isto é “universitário”.

    Um grande abraço,
    Jonas Jorge

  3. Obrigado pela compreensiva leitura, Regina. Já ouvi de uma amiga que escrevo de forma muito difícil (nos sentido de construção das frases, etc), de modo que nem sempre tenho certeza de que me fiz entender. Mas, pelo menos no seu caso, creio que desta vez consegui! Um ótimo ano novo para você 🙂

  4. Neste fim de ano, um verdadeiro presente neste pipocar de ideias inteligentes e abertas que explodem a cada frase.
    Obrigada professor. Inclusive por valorizar as vantagens do olhar que, amadurecido, se distancia para julgar da superficialidade momentânea de ideias que se impoem como incontornaveis em determinados momentos.
    Bravo!

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