Audazes e malditos

FÁBIO RIBEIRO VIANA*

Não raro John Ford (1894-1973) costuma ser classificado como um diretor conservador. Se é que faz sentido classificar ou estabelecer, atualmente, uma distinção clara entre conservadorismo e esquerdismo. Caso isso fosse possível, ainda assim o “rótulo” soaria impróprio a esse diretor. Muitos de seus principais filmes contêm contundentes críticas a aspectos e instituições sociais normalmente criticadas pela esquerda. Ou que, por motivos diversos, muitos acreditam serem causas exclusivamente defendidas pela esquerda. Possivelmente nem uma coisa nem outra: emancipação feminina, busca de igualdade social, multiculturalismo, opressão política, etc., não se constituem, de modo algum, numa espécie de “patrimônio imaterial” dos grupos de esquerda. Tampouco muitos dos principais filmes de John Ford refletem o contrário: “As vinhas da ira”, “No tempo das diligências”, “Rastros de ódio”, “O homem que matou o facínora”, etc.

Dentre os apenas mais ou menos conhecidos, “Audazes e malditos” é certamente um dos mais significativos. O porquê do título original “Sergeant Rutledge” ter sido substituído no Brasil por “Audazes e malditos” só se justifica pela duvidosa necessidade de se colocar títulos espetaculares e com aparência de filmes de faroestes. De fato, para boa parte do público do gênero, à época em que foi lançado, um bom filme de faroeste tem muitos tiros, vingança, maldições e audácia. No caso de “Sergeant Rutledge”, no entanto, não há nenhuma maldição nem mesmo audácia por parte de ninguém (talvez do advogado, mas ainda assim, apenas indiretamente).

Ocorre que mesmo num filme relativamente secundário como “Sergeant Rutledge”, é possível entender o porquê de John Ford ter tido fãs tão ardorosos. A ponto de Orson Welles afirmar ter visto “No tempo das diligências” mais de quarenta vezes. Apesar da aparente simplicidade (inclusive técnica) de seus filmes, a impressão que se tem é a de que nada no filme poderia ter sido feito de modo diferente; de nada sobrar ou faltar para o resultado final. O que faz soar como quase irônico o modesto comentário do próprio John Ford, ao dizer que não fazia filmes por amor à arte, mas sim para poder pagar suas contas…

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Em “Sergeant Rutledge”, um soldado negro do exército americano (e não havia muito tempo que os negros haviam sido incorporados ao exército) é acusado de haver violentado uma jovem e matado seu pai. O crime nem é anunciado no início do filme. Passa-se rapidamente à retrospectiva de acontecimentos que envolveram o soldado, e logo depois para o julgamento. E uma contínua dúvida passa a ser a principal: se não foi ele o autor do crime, por que ele próprio não o diz? Na sequência, e para decepção dos fãs mais ortodoxos do gênero (os mesmos, para os quais o título original foi modificado para “Audazes e malditos”), o restante do filme transcorre – para satisfação de outra legião de fãs – num longo e cada vez mais tenso julgamento do soldado.

Condenado por todos antes mesmo do julgamento – a ponto de se espantarem com a chegada do desnecessário advogado de defesa – toda a história vai sendo recontada, e na mesma medida, o infame preconceito e discriminação das pessoas da cidade por um lado, e por outro, a incontornável dignidade e grandeza moral do soldado. Menos que os fatos, aparentemente convincentes, sua condenação se deve a uma espécie de ideia prévia de culpa. Na dúvida, um negro é culpado.

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Um detalhe, mas talvez dos mais importantes: como em outros filmes anti-racistas – “Adivinhe quem vem para jantar?”, por exemplo – a denúncia do racismo foi feita por meio de personagens completamente íntegros. Não se trata de objetar, para o caso, o erro de idealização do herói. Significa antes, uma escolha do diretor. A denúncia do racismo poderia ter sido feita por meio da simples e fácil desqualificação do outro; no caso, dos moradores da cidade. Mas, nesse caso, talvez fosse possível pensar que, em conflitos dessa natureza, tudo se resume a uma questão de oportunidade. Estivessem os negros no papel de moradores da cidade, e um branco na condição de acusado, tudo daria no mesmo. No filme, porém, o soldado não acusa ninguém ao por perceber que já havia sido prévia e inapelavelmente condenado. O advogado, por sua vez, igualmente acima da infâmia coletiva, tenta demonstrar por um lado o erro que está sendo cometido e a correção de caráter do soldado, maior que a de todos que o julgavam. O respeito do personagem é adquirido por suas próprias qualidades, e não pela desqualificação do outro.

Num gênero com recursos expressivos tão limitados quanto o faroeste, mesmo pequenas alterações temáticas costumam não dar bons resultados. São raros os casos em que índios fazem o papel de heróis, em que não existam cavalos, que o ambiente natural não seja inóspito ou que ninguém atire em ninguém. No caso de John Ford, foi ele não apenas o responsável pela reabilitação do gênero (antes de “No tempo das diligências”, o faroeste vivia sua primeira fase de decadência), como mais tarde por significativas inovações. Não são também muitos os faroestes que têm como temática central o racismo; e em menor número ainda, sem incorrerem em descaracterização. Em “Sergeant Rutledge”, a típica grandeza – estética, narrativa, dramática… – dos filmes de John Ford se materializam com absoluta perfeição na figura do soldado que se recusa a fazer o papel de vítima. Elevando-se, com esta atitude, muito além daqueles que injustamente o acusavam.

sergeant_rutledge CTítulo original:  Sergeant Rutledge
Gênero: drama.
Elenco: Woody Strode, Jeffrey Hunter e Constance Towers.
Direção: John Ford
Duração: 111 min.
Ano: 1960.
País de origem: Estados Unidos.

 

 

ribeiro-fabio* FÁBIO RIBEIRO VIANA é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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