Um hippie na Casa Branca?

grumanJACQUES GRUMAN*

 

Até a hiena e o abutre falam em pacto e conciliação – enquanto a carcaça dura
(Millôr Fernandes)

É um país estranho. Lá, o campeonato nacional de baseball é chamado de “world series”. Políticos de um partido republicano misturam religião com interesse público, fé com política (num flagrante atentado contra os mais elementares fundamentos de uma República moderna). Olhem só o que disseram dois de seus postulantes à presidência do país:

“Eu não defenderia que colocássemos um muçulmano no comando desta nação. Eu absolutamente não concordaria. A fé de um presidente dos EUA deve ser consistente com a Constituição. Acho que o Islã não cumpre essa condição” (Ben Carson)

“Muçulmanos devem ir para países de maioria islâmica. Deveríamos dar refúgio aos cristãos perseguidos” (Ted Cruz)

Agora, para animar a torcida norte-americana, surge um candidato à presidência que se diz “socialista”. Bernie Sanders está dando um sacode num jogo que não é para amadores. Gente do ramo calcula que os gastos gerais na campanha de todos os candidatos oscilarão entre 3 e 10 bilhões de dólares. Neste último caso, equivaleria ao PIB da Macedônia ou da Armênia. Será apenas um modismo? O que o Bernardinho entende por socialismo? Tem alguma chance de enfrentar a máquina do Partido Democrata, certamente inclinada para Hillary Madame Sorriso Clinton?

Sempre houve, dentro da esquerda, um debate acirrado sobre o projeto socialista. O século XX testemunhou o nascimento e o colapso das primeiras experiências socialistas, que deixaram um enorme acervo de conhecimento político. Via pacífica ou revolução armada? Revolução mundial ou socialismo num só país? Frentes únicas ou frentes amplas? Partido único ou multipartidarismo? Cada realidade, cada conjuntura, cada correlação de forças, levou a escolhas que se incorporaram à história das grandes lutas populares. Este emaranhado complexo de erros e acertos se viu ofuscado pelo fim da Guerra Fria. Como a História oficial é escrita pelos vencedores, tratou-se de satanizar em bloco o lado derrotado. Socialismo revolucionário virou apelido de Belzebu, máscara do Sete-peles.

unnamedÉ evidente que Sanders não está nem aí para este tipo de polêmica. Ler sua plataforma é uma experiência de volta no tempo, para alguma comunidade hippie. Muito bem intencionada, mas que de socialismo não tem sequer aroma. Ele critica duramente a concentração de renda nos Estados Unidos (0,1% dos bilionários ganham o mesmo que 90% da população), o achatamento da classe média, os baixos índices de qualidade de vida vis-à-vis outros países de industrialização avançada (a taxa de pobreza entre as crianças é a mais alta neste grupo de países). No entanto, o que propõe? Um banho de loja no capitalismo, maquiando seus aspectos mais sórdidos, mas sem mexer em nenhum de seus fundamentos. Permanecerão inalterados os pilares do capital: a busca incessante pela maximização do lucro, a exploração de mais-valia, a propriedade privada dos meios de produção. Com os corolários tóxicos do militarismo e da destruição ambiental. Sanders quer, enfim, que exista socialismo sem banir as exigências vitais do capital.

Isso me leva a Fourier, um socialista utópico. Rebento da aristocracia falida pela Revolução Francesa, virou um burocrata. Para dar um pouco de sentido à sua vida, elaborou um sistema igualitário, baseado em estruturas que chamou de falanstérios. Quem financiaria aquele projeto? Ora, pensou Fourier, os próprios burgueses, que tinham recursos e conquistaram o poder político em 1789. Colocou um anúncio nos jornais, convidando-os a doarem parte de seus lucros. Ficou esperando os doadores durante muito tempo. Em vão. Aprendera que a classe dominante jamais financiará sua extinção.

Bernie é fofo, viaja na classe econômica, tem uma história honrada, gostaria que mais gente pudesse frequentar as universidades privadas de alto nível, defende um sistema de saúde que proteja toda a população. Legal, mas volto a perguntar: o que isso tem de socialismo? Trata-se de uma simplificação, que mais confunde do que explica. Seria mais esclarecedor encontrar na plataforma a estratégia, e não apenas a intenção, para desafiar o poderio das grandes corporações. As militares, por exemplo. Em 2015, os gastos militares representaram mais de metade (54%) de todos os gastos federais. Em termos mundiais, os Estados Unidos concentram quase 40% do total de despesas militares. Sozinhos, gastam mais a cada ano do que a soma de todos os nove países que lhe seguem na lista dos “mais letais”. A economia americana é profundamente dependente do complexo militar, que tem lobbies poderosos no Congresso.

Mister Natural (Crumb) 1[2]Não acredito que o “socialista” tenha chance de derrotar a senhora Clinton, que acumula séculos de janela na malandragem e no domínio do aparelho burocrático. Se derrotar, enfrentará uma rejeição imediata dos 50% de norte-americanos que afirmam que jamais votariam num socialista (outros 9% não votariam num judeu). Sem mobilização popular, sem apoio parlamentar expressivo, um presidente “socialista” estaria à beira do fracasso. Mesmo o programa de reformas “socialistas” seria provavelmente bombardeado, isolado e barrado. Disso tudo resulta desqualificar totalmente o “fenômeno” Sanders? Depende. Acho muito positivo que ele esteja mobilizando gente jovem num processo que costuma ser tedioso e plastificado. No entanto, e olha a experiência histórica do socialismo dando uma dica, não basta ir para a rua por um tempo para provocar mudanças. Está aí o movimento Occupy Wall Street que não me deixa mentir. É muito mais importante que o engajamento não termine com a eleição. Terá Sanders a capacidade, e mesmo o desejo, de se comprometer além das fronteiras limitadas do processo eleitoral? Evoluirão, ele e os que o seguem, para alguma forma de projeto anticapitalista, aí, sim, socialista, saindo da ilusão da reforma por dentro? Se nada disso acontecer, restarão as memórias do verão de 1968, do sonho californiano (todas as folhas marrons, o céu cinzento, mamães e papais), do amor livre sem HIV, dos concertos ao ar livre em San Francisco. Paz e amor, Bernie.

* JACQUES GRUMAN é Engenheiro químico, ativista da esquerda judaica laica e internacionalista. Escreve crônicas semanais, sempre às segundas-feiras.

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Um comentário sobre “Um hippie na Casa Branca?

  1. Excelente reflexão. Poucos intelectuais de esquerda têm esse distanciamento. Aliás, no Brasil, temos dois ex-hippies próximos ao poder e longe do socialismo: João Santana (PT) e José Luis Penna (PV), que começaram a carreira em Arembepe, na Bahia, em 1969. Parabéns pelo artigo.

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