Lula será capaz de romper com o “lulismo”?

CÁSSIUS MARCELUS TALES MARCUSSO BERNARDES DE BRITO*

cassius

Tornou-se comum dizer que a principal criação de Lula foi a Dilma. Essa ideia é tão forte que, da primeira eleição de Dilma até a atual crise, muitos ainda ficam discutindo as relações de amor e ódio, de ruptura e continuidade, de rebeldia e obediência entre o criador e sua criatura. Considero esse um debate que tem, quando muito, uma importância secundária, porque não é na relação pessoal que se define o perfil específico de cada governo, mas no seu programa e a qual composição de classes ele atende. Isso serve de prelúdio apenas para dizer que, se quisermos dar uma conotação parental ao problema, devemos identificar naquilo que se convencionou chamar de “lulismo” a verdadeira cria de Lula (embora não seja, do ponto de vista genético, uma criação original).

Não há uniformidade no que se entende por “lulismo”. Há quem, inclusive, considere o termo inadequado para designar a forma política que vigorou durante o período de Lula na presidência da República. Eu estou inclinado a concordar com quem pensa desta forma. Contudo, se levarmos em consideração que vem das fileiras petistas a mais famosa versão da tese do “lulismo”, vamos toma-la como ponto de partida para discutir as possibilidades que tem Lula e o PT de dar uma eventual “volta por cima” depois dos acontecimentos do último 04 de Março – condução coercitiva do ex-presidente para depor na Polícia Federal, em Congonhas.

André Singer (porta-voz da presidência da república no primeiro governo Lula) define o “lulismo” recorrendo à dialética da virtude e da fortuna de Maquiavel: a conjuntura econômica internacional favorável (em crescimento), especialmente pelo aumento do preço das commodities, durante o período Lula, ofereceria a oportunidade (fortuna) para um projeto de crescimento com distribuição de renda, sendo Lula um homem de virtude que teria aproveitado esse momento e, através de um conjunto de políticas públicas, logrou tirar da extrema pobreza milhões de brasileiros[1] e possibilitado a criação de milhões de vagas de emprego, valorizou o salário mínimo em termos reais, facilitou a oferta de crédito, levou o Estado a ampliar sua função de planejamento econômico, etc. Havia, contudo, uma condição para tudo isso: evitar qualquer radicalização política, o que traria como consequência a formação de um pacto conservador. Não é minha intenção, aqui, discutir a correção da tese de Singer, mas apenas usá-la como recurso heurístico para analisar as possíveis saídas para o Lula e o PT dentro dos seus próprios termos.

A viabilização do lulismo, portanto, contou com uma ampla e complexa rede de articulação e conciliação política. Singer usa os dados das eleições para tentar provar a tese de que a base de sustentação política do lulismo é o subproletariado, aquela parcela da população trabalhadora que não está incluída entre os empregos com melhores salários e mais direitos sociais, mas está na informalidade, em empregos precários e de baixa remuneração, além dos desempregados e dos pauperizados. Com base nos dados sobre a distribuição dos votos, Singer sustenta que no pleito de 2006 ocorreu um “realinhamento eleitoral”, em que o PT perde apoio nas camadas médias (salários médios e alta escolaridade) – principalmente por conta dos efeitos do “mensalão” –, o que, contudo, é mais do que compensado com a adesão em massa do subproletariado.

Mas se olharmos para o lado de cima da pirâmide social, perceberemos que a coisa é mais complexa. O realinhamento eleitoral não explica sozinho a base de apoio “lulista”. O jornalista Rodrigo de Almeida publicou, em 2007, um artigo intitulado “Caixa 1 de Interesses”, que mostra a distribuição das contribuições de campanha declaradas à Justiça Eleitoral entre as candidaturas do PT e do PSDB nos pleitos de 2002 (Lula e Serra) e 2006 (Lula e Alckmin). Os dados da tabela abaixo (p. 40 da revista) permitem verificar se também teria havido um realinhamento no interior do “bloco no poder”, isto é, as frações do empresariado que disputaram a hegemonia na condução do Estado brasileiro durante o período Lula.

tabela 3Fonte: ALMEIDA, 2007, p. 40

Alguns dados saltam à vista:

  1. O financiamento de campanha para as duas candidaturas saltou de R$ 55,7 milhões, em 2002, para R$ 120,8 milhões, em 2006, um aumento de 116,6%;
  2. Embora o setor Financeiro tenha sido o campeão no montante total de contribuições às candidaturas nos dois pleitos, houve uma redução na sua participação no montante total (passou de 33,8% para 21,7%), ao mesmo tempo em que houve um aumento significativo do setor da construção civil e imobiliário (de 5,8% para 19,1%);
  3. Em 2006, PT e PSDB arrecadaram praticamente o mesmo montante do setor financeiro: R$ 12,7 mi e 13,46 milhões, respectivamente. Embora o PSDB tenha recebido cerca de R$ 1 milhão a mais que o PT, é visível um avanço significativo do PT como destino de doações neste setor, uma vez que em 2002 ele contribuiu com cerca de R$ 6 mi para o partido, enquanto, neste ano, o PSDB recebeu mais que o dobro do PT;
  4. Lula foi também preferido nos setores da construção civil e imobiliário, setor de bebidas, químico e petroquímico, siderúrgico e – pasmem – no setor de comunicações;
  5. Se, em 2002, o montante recebido por ambas as candidaturas fora praticamente igual, em 2006, Lula foi preferido pelo empresariado de um modo geral, pois recebeu R$ 75 milhões, enquanto Alckmin recebeu R$ 45,8 milhões, o que mostra que o empresariado não estava tão dividido como fazia parecer.

Outras conclusões poderiam ser tomadas a partir destes dados, mas considero que estas bastam para o propósito deste texto.

Em algumas análises, os acontecimentos do dia 4 de Março podem dar um novo fôlego ao PT, pois, ao constranger Lula publicamente sem necessidade jurídica, o juiz Sergio Moro, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal deram a ele a oportunidade de recuperar, com ampla cobertura da imprensa, o discurso perdido e resgatar a antiga imagem de lutador e perseguido pela classe dominante brasileira, que vinha sendo desgastada em decorrência da crise do governo Dilma. Em seu discurso na sede do PT, Lula deu mostras de ter a intenção de percorrer o Brasil e incendiar a militância e simpatizantes contra a caracterização de um eventual golpe jurídico e midiático (o que eu ainda chamo de “luta de classes”). Há quem diga ainda que, no palácio do planalto, há convicção de que o país caminha para uma radicalização política.

De fato, o PT é o único partido do país que tem base social capaz de mobilizar-se politicamente em defesa própria. A incursão direta contra seu principal líder pode agitar os ânimos da militância que estavam travados por conta da sensação de “estelionato eleitoral” do atual governo Dilma.

Contudo, seria Lula capaz de romper com a sua própria cria, ou seja, romper o pacto conservador do lulismo? Seriam ele e o núcleo dirigente do partido capazes de promover uma radicalização política? E com qual objetivo? Qual o comportamento do empresariado em uma eventual radicalização política?

E a militância, conseguirá quebrar a autonomia do núcleo dirigente e submetê-lo às bases do partido para evitar que os frutos de uma eventual radicalização política sejam vendidos ao empresariado que financiou suas campanhas no passado recente?

brito* CÁSSIUS MARCELUS TALES MARCUSSO BERNARDES DE BRITO é graduado em Fisioterapia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) – Campus de Cascavel e em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). É especialista em Teoria Histórico-Cultural pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).

[1] Singer, com base nos dados da PNAD e na evolução do índice de Gini, sustenta que o lulismo teria reduzido a desigualdade social no país. Contudo, é preciso dizer que o índice de Gini mede apenas as rendas do trabalho e não leva em consideração a evolução da concentração da propriedade (patrimônio), o que é medido pela desigualdade funcional de renda. Estudos recentes mostram que a desigualdade funcional de renda não foi afetada durante o período Lula. O que houve foi, em decorrência do crescimento econômico, uma subida em bloco da pirâmide brasileira, sem que a desigualdade interna fosse alterada. Ver: NETO e SABOIA: Distribuição Funcional da Renda no Brasil: Análise dos Resultados Recentes e Estimação da Conta da Renda; e MEDEIROS, SOUZA e CASTRO: A estabilidade da desigualdade de renda no Brasil, 2006 a 2012: estimativa com dados do imposto de renda e pesquisas domiciliares.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s