Cultura inútil

grumanMARCELO GRUMAN*

E lá se vão mais de onze anos que juntei meus trapos com Renata e, nessa eternidade, uma coisa que a incomoda profundamente, com razão embora já não tão intenso assim, é meu profundo senso utilitário da vida. Mande-me fazer compras e eu vou comprar exatamente aquilo que está na lista, sem tirar nem por. Nosso apartamento é uma gracinha, aconchegante, decorado, tudo pensado pela minha senhora, assim como nossa adega, sempre bem fornida com os vinhos brancos e rosés de que eu gosto (sim, sou sensível, vinho tinto é pra macho). Estou mais preocupado em manter canos e tubulações funcionando adequadamente, com o varal que precisava ser trocado porque a corda se rompeu, com a Internet que parou devido à incompetência da companhia telefônica, com o telefone fixo que ficou mudo devido à incompetência da companhia telefônica de novo, com as contas do mês que ficam sob minha responsabilidade, com o pinga-pinga da torneira da cozinha e a descarga do banheiro que dispara e me obriga a chamar o bombeiro do condomínio, com a infiltração que o meu banheiro causou no banheiro do vizinho de baixo. A necessidade de controlar o incontrolável. Pergunta importante: qual a relação custo/benefício? Comida japonesa, só rodízio. Pra quê pedir pizza neste lugar se, naquele outro, pelo mesmo preço, encomendamos duas ainda que nossa fome caiba naquela uma mesmo? Para piorar a situação, meu extremo zelo (obsessão? paranoia?) com a saúde meu filho de seis anos, transbordante de saúde, me exige um gasto de energia físico e mental tão grande, marcando alergista, oftalmologista, dentista e outros “istas” que acaba interferindo no prazer que pai e filho devem ter, sempre. Flores, nem pensar. Romantismo zero. Théophile Gautier, o poeta francês, me dá lição de moral:

Nada do que é belo é indispensável à vida. Se as flores fossem eliminadas, o mundo não seria materialmente afetado; mas quem gostaria que não houvesse mais flores? Com todo prazer, eu renunciaria antes às batatas que às rosas, e acredito que somente um utilitarista poderia ser capaz de destruir um canteiro de tulipas para plantar repolhos. (…) Para que serve isso? Isso serve para ser belo. Não basta? Como as flores, como os perfumes, como os pássaros, como tudo aquilo que o homem não pôde desviar e perverter para que pudesse tirar proveito. Geralmente, tão logo uma coisa se torna útil ela deixa de ser bela.

Em minha defesa, as más companhias me fizeram mudar um pouco a forma como vejo o mundo. Ao fazer o supermercado, dou uma olhada nos sucrilhos de que meu filho e minha mulher gostam, dependendo do preço eu levo. Sair do roteiro já não é uma transgressão tão subversiva que aumente em anos as sessões de terapia. Não viajamos para comprar o último modelo de celular, preferimos gastar nosso rico dinheirinho com comida e bebida, trazemos geleias e doce de leite. Em Buenos Aires, minha cidade preferida dentre as que conheço, vamos atrás das pizzas escondidas nas biroscas mais improváveis, longe do roteiro pega-turista. Anos atrás, sozinho na capital portenha, comi o melhor pedaço de carne de toda a minha vida, sentado numa mesa do lado de fora do restaurante, tomando uma taça de vinho tinto porque fazia um friozinho de outono, a lua cheia de frente para mim porque o céu estava limpo, meus olhos se encheram d’água. Pronto. O prazer da vida. A inutilidade da vida. O sentido da vida.

***

Toda esta divagação inútil (!) me veio à cabeça com os estertores, ao menos momentâneo, do governo da presidente Dilma Rousseff, na iminência da votação, no Senado Federal, do seu impedimento por até cento e oitenta dias. Em doze anos de governo petista, o Ministério da Cultura viveu altos e baixos quando observamos seu orçamento, atingindo quase o 1% preconizado pela UNESCO em determinado ano da gestão de Gilberto Gil à frente da pasta. Hoje, o MinC agoniza financeiramente. Uma de suas autarquias, a Fundação Nacional de Artes, convive com um passivo de dezenas de milhões de reais de editais realizados em 2015 e cujos premiados ainda não viram, e possivelmente não verão a curtíssimo prazo, a cor do dinheiro.  De qualquer forma, é inegável que a cultura ganhou certo protagonismo nas políticas públicas do estado brasileiro, sobretudo porque se realçou sua dimensão econômica, olha a utilidade aí de novo dando as caras, a possibilidade de geração de emprego e renda para quem trabalha e vive do fazer cultural. Ou seja, mesmo que aos trancos e barrancos, a Cultura permanece como questão de Estado digna de representatividade na Esplanada dos Ministérios.

Em nota intitulada “corte” e publicada na coluna Painel, do jornal Folha de São Paulo do dia 18 de abril, lê-se que a equipe do ainda vice-presidente da república, Michel Temer, lhe apresentou proposta de fundir os Ministérios da Educação e da Cultura, assim como as de Desenvolvimento Agrário e Agricultura. Novamente a Cultura é encarada como a prima pobre, a cereja no bolo, o supérfluo, afinal, ninguém come Cultura, embora ela seja alimento pra alma. Cultura não enche barriga de ninguém, dizem os idiotas da objetividade. Aliás, um dos expoentes de nossa cultura, Nelson Rodrigues nunca foi tão atual quando diz que “outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”.

Nova divagação. A Cultura e a arte não servem para nada. O nada, aqui, claro, é no sentido da utilidade técnica. A comida que comemos é cultura e, muitas vezes, arte, que o digam grandes chefs como Ferran Adrià e o nosso Alex Atala. Come-se com os olhos, esteticamente. Deixa-se de comer por tabus alimentares, judeus religiosos (e não tão religiosos assim, vão na onda dos “legítimos”) não chegam perto de um leitão à pururuca, hindus não podem sentir o cheiro de um filé à francesa. A comida é a construção cultural do alimento, se assim não fosse, poderíamos passar a vida todo comendo formiga (fonte de proteína, dizem uns). A Cultura é o sentido da vida, é a construção social da realidade nua e crua, somos humanos porque produzimos e somos produto da cultura em suas mais variadas formas, sons e gostos. A Cultura é devir, não servir. Resgatando Eugène Ionesco:

Se não se compreende a utilidade do inútil, a inutilidade do útil, não se compreende a arte; um país que não compreende a arte é um país de escravos ou de robôs, um país de pessoas infelizes, de pessoas que não riem nem sorriem, um país sem espírito; onde não há humor, não há riso, há cólera e ódio.

Acabar com o Ministério da Cultura, como ele está agora, é chutar cachorro morto, é empurrar bêbado ladeira abaixo. Seu orçamento é exíguo se pactuarmos que o “ativo simbólico” da sociedade brasileira beira o infinito, enquanto emendas parlamentares impositivas e financiamento através do perverso mecanismo de renúncia fiscal, cuja reformulação ainda precisa ser aprovada e sancionada, só fazem aumentar e inchar artificialmente os números da cultura e da economia da cultura, o útil inútil. Ah, o Ministério da Cultura não tem “diretoria que fura poço”…

Diante da proposta dos ministros de cortar os recursos destinados à cultura, o escritor Victor Hugo proferiu o seguinte discurso na Assembleia Constituinte no dia 10 de novembro de 1848:

Eu afirmo, senhores, que os cortes propostos para o orçamento especial das ciências, artes e letras são negativos por dois motivos. São insignificantes do ponto de vista financeiro e danosos sob todos os outros pontos de vista. Insignificantes do ponto de vista financeiro. Isto é tão evidente que me sinto constrangido ao submeter à assembleia o resultado de um cálculo proporcional que fiz… O que pensariam, senhores, de um indivíduo que, tendo uma renda de mil e quinhentos francos, dedicasse todo ano à própria formação intelectual… uma soma absolutamente modesta de cinco francos, e que, num dia de renovação, decidisse economizar cinco centavos com sua própria formação?

Passados quase cento e setenta anos, o discurso do romancista francês cabe como uma luva no atual contexto político nacional. Políticas públicas são, por natureza, de longo prazo, portanto, tome-se uma decisão de uma vez por todas: ou a Cultura é questão de Estado e, merece tratamento condizente com tal status, ou é coadjuvante de temas mais importantes, mero animador de torcida no intervalo do jogo. Sigam, se for o caso, o conselho de Maquiavel, “quando fizer o bem, faça-o aos poucos; quando for praticar o mal é fazê-lo de uma vez só”.

Chega de coito interrompido.

Referência

ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil: um manifesto. Rio de Janeiro: Zahar. 2016.

* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Atualmente é administrador cultural da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Email: marcelogruman@gmail.com

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3 comentários sobre “Cultura inútil

  1. Li e gostei. Um texto que em boa hora (trágica, é verdade) seja um chamamento para a importância fundamental da cultura no sentido colocado pelo autor. Que o estado… seja convocado a fomentar a cultura e não relegá-la a um estado de inanição permanente. Parabéns ao Marcelo pela beleza de seu texto, jocoso e sério, responsável.

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