Fundamentos da educação do campo: história, legislação, identidades camponesas e pedagogia

GEOVÂNIO ROSSATO* e WALTER PRAXEDES**

praxedesA formação de educadores do campo, assim como a de todos os educadores, ocorre em um processo gradativo que depende de alguns pressupostos. O primeiro e o mais importante é que cada educador deve se conceber como um agente em contínua formação, assumindo para si aquela máxima filosófica e educativa que nos ensina que “o próprio educador deve ser educado”.

Quando o educador admite para si mesmo que é um agente em formação, e que está sempre aprendendo com a reflexão crítica e a própria prática na escola e nos estudos, ele não vai se considerar um professor definitivamente pronto e dono da verdade. Um segundo pressuposto para a formação do educador do campo é ele reconhecer a importância dos demais participantes na ação pedagógica, tanto os outros educadores, quanto os estudantes, seus familiares, membros das comunidades e movimentos sociais, para que seja estabelecido um diálogo entre todos os agentes envolvidos nos processos educativos.

Ao longo deste livro discutimos como esta nova modalidade educativa, em vias de consolidar-se efetivamente enquanto ampla realidade educacional brasileira, forjou-se na luta pela conquista e/ou permanência na terra encabeçada por organismos e movimentos ligados aos povos do campo, sejam eles de matiz religioso, acadêmico, social ou sindical, entre outros.

Por essa razão, suas raízes mais profundas encontram-se no histórico desejo dos trabalhadores rurais de superar a excludente tendência urbanocêntrica que assolou e segue assolando a estrutura agrária e fundiária brasileira, ao longo da edificação do mundo moderno. Processo que deliberadamente promoveu um êxodo rural sem precedentes na história, inviabilizando, em geral, o modus vivendi dos povos do campo, levando-os a uma marginalização estrutural, ao mesmo tempo em que lhes atribuiu a insígnia do atraso e do inculto. Ainda, tal como veremos, as origens mais recentes desta proposta educativa surgem após o período da ditadura militar brasileira (1964-1985), sobretudo durante o transcurso da década de 1980. Raízes que ao longo dos anos de 1990 permitiram-lhe expandir-se e estruturar-se oficialmente até lograr sua legalização e regulamentação na década de 2000, alcançando, desse modo, o status de política pública educacional por parte do Estado brasileiro.

Portanto, a atual proposta de Educação do Campo consolidou-se enquanto uma modalidade política e educativa específica que se desenvolve de modo alternativo ao modelo educacional rural hegemônico, dedicado este a formar empregados ou assalariados rurais, voltado, afinal, à consolidação do “agronegócio” e do mercado. A proposta de Educação do Campo tenta fazer do processo de escolarização um espaço de emancipação e autoafirmação dos camponeses, buscando transformar as escolas do campo em uma instituição que contribua para a democratização do acesso e permanência a terra no sentido de promover justiça econômica, social e ambiental.

Deste modo a Educação do Campo, diferentemente da chamada Educação Rural, organiza-se enquanto uma modalidade inclusiva de educação, ao promover o acesso e a permanência dos trabalhadores do campo nos diferentes níveis de escolarização por meio de uma proposta pedagógica que busca preservar e potencializar a identidade do camponês, seus processos culturais e suas estratégias de vida e de produção.

Este livro foi escrito com a intenção de contribuir para o debate sobre o currículo da educação do campo no Brasil, discutindo seus fundamentos a partir de uma abordagem educativa interdisciplinar. Em nosso entendimento, esse debate deve fazer parte da formação dos educadores do campo, tendo em vista a construção de um novo projeto de Brasil e de campo a partir de uma discussão sobre a qualidade da educação dos brasileiros. Para tanto, construímos um itinerário de estudos que se inicia com a discussão sobre os pressupostos históricos da educação do campo na sociedade brasileira, seguida por uma exposição sobre as transformações ocorridas na legislação a respeito dos processos educativos dos povos do campo em nosso país.

Apresentamos a história, as lutas políticas, os fundamentos legais e as normas que regulamentam a Educação do Campo, que, a nosso ver, reconhecem-na como uma modalidade inclusiva de educação que pode contribuir para a democratização das relações fundiárias e agrárias brasileiras, no sentido de mitigar ou até mesmo superar o histórico processo de sua exclusão social e política. O passo seguinte foi discutirmos os processos de construção das diferentes identidades camponesas, recorrendo a alguns pressupostos teóricos da antropologia, da política e da sociologia. Por fim, abordamos alguns temas pedagógicos da educação do campo, envolvendo o debate filosófico sobre a concepção de ciência que deve informar o educador do campo, uma discussão de conteúdo linguístico e literário sobre a importância da oralidade nas culturas camponesas, bem como sobre os processos didáticos de avaliação educativa e participação comunitária nas relações sociais que definem os conteúdos curriculares.

geovanio-praxedes* GEOVÂNIO ROSSATO é Doutor em Antropologia Cultural e Pós-Doutor em Antropologia Social e História da América – ambos pela Universitat de Barcelona, Espanha; docente do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá.

** WALTER PRAXEDES é Cientista Social, Mestre e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professor associado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (PR). Blog: https://walterpraxedes.wordpress.com/

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5 comentários sobre “Fundamentos da educação do campo: história, legislação, identidades camponesas e pedagogia

  1. Bom dia,sou um cidadão que moro numa comunidade perigosa na grande metropole de sp.No passado os Morros no Rio de Janeiro eram chamados também cidade maravilhosa.Os pastores camponese,etc…
    .Meu Tataravó por parte de minha avó materna veio ser feliz no coração do centro do mapa de sp no interior do estado em Marília,ganhou muita grana antes da Guerra mundial a segunda que dilapidou a humanidade até agora sentimos o glamor… … …
    .Um de seus filhos viveu bem no Paraná recente ,não como no comecinho de 1900 ,já no ano 75,mas a nevada faliu produtores,não haviam seguros safra e essa desgraça alheia persistiu no Brasil por muitas e muitas decadas.Hj em dia há condições basta vencer licitações.Então crise econômica não pode existir a Alemanha todo esse tempo na zona do Euro tem superado,não há espírito de crise nada,e nada… … …

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