Reféns da modernidade

MARCELO GRUMAN*

giddens 4

Atenção, tripulação. Pouso autorizado”. Neste momento, coloco o assento na posição vertical, ajusto o cinto de segurança e fecho a mesinha usada para comer o lanche oferecido pela companhia aérea, cada dia mais e mais raquítico. Em poucos minutos, o avião desce mais de dez mil metros e, já próximo do solo, somos surpreendidos com a arremetida da aeronave uma, duas vezes até que, finalmente, dentre mortos e feridos, salvam-se todos. Que estranho, não chovia no momento do pouso. Obviamente o piloto é um incompetente, deve passar urgentemente por um curso de reciclagem, ou a aeronave apresentou algum problema e não pôde realizar o procedimento adequadamente em sequência, deve ser isso. Falta de manutenção, absurdo. Sim, ninguém parece ter notado, mas eu vi uma fumacinha saindo de onde deveria sair única e exclusivamente o ar condicionado, e também achei estranhíssimos os barulhos que o avião fez tanto antes de sair do “estacionamento” do aeroporto quanto ao preparar-se para o pouso. Sem falar, claro, das asas que se retraíam e se dilatavam sem qualquer motivo aparente. Não quero mais saber dessa geringonça, o homem não foi feito pra voar, está aí o Ícaro que não me deixa mentir. Deus pune quem tenta ludibria-lo. Vi a morte de perto, certo?

Erradíssimo. Morro de rir com as estórias contadas por um amigo comandante de uma dessas geringonças voadoras, de passageiros em surto psicótico por causa das “luzinhas” de algum vilarejo perdido no meio da floresta amazônica que pareciam muito perto do avião. O comandante, diz meu amigo, deve se preparar, normalmente, para a arremetida da aeronave, é o procedimento de rotina, o pouso é ponto fora da curva… Ou seja, cautela e canja de galinha não fazem mal para ninguém. Isso sim é gestão de risco. Em momento algum corri risco de vida nesta minha imaginária aventura, e deve-se ressaltar que, a despeito do que leigos tendem a pensar, inúmeros fatores levam a uma arremetida, não só uma tempestade. Uma ventania, por exemplo. A fumacinha que saía era exatamente o ar condensado do ar condicionado, o barulho que ouvi ainda no “estacionamento” nada mais era do que o bagageiro se fechando, e aquele que me deixou em pânico na descida nada mais era do que o trem de pouso se aprontando para o toque no solo. Ah, e as asas que “se retraíam” e “se dilatavam” durante o trajeto fazem parte do ajuste que o comandante realiza para um melhor desempenho da aeronave.

Pausa para a teoria. O sociólogo Anthony Giddens afirma que vivemos uma época marcada pela desorientação, pela sensação de que não compreendemos os eventos sociais e que perdemos o controle. A modernidade transformou as relações sociais e também a percepção dos indivíduos e coletividades sobre a segurança e a confiança, bem como sobre os perigos e riscos do viver:

A modernidade, pode-se dizer, rompe o referencial protetor da pequena comunidade e da tradição, substituindo-as por organizações muito maiores e impessoais. O indivíduo se sente privado e só num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecidos em ambientes mais tradicionais. (SILVA apud GIDDENS, 2002: 38)

Na sociedade moderna, estamos permanentemente vinculados a sistemas abstratos com os quais interagimos cotidianamente e que não dependem diretamente de um conhecimento aprofundado da nossa parte sobre o seu funcionamento. Não tenho a menor ideia de como funciona um avião, não o compreendo nem tenho intenção de compreendê-lo e, por isso, não o controlo, apenas torço para que vá do ponto A para o ponto B. Temos de confiar no perito ou especialista, ou seja, dentre outros, o piloto. Reprimimos (é esse mesmo o termo?) o medo de entrar na caixa de aço e tratamos de tentar esquecer a falta de controle porque, caso contrário, só mesmo à base de lexotan e rivotril. Aliás, muitos vão por esse caminho.

Outros poucos exemplos da necessidade de crer nos peritos e especialistas. Quando entramos num elevador, outra caixa de aço, acreditamos que os responsáveis por sua construção fizeram um bom trabalho e que, assim que apertamos o botão de um andar qualquer, as portas se fecharão e cabos o alçarão ao local indicado. De modo geral, tirando os claustrofóbicos e medrosos em geral, não imaginamos que o sistema irá falhar, que parará no meio do caminho, que deveremos pedir socorro aos bombeiros e que passaremos vergonha porque estávamos apertados para ir ao banheiro e a bexiga não aguentou a espera. No caixa eletrônico do banco, quando apertamos os dígitos corretos, esperamos que, “naturalmente”, as cédulas de reais sairão do local indicado, ninguém imagina que o dinheiro será encaminhado à conta corrente de outra pessoa. Acreditamos que os especialistas em informática projetaram o sistema digital financeiro corretamente, o que também serve para as operações realizadas online, dos laptops, smartphones, e IPads. Os sistemas peritos criam, segundo Giddens, grandes áreas de segurança relativa para a continuidade da vida cotidiana.

Outra consequência da modernidade é a separação tempo-espaço, dando margem ao surgimento de mecanismos de desencaixe, entendendo-se este desencaixe como o “deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço” (Giddens, 1991:29), retirando a atividade social dos contextos localizados, reorganizando as relações sociais através de grandes distâncias tempo-espaciais.

Exemplos concretos e próximos de todos nós. Vira e mexe minha impressora do trabalho para de funcionar e tenho de contatar a divisão de informática para resolver o problema. Geralmente, os técnicos acessam minha máquina remotamente, eles ficam em outro prédio. É engraçado ver que a setinha de meu computador vai se movendo sem a minha interferência. Outro caso é o Netflix, serviço de streaming de vídeos no qual eu, minha esposa e meu filho estamos dependentes e, sem o qual, entramos em séria crise de abstinência. Dia desses, o Netflix parou de funcionar, entrei em contato com a central de atendimento e, maravilha das maravilhas, fui informado que a Samsung, marca do meu televisor, havia atualizado um programa (software) do aparelho e que, para normalizar a recepção do serviço de vídeos online deveria contatá-los para ajustar o que devia ser ajustado, simplesmente repeti ao técnico da Samsung o que me foi dito na ligação anterior. Para mim, é tudo grego, cada macaco, quer dizer, cada especialista no seu galho. A moça do outro lado da linha me pediu uma série de comandos e, de repente, perdi o controle do meu televisor. Novamente a setinha que aparecia na tela do televisor era comandada por uma pessoa que não estava do meu lado no sofá da sala, possivelmente a centenas de quilômetros dali, possivelmente São Paulo pelo sotaque. Após umas três tentativas (às vezes, a tecnologia não é tão tecnológica assim), a paz voltou a reinar no clã dos Gruman. Miguel podia ver Apenas um Show e nós, Breaking Bad.

Na semana passada, um juiz de Sergipe ordenou, por 72 horas, o bloqueio do serviço de mensagem instantânea whatsapp até que a empresa responsável liberasse as mensagens trocadas por traficantes de drogas. Mais de cem milhões de usuários foram afetados pela decisão. O popularíssimo serviço é usado, na maior parte, para troca de mensagens, fotos e áudios desimportantes, para entretenimento. No entanto, para outra parte ainda significativa, a possibilidade de transmissão instantânea de informações por dados e voz foi incorporada à vida profissional, negócios são fechados através do aplicativo, outros são desfeitos. Telefone fixo é coisa do passado, mesmo o telefone celular serve contanto que “turbinado” com uma série de aplicativos ou funcionalidades “básicas” para o homem moderno. Para chamar um táxi, nada de ficar esperando o carro no meio da chuva ou do sol de rachar a cuca, bastam uns poucos cliques na tela do smartphone e, em poucos segundos, fica-se sabendo o nome do motorista, o tipo e a placa do carro e o tempo estimado para a chegada. Ainda dá tempo de terminar a taça de vinho.

A despeito da decisão do juiz, o fato é que não temos controle sobre os sistemas de informática. O “zap zap”, apelido dado ao whatsapp, funciona ou deixa de funcionar independente de nossa vontade, e os mesmos negócios podem ser fechados ou desfeitos a qualquer momento se o único meio de realiza-los é por meio virtual. Nada de apertos de mão ou sinal com o dedo indicador na esquina da rua. Somos cada vez mais dependentes dos sistemas peritos e isso é meio apavorante. Quando a luz acaba, acendemos velas. E quando o sistema de emissão de tickets da companhia aérea “dá pau”, e os funcionários tem de emiti-los manualmente? Milhares de usuários são afetados, centenas de voos sofrem atrasos ou até cancelados, aqueles mesmos negócios são perdidos. O que não tem remédio, remediado está.

Hoje, vivemos naquela expressão, “se fugir o bicho pega, se ficar o bicho come”. A dependência dos sistemas peritos e dos respectivos especialistas é inescapável. O que podemos fazer é reduzir a quantidade destes sistemas dos quais dependemos. Não dá para deixar de acessar o caixa eletrônico do banco, nem deixar de pegar o elevador para subir ao vigésimo andar (até dá, mas cansa) ou simplesmente usar o telefone celular para, ora vejam, fazer ligações telefônicas. O Netflix caiu? Pegue um livro ou vá ouvir música. O aplicativo do Uber não está funcionando? Desça, vá até a calçada e chame um táxi. O whatsapp foi bloqueado por um juiz desalmado? Olhe para frente e fale diretamente com o interlocutor, ou espere um tempo para mandar a foto do filet mignon que está comendo naquele exato momento. O Facebook e o Twitter saíram do ar? Elabore melhor as ideias que quer transmitir e envie por e-mail mesmo, não se contente com 140 caracteres. Se o e-mail não funciona, mande uma carta. Se o correio está em greve, aí sim, sente no meio-fio e comece a chorar.

A vida em 2D também pode ser interessante.

 

Referências

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp. 1991.

____. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2002.

SILVA, Antonio Ozaí da. Anotações sobre a modernidade na obra de Anthony Giddens. Revista Espaço Acadêmico, n. 47, 2005. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/047/47pol.htm

gruman* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Atualmente é administrador cultural da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Email: marcelogruman@gmail.com

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