Uma ideologia linguística

ELOÉSIO PAULO*
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Antes de mais nada, delimitemos o campo. A linguística é hoje uma ciência de espectro tão abrangente que vai da fonética até a análise do discurso, passando pela aplicação da teoria, por exemplo, ao ensino de idiomas. Ou seja, de um ramo bastante aparentado das ciências naturais até outro situado no extremo oposto, em que as diversas ciências humanas lutam, muitas vezes sem sucesso, para inserir-se numa prática científica desenvolvida a partir do modelo de Galileu, cujo lema era mensurar o que fosse possível e tornar mensurável o que não o fosse. Rigorosamente, portanto, talvez apenas a fonética e a fonologia possam reivindicar o status de ciência, digam o que disserem os critérios da Capes, uma agência muito útil para a pesquisa brasileira, mas cuja verticalidade burocrática nivela por meio dos mesmos instrumentos de avaliação as mais diversas práticas que aspiram à cientificidade ou são a isso obrigadas pela lógica do fomento aos estudos especializados no país.

Depois, não usemos de maneira vaga o conceito de ideologia. Em sua síntese da evolução histórica desse conceito, Terry Eagleton adverte que, caso se refira a todo e qualquer fenômeno cultural, o termo perde totalmente sua aplicabilidade. Consideramos como ideologia, pois, na esteira da tradição marxista, uma visão de mundo que ignora seus próprios pressupostos, suas condições de produção.

O prólogo vem a propósito de questionar a ideologia dominante no ensino de língua portuguesa no Brasil, que permeia fortemente os próprios parâmetros oficiais do MEC, cujo pseudocientificismo é em boa medida responsável pelo nosso analfabetismo funcional endêmico. De acordo com essa ideologia, o principal objetivo da escola é “formar cidadãos”, e um dos principais caminhos para tal, entendem os gurus pedagógicos, é combater o que Marcos Bagno, em seu livrinho hoje tão popular quanto as vertiginosas sacadas de Rubem Alves, chamou de “preconceito linguístico”.

É claro que nenhum preconceito é bom, mas o combate a eles costuma gerar muitos preconceitos de sinal invertido. É também claro que cabe à escola formar cidadãos isentos de preconceitos. O problema está no método que se torna, ele próprio, um preconceito. Formar cidadãos não é oferecer às crianças um pacote ideológico no qual simplesmente se invertem os termos do preconceito: doravante, passa a ser anátema o ensino de um instrumento historicamente útil à cidadania – a gramática. Isso equivale a pensar que a deficiência física pode ser eliminada se todos os estudantes, mesmo os não portadores de deficiência, forem forçados a praticar esportes para-olímpicos.

Sim, a gramática normativa é uma lei elaborada e votada pela classe dominante. Sim, a Nomenclatura Gramatical Brasileira, estabelecida durante o regime militar, peca por não abranger todos os fenômenos da língua portuguesa praticada no Brasil. Questionando a NGB, por exemplo, Mário A. Perini chegou à interessante proposta da Gramática descritiva do português, que altera o modo de fazer análise sintática com base numa proposta mais abrangente e científica. Talvez seja difícil aplicá-la nas escolas, mas ela poderia fazer parte da formação do professor de português, o que daria a este ao menos a oportunidade de considerar dialeticamente o problema do ensino da gramática. Sim, é fato que muitos professores assassinam o gosto pelo idioma português reduzindo as aulas a enfadonhos exercícios gramaticais – que têm, para os mestres preguiçosos e acomodados, a grande vantagem de lhes permitir fazer o mesmo que seus assemelhados da área de Exatas: fumar no corredor enquanto os alunos gastam a maior parte de uma aula resolvendo exercícios.

Diferentemente do empreendimento de Perini, que não permite uma leitura ligeira, o livro A língua de Eulália, em que Bagno romanceia o preconceito linguístico, tem-se transformado numa espécie de oráculo dos combatentes antigramaticais, muitos dos quais, senão a maioria, ignoram que a gramatiquice vigente na cultura brasileira na virada para o século XX foi o principal saco-de-pancadas de poetas como Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Oswald de Andrade. Estes, por meio de textos que se tornaram clássicos, foram os pioneiros da luta contra o preconceito linguístico. Com uma diferença em relação aos atuais ideólogos bagnistas: dominavam perfeitamente a gramática.

O problema começa aqui. A grande maioria dos praticantes da difamação da gramática simplesmente tropeça nas regras ortográficas e na concordância mais banal. Não são apenas os estudantes em geral que hoje não sabem usar a crase e muito menos o pronome relativo cujo. Seria uma boa pesquisa, por sinal, procurar ocorrências do cujo na obra dos autointitulados linguistas de hoje em dia; certamente daria resultados bem interessantes. E note o caro leitor que é muito difícil substituir o cujo, razão pela qual o não saber empregá-lo produz, em regra, textos de sintaxe estropiada. Quanto à crase, é um mistério conseguirem não apreendê-la, pois ela consiste essencialmente numa opção binária: ou existe um a ou existem dois aa, conforme determinem a regência da palavra que vem antes e a necessidade ou não de um artigo indefinido ou pronome demonstrativo.

A gramática não pode ser o grande objetivo do ensino de português, mas ela tem uma potencialidade da qual os futuros professores deveriam ao menos ser informados. Saber gramática implica o domínio da lógica mais elementar, aquela que falta, por exemplo, a muitos eleitores para serem capazes de discernir os candidatos aptos a representá-los decentemente. A sintaxe, principalmente, tem a ver com operações lógicas básicas como exclusão, consequência, alternativa.

É até possível concordar em parte com os que pensam ser o ensino de gramática opressivo, pois decorar as definições de sujeito e objeto não necessariamente ajudará o aluno a entender por que esses termos da oração não devem ser, em construções sintáticas diretas, separados por uma vírgula. (Todo estudo de gramática poderia começar com a leitura do conto “O colocador de pronomes”, de Monteiro Lobato.)

Mas não é possível concordar com os que, digerindo mal o conceito de crítica, transformam a gramática em besta-negra apocalíptica, a ser substituída pela alegre celebração da ignorância. Este é o nosso ponto principal: se a norma culta do idioma é expressão da ideologia dominante, ela não é apenas isso nem isso sempre e tampouco necessariamente. Saber gramática, assim como saber as quatro operações e ser capaz de calcular a área de um retângulo, proporciona ao indivíduo o domínio de instrumentos indispensáveis ao exercício da cidadania. Ou alguém pensa que um cidadão completo pode, em tempos tão regidos por estritas normas econômicas, ignorar o modo como se compõem os juros – aqueles que os bancos cobram no cheque especial, aqueles que tornam o Estado brasileiro a principal fonte de lucro para os grandes capitalistas?

Ensinar que a ignorância da gramática constitui mérito, como faz boa parte dos combatentes contra o preconceito linguístico, significa bem o contrário do que eles imaginam. Significa manter o marginal em sua marginalidade, significa privar o pobre de um instrumento capaz de habilitá-lo a compreender e discutir mecanismos que afetam sua vida. Privado de gramática, ele estará privado de uma voz respeitável no mercado de trabalho, pois quem fala “nóis vai” já é visto com desconfiança numa entrevista de emprego que mire o nível médio. E têm razão os preconceituosos, na maioria das vezes: se o erro gramatical não pode ser considerado um pecado em si, sua reiteração evidencia estar-se tratando com um sujeito iletrado, quer dizer, alguém que só por algum milagre multiplicativo, que a Rede Globo e a internet decididamente não operam, teria passado pela experiência qualificada de linguagem que é homóloga à tarefa de tornar-se bom cumpridor de tarefas comunicadas (ainda que por meios eletrônicos) em português padrão. Alguns deslizes gramaticais equivalem, na prática, a ignorar a diferença entre virar à esquerda e virar à direita, apertar o botão de cima ou o de baixo.

Muitas vezes, a pregação bagnista confunde a necessidade de ser crítico com a possibilidade de ser opiniático. Saia-se entrevistando gente aí, em qualquer grande cidade brasileira, e logo se encontrarão dúzias de pessoas capazes de opinar “criticamente” sobre os mais diversos assuntos, até mesmo sobre problemas inexistentes. Mas analisem-se as opiniões com lupa, e elas evidenciarão uma indigência intelectual acabrunhante, uma dependência total do senso comum fabricado pela mídia, uma falta quase absoluta de lastro informativo.

É necessário repetir aqui: ao convencer aluno o pobre de que não precisa dominar o registro linguístico da classe dominante, o professor está ajudando a lavrar uma sentença. Esse pobre deixará de ter acesso a instrumentos essenciais para a própria politização preconizada pelos ideólogos “libertários”, isso para não falar de muitas oportunidades de ascensão social. Por mais que esse idealismo com antolhos queira, sua pregação não mudará o fato de que, nos concursos para os melhores empregos, o domínio da gramática é um filtro essencial. E isso não mudará por decreto, já que as competências exigidas por esses empregos passam pelo domínio razoável do idioma, pois historicamente tal domínio se tem demonstrado um critério seguro, ainda que não suficiente, para a mensuração do preparo intelectual de alguém. Outra vez: isso não mudará somente porque existem pessoas que, entrincheiradas no obsoleto aparelho ideológico das escolas, confundem os próprios desejos ou recalques com os contornos do mundo exterior.

Note-se que não falamos aqui de literatura ou filosofia. Os grandes escritores, que nem sempre são seguidores escrupulosos da gramática, produziram e produzem a experiência mais qualificada em termos de uso do idioma. Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Teles escreveram suas obras não necessariamente dentro da gramática, mas em relação a ela. Toda a filosofia disponível em língua portuguesa exige, para ser conhecida, um mínimo preparo do leitor no que tange ao domínio do idioma, e às vezes um conceito filosófico se define por sutilezas essencialmente gramaticais. Quando se falasse de poesia, então…

Os paladinos da ignorância como um saber alternativo estão o tempo todo dizendo ao pobre que ele não precisa de nada disso para ser cidadão; enganando-o ao fazê-lo crer que poderá ter acesso à cidadania plena mantendo-se na autocomplacência do “nasci assim, serei sempre assim”. Até os jesuítas eram mais generosos com as vítimas de sua catequização, pois violentavam a condição existencial dos selvagens oferecendo-lhes algo que acreditavam ser melhor e que logicamente seria, caso existisse.

Todo esse trabalho anticivilizatório, claro, não é culpa apenas de alguns ramos da linguística contaminados de marxismo vulgar. Mas o modo como essa ciência é praticada no Brasil, ou pelo menos a versão dos estudos linguísticos que chega à sala de aula, é um exemplo clássico – ao lado de outros mais graves, como a glorificação do bandido feita pela TV – de ideologia. E um motivo forte para que os interessados na educação comecem a discutir as implicações ideológicas de sua eventual adesão à cruzada contra o “preconceito linguístico”, expressão que às vezes soa como eco longínquo de algum filme de Mazzaropi ou peça de Martins Pena.

 

paulo* ELOÉSIO PAULO é professor da Universidade Federal de Alfenas (MG) e publicou, entre outros, os livros Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008) e Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014).

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6 comentários sobre “Uma ideologia linguística

  1. Simplesmente, excelente! Todos deveriam ler e apreender o conteúdo riquíssimo e lúcido do artigo de Eloésio Paulo, este sim, um exímio conhecedor da nossa língua! Parabéns, e obrigada pela importante colaboração!

  2. .PODERIA TAMBEM LHE PROPOR VC LER O SEU ARTIGO COLOCANDO EM FORMA INVERSA E DIZER QUE E NECESSARIO APRENDER AS FORMAS DITAS NAO CORRETAS NO UNIVERSO GRAMATICAL, PARA NAO CORRER O RISCO DE TORNARMOS UNS ANALFABETOS DA RICA EXPRESSAO CULTURAL, COM TODA A SABEDORIA QUE ELA CARREGA. COM TODA A CIENCIA QUE ELA NOS TRAZ,escrever certo, escrever errado ¿ es ai a questao……lamentavelmente escrever certo nao garantiza pensar certo, ter critica propria mas e claro precisamos nos desenvolver com certa tranquilidade nos mil mundos que o brasil oferece….o problema e que os 999 mundos do brasil foram esquecidos e marginalizados pela gramatica…….. sera que boa escrita garantiza acidadania¿?

  3. Muito obrigado pelo seu comentário, Regina. Realmente ninguém escapa da ideologia, no máximo se pode render ao grau zero. Só esclareço que não estou propondo o repúdio às variantes do idioma, somente propondo o reconhecimento de que conhecer a norma culta é útil e necessário. Abraços.

  4. Muito interessante comparar os artigos do Professor Eloésio Paulo e da Professora Florence Carboni (artigo relacionado acima), ambos bem informados, bem argumentados e trazendo pontos de vista que, opostos, esclarecem mutuamente suas opçoes ideologicas (acho que ninguém escapa…).
    Mesmo admirando a qualidade do texto do Professor Eloésio, discordo do exemplo escolhido por ele, “nois vai”, para ilustrar a incultura, e que seria, numa sociedade realmente culta, aceito como variante linguistica regional ou dialetal, dado que a cultura caipira e sua expressao linguistica ja foram consagradas em obras de arte literaria de alta elaboraçao estética, como os contos de Valdomiro Silveira, seguido e ampliado, por exemplo, por Guimarães Rosa.
    A mim, incomoda mais a falsa cultura corrente no jargao universitario que, esse sim, submete nosso belo e pobre vernaculo a torçoes e distorçoes que fazem a gente se perguntar como vao fazer para entendê-los os pobres alunos desses futuros transmissores de cultura – e vale perguntar: qual cultura?

    Em tempo: li e aprendi com os dois artigos. Mas onde me diverti com discussoes gramaticais, foi na Barca de Gleyre, em que Lobato discute apaixonadamente com seu amigo Rangel sobre lingua e literatura, admitindo com humor suas dificuldades gramaticais (e anunciando o conto citado pelo professor). Abaixo, algumas notas, so para dar um gostinho:

    (MONTEIRO LOBATO, A Barca de Gleyre. São Paulo, Editora Brasiliense, 1959, Tomo 2)

    p 168 Outro gramatico daqui escreveu um enorme tratado sobre a Crase; e consta que o Silvio de Almeida tem 900 paginas ineditas sobre o Til. O livro vai chamar-se: “Do Til”…
    A esta gente o Camilo chamava lombriga do intestino reto de Minerva. Estou com idéia de escrever um conto gramatical, O Colocador de Pronomes.
    p 179 A minha gramatica, você bem sabe, é de ouvido, e os ouvidos humanos sofrem as injunçoes da meteorologia: ora esta’ mais fino, ora mais lerdo, conforme o tempo la fora.
    p 211 Se por acaso algum dia fizer outro livro, hei-de usar aqueles letreiros das fitas:

    Contos de Monteiro Lobato, com pronomes por Alvaro Guerra; com a sintaxe visada por José Feliciano e a prosodia garantida no tabeliao por Eduardo Carlos Pereira. As virgulas sao do insigne virgulografo Nunalvares, etc.

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