Papo pinto

JACQUES GRUMAN*

Judeu estudando
Judeu estudando

Um russo viajava pelo interior do país. Ao parar numa aldeia remota, percebeu que o ponteiro de minutos de seu relógio havia saído do eixo. Andou pelas vielas seculares procurando por um relojoeiro, até que se deparou com uma lojinha, em cuja vitrine estavam expostos alguns relógios velhos. Deduziu, claro, que tinha chegado ao lugar certo.

Ao entrar, deparou-se com um velho judeu, absorvido na leitura de um grosso volume. “Então, meu velho, em quanto tempo você conserta o meu relógio?”. O comerciante sequer levantou os olhos, indiferente à presença do provável freguês. Que, por sinal e com a maior paciência, repetiu a pergunta. Nada. O livro parecia ter hipnotizado o velho, que permaneceu imóvel.

Já meio irritado, o viajante insistiu. “Escuta aqui, você conserta relógios ou não?”. Com gesto de tédio, o judeu rompe, finalmente, o silêncio. “Nunca fiz isso”. “Mas como é possível? Na vitrine da loja você expôs vários relógios”. “Isso aqui não é relojoaria”, retrucou o ancião, completando: “Sou mohel (pessoa autorizada a fazer a circuncisão ritual judaica)”. “Então, por que raios expôs os relógios?”, gritou o viajante. “Ora, com essa profissão, o que você queria que eu expusesse?”, sentenciou o judeu, enfiando a cara no livro e encerrando a conversa.

Essa velha piada, com suas infinitas versões, menciona uma antiquíssima tradição judaica, a circuncisão ritual (brit milá em hebraico). A remoção do prepúcio é feita no oitavo dia depois do nascimento do bebê. Com significado religioso, ela se refere ao pacto que o patriarca Abrahão teria feito com Deus. Pacto que será reproduzido cada vez que um bebê judeu for circuncidado. Maimônides, em seu livro Os 613 Mandamentos, se refere a ele como um preceito obrigatório, sujeito a punição para os que o desrespeitarem (“O varão incircunciso, que não circuncidar a carne do seu prepúcio, essa alma será cortada de seu povo”, Gênesis, 17:14). Com o passar dos anos, esta prática deixou de ter contorno exclusivamente sagrado e se incorporou ao corpo de tradições do judaísmo. Mesmo judeus seculares costumam realizá-la, ampliando o significado para o de adesão à identidade grupal.

Em épocas de perseguições ferozes, tradições não são questionadas. Elas são um amálgama, que fortalece os laços internos e garantem a continuidade. No entanto, períodos de abertura estimulam as dúvidas, coçam o pensamento. Desde o Iluminismo, quando os guetos começam a cair, é crescente o número de judeus que questionam os dogmas e relativizam/adaptam suas práticas. O pensamento mágico e as obrigações deixam de ser mandatórios. Há, claro, muita resistência, na linha do que dizia o saudoso psicanalista Hélio Pellegrino: nunca se deve subestimar o recheio conservador das pessoas. Vivi, anos atrás, uma experiência ilustrativa. Moderei um debate na ASA, entidade judaica progressista do Rio, sobre a circuncisão. Na mesa, o psicanalista Moisés Tractenberg, ardoroso crítico da circuncisão ritual. Aberta a palavra ao público, um médico, de dedo em riste e com voz alterada, tentou desqualificar a argumentação do palestrante, alegando que a circuncisão era um dos pilares irremovíveis do judaísmo. Chegou mesmo a afirmar que, por mais que a ciência evoluísse, jamais teria autoridade para desaconselhar a prática. Aquele era um assunto para rabinos, não para cientistas. Vejam bem, quem disse isso foi um médico, supostamente pessoa esclarecida e aberta à evolução do conhecimento.

Há indícios de que é crescente o questionamento sobre a obrigatoriedade da circuncisão precoce. Um alentado artigo no jornal Haaretz, de Israel, de junho de 2012, traz importantes contribuições para a polêmica. Antes de mais nada, é preciso levar em consideração que circuncidar é um ato cirúrgico, que envolve anestesia (quando é feita por um médico), corte e cuidados pós-cirúrgicos. Como em qualquer cirurgia, só deveria ser realizada quando há uma indicação precisa. O que não é o caso dos recém-nascidos. Estudos médicos indicam que o procedimento, quando realizado sem anestesia (caso do mohel), pode provocar dor equivalente a arrancar um dente sem anestésico. Quando isso ocorre, há relatos de manifestações pós-traumáticas nos primeiros seis meses, como irritabilidade, choro mais frequente e stress.

Em Israel, enfrentando a ira dos religiosos e dos que temem desafiar tradições, é cada vez maior o número de pais que optam por não circuncidar seus filhos. Baseiam-se em considerações clínicas (não há estudos que comprovem, categoricamente, a ação profilática da circuncisão), psíquicas e mesmo sexuais (há dúvidas sobre a redução do prazer sexual em quem é circuncidado). Estes “subversivos” estão se organizando em grupos e incentivando o debate sobre a questão. Claro que jamais convencerão os religiosos, para quem o assunto não se coloca no terreno da razão, da compreensão.

A permanência do brit milá em nosso tempo tem um quê de intrigante. Sendo um pacto, acaba sendo imposto a um ser humano que ainda não tem condições de opinar. É irreversível. Na modernidade, todos temos o direito de construir nossas identidades (assim mesmo, no plural), a partir de escolhas conscientes. Por esse ângulo, a circuncisão ritual é uma agressão a este direito. Pactos se firmam quando ambas as partes sabem o que se está pactuando. Há inúmeras formas de aderir ao judaísmo, desde a religiosa tradicional (definida pela matrilinearidade) até as que destacam a cultura, a história e aspectos subjetivos. O judaísmo de Woody Allen, como o meu, é certamente diferente do praticado pelo Lubavitcher Rebe. Para quê serve, nesse emaranhado, um pacto de sangue? Se é para preservar essa ideia de acordo prévio, que não tem a minha simpatia, que tal lavrá-lo num contrato com validade limitada, a ser confirmado quando a parte envolvida tiver condições de compreender o que foi assinado? Ah, Jacques, essa lógica não vale nada quando confrontada com o universo mágico da religião. São mundos imiscíveis. Concordo, melhor eu deixar de ser besta.

Em 2005, o premiado escritor israelense Meir Shalev escreveu em sua coluna do jornal Yedioth Ahronoth: “Não é apenas a circuncisão em si que deveria nos intrigar, mas também o entusiasmo que temos em preservar este costume. Algo de muito estranho acontece aqui. Por que será que judeus seculares, e eu estou entre eles, que não dão a mínima para preceitos como a kashrut (consumir alimentos respeitando as leis dietéticas) e a observância do Shabath (o Sábado judaico, com uma série de proibições), insistem em observar exatamente o mais brutal, cruel e primitivo dos mandamentos? Isso parece extrapolar o puro consenso ou as considerações sobre saúde. Permanece um denso enigma”. Pois é, meu caro Shalev, bulir com tradições é achar contradições (desculpe o mau trocadilho). Ainda mais quando, por trás delas, está uma barragem de ameaças celestiais e sociais que poucos se atrevem a desafiar. Quem é que não prefere um carinho, não é mesmo? De toda essa maçaroca, noves fora sobra uma das muitas e geniais pensatas do Millôr Fernandes, o Irritante Guru do Meyer: “O universo tem mistérios que jamais vamos entender. Um deles é essa mania de querermos entender os mistérios do universo”.

gruman* JACQUES GRUMAN é Engenheiro químico, ativista da esquerda judaica laica e internacionalista. Escreve crônicas semanais, sempre às segundas-feiras.

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Um comentário sobre “Papo pinto

  1. Muito boa recapitulaçao dos varios aspectos de uma tradiçao tao arraigada que ja virou “natural”, “aceitavel”.
    O que me faz pensar num dito (de quem? esqueci) afirmando que “qualquer mentira, quando bastante repetida, vira uma verdade”.
    Mas talvez nao seja por ai. Certamente é mais complexo e tera la suas razoes historicas e antropologicas.
    E ai vao algumas perguntas que ja vinha tendo vontade de fazer:
    Por que a circuncisao permanece viva entre os povos do Oriente Médio, esses semitas de origem nômade, tribos arabes e judias, os mesmos que nao comem carne de porco, etc etc. Haveria uma visada higiênica original, ligada ao calor, à carência de agua, ao nomadismo ?
    Mas em matéria de barbaridade e crueldade, tem coisa pior, enfim, pelo menos do meu ponto de vista.
    O que dizer do correspondente feminino, ainda mais sadico e ainda mais inexplicavel? A excisao ainda hoje é praticada entre varios povos africanos, mas quais? Muçulmanos? Animistas?
    Acho que o dia em que um lider desses povos tiver força suficiente para suprimir essas crueldades, vai criar um tal tsunami civilizacional que pode até mudar a conjuntura dos confrontos atuais. O sucesso de Mao na China, p/ex, nao teria sido o mesmo se ele nao tivesse tido piedade das mulheres, cujos pés deformados por ataduras que os reduziam a pezinhos de coelho, as obrigavam a andar manquitolando, mesmo para ir trabalhar na terra, na cozinha…
    Nossa, como o horror é inspirante! Paro por aqui.

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