Só ficou o vazio

JACQUES GRUMAN*

Dana Edita Fischerova de Teffé
Dana Edita Fischerova de Teffé

Uma senhora elegante saiu de seu apartamento, em Copacabana, e foi se encontrar com seu advogado. Nunca mais foi vista. Interrogado pela polícia, o advogado contou que o carro em que viajavam em direção a São Paulo foi interceptado na altura de Angra dos Reis, sendo a sua acompanhante sequestrada por espiões comunistas (!). Não, meu aflito leitor, não se trata de ficção política escrita por um guerreiro frio retardatário, nem romance policial inspirado em tedioso plantão de delegacia. A distinta senhora se chamava Dana Edita Fischerova de Teffé, ou, simplesmente, Dana de Teffé, milionária tcheca de 48 anos, residente no Brasil desde os quarenta e cinco. O advogado, que tinha procuração para cuidar de seus bens, era Leopoldo Heitor Andrade Mendes. Dana desapareceu em 29 de junho de 1961 e seu corpo jamais foi encontrado. Leopoldo foi acusado de assassinato e ocultação de cadáver e, embora condenado em 1963 a trinta e cinco anos de reclusão, cumpriu apenas oito. O crime prescreveu em 1981, sem ter sido jamais elucidado. Num Rio de Janeiro pouco habituado àquele tipo de crime, o povo se encantou com os elementos novelescos, de mistério e glamour, que o cercavam. Uma estrangeira bonitona e rica, um advogado charmoso e, tudo indica, inescrupuloso. Cheiro de pecado no ar, sexo e polca nas bocadas. Bomba de fragmentação para muitas colunas de fofocas nos jornais. David Nasser, jornalista que nunca foi exemplo de ética, chegado a um sensacionalismo barato, deitou e rolou à exaustão no caso. Decorridos 55 anos, restaram uma vaga lembrança no imaginário popular, um crime jamais solucionado (o processo jaz na imensa pilha do arquivo morto da Justiça) e um bordão sempre usado pelo Carlos Heitor Cony quando quer falar dos grandes mistérios cósmicos: onde estão os ossos de Dana de Teffé?

Mães de Acari
Mães de Acari

Quase trinta anos depois, com a criminalidade escalando e ganhando estrutura militarizada, um assassinato coletivo ganhou as manchetes. No dia 26 de julho de 1990, onze pessoas foram sequestradas e mortas por um grupo de extermínio. Eram, quase todos, moradores do bairro de Acari, subúrbio do Rio abandonado pelas autoridades e pelos deuses. Unidas pelo trauma e temperadas pelo desejo de justiça, um grupo de mulheres formou as chamadas Mães de Acari, que, desde então, tentam encontrar os corpos de seus filhos chacinados. Uma delas disse que, depois de tantos anos de sofrimento, “só ficou o vazio”. Como sempre acontece quando se matam os pobres, os indesejados, os invisíveis, desqualificam-se as vítimas. Foram rotuladas de “mães de bandido”, “loucas”. Passados mais de vinte anos, as investigações não chegaram a lugar algum. Os criminosos estão impunes. Em 1993, Edméia da Silva Euzébio, uma das mais ativas mães na luta por justiça, foi assassinada quando tentava conseguir informações sobre o paradeiro de seu filho Luiz Henrique da Silva Euzébio. As vozes cansadas destas pessoas só são ouvidas, cinicamente, em época de eleição. Os nomes escondem histórias de gente simples, que não aparecem nas fotos e submergem no vórtex da mídia, sempre em busca de novos espetáculos.

Sheila Cristina da Silva
Sheila Cristina da Silva

Por falar em fotos, uma delas comoveu quem ainda não está anestesiado pelo cotidiano violento do Rio. A guerra civil que as Olimpíadas não conseguirão esconder. Nela, Sheila Cristina da Silva, moradora do morro do Querosene, aparece com o rosto salpicado de sangue, hemácias fundidas com o sal úmido que brotava dos olhos arrasados. Seu filho Carlos Eduardo tinha sido baleado na cabeça, na porta de casa. Desesperada ao ver o corpo de filho, Sheila mergulhou as mãos no sangue de Carlos e lambuzou o rosto com ele. “É meu próprio sangue”. Removido o corpo, ninguém sabia informar para onde tinha ido. Levou mais de um dia para que lhe dissessem que o haviam levado para o IML de Nova Iguaçu. Lá chegando, Sheila descobriu que o corpo havia retornado para o Rio. Quatro dias se passaram até que pudesse, finalmente, enterrar o filho. As autoridades fluminenses estão contribuindo para criar novas modalidades olímpicas. Desespero à distância, maratona dos impunes, tiro aos pobres, salto dos demagogos, arremesso de esperanças.

Nada contra se horrorizar com os sucessivos ataques terroristas no mundo. O recente massacre numa boate de Orlando, por exemplo, não pode ser atenuado por “justificativas razoáveis”. A gente fica escandalizado por existir um país em que um fuzil AR-15 é classificado como “arma de caça e defesa pessoal”, onde se compra certos modelos de fuzil por menos do que custa um celular de última geração, onde se apela para a Bíblia e a Constituição para defender o livre trânsito de armas. Oceanos de tinta molham as páginas de revistas e jornais discutindo o que se passa nos Estados Unidos, enquanto aqui, debaixo dos nossos narizes, tragédias diárias atingem as periferias dos grandes centros urbanos. Espaço incomparavelmente menor se oferece na mídia para divulgá-las. Os “grandes temas” estão fora das fronteiras do apartheid social e midiático. Basta comparar. Quanto tempo em horário nobre da televisão aberta teve Sheila e seu rosto ensanguentado? Quanto tempo, e chamadas com destaque, ganhou a rainha da Inglaterra, aquela múmia fofa, quando completou noventa anos? Quem governa nossas prioridades? Para Sheila e as Mães de Acari, comissão de frente do Rio profundo, que não cabe nas planilhas dos burocratas, esperança e justiça estão paralisadas numa artéria entupida. Mas não precisam se preocupar. O legado olímpico nos redimirá.

gruman* JACQUES GRUMAN é Engenheiro químico, ativista da esquerda judaica laica e internacionalista. Escreve crônicas semanais, sempre às segundas-feiras.

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3 comentários sobre “Só ficou o vazio

  1. A estupidez é resultado medíocre das nossas escolhas atrás de emoções e desejos ocultos por a fina casca civilizatória. Os mortos e os que nascem sob o acaso de um crime social ficam ávidos de justiça, Mas, a comemoração (conjunto de memórias), vai somando-se com o tempo as tragédias recentes. Assim o passar dos dias, meses e séculos. Vai diluindo nossas expectativas. O final é uma lembrança no rodapé do que é quase-esquecimento. Que mostra um castelo de areia edificado de frente para o mar revolto.

  2. E’ muito importante relembrar nosso passado nacional, nao deixar apodrecer arquivos mortos. Fica ainda melhor quando o texto tem força épica para fazer reviver essas tragédias tao facilmente esquecidas.

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