A estupidez da “escola sem partido”

MARCELO GRUMAN*

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/282192-11
Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/282192-11

Nesta semana, a escola do Miguel realizou suas Olimpíadas. Na cerimônia de abertura, cada uma das quatro equipes, representadas pelas cores azul, verde, amarelo e vermelho, desfilou com seus “atletas” e porta-bandeiras, observados de perto por quatro jurados responsáveis pela avaliação do desempenho da evolução dos componentes tal qual uma escola de samba. A nota foi somada àquela obtida pelos “atletas” nas respectivas modalidades olímpicas, dentre as quais, o tradicionalíssimo “totó” (ou pebolim, para certas regiões mais provincianas do país), determinando a posição de cada uma das cores no panteão olímpico. Em meio à euforia do acendimento da pira e das palavras da representante do comitê olímpico escolar, os porta-bandeiras, estudantes do ensino médio, puxaram o coro de “Fora Temer” e “Golpistas, fascistas, não passarão”, acompanhados por muitos dos adultos que ali estavam para prestigiar os filhos. Um dos mini-atletas brandia um cartaz em que se lia “escola sem pensamento crítico não é escola”. Na cerimônia de encerramento, entoaram-se os mesmos coros além de “machistas (…) a América Latina será das feministas”.

Em 2014, a escola do Miguel realizou a “descomemoração” do golpe que implantou a ditadura militar por mais de duas décadas em Pindorama. No folheto distribuído à época, intitulado “Para que nunca mais aconteça”, há explicação para a participação institucional da escola nesta “descomemoração”, qual seja, a de que ela nasceu de um sonho de liberdade e de justiça social, comprometida com a formação humana, “acreditando que o ser humano se faz historicamente, a partir de relações sociais e interpessoais” e apostando “que o presente pode fazer um futuro mais humano quando conhece, compreende o que se passou”. Alunos do ensino fundamental e do ensino médio participaram de diversas atividades, incluindo a coleta de depoimentos de pessoas que resistiram à opressão nos anos de chumbo. Chamava-nos muito a atenção a instalação, produzida pela Anistia Internacional, composta por grandes réplicas de escudos militares com informações sobre crimes cometidos durante a ditadura militar, bem na entrada da escola.

É comum vermos cartazes espalhados pelas paredes da escola com frases questionando a cultura do estupro e o machismo que ainda imperam na sociedade medieval brasileira. No inverno carioca, ainda que não chegue aos pés do de outras regiões do país, pedidos de doação de roupas para quem precisa. Em duas paredes, os alunos puderam intervir do jeito que bem quiseram, ao menos é esta a impressão. Um monte de desenhos e frases, boa parte delas exortando à liberdade de expressão e de criação, uma das minhas preferidas sendo a singela “menos tretas, mais tetas”. Tem de tudo. Bob Marley, Sigmund Freud, o onipresente Che Guevara, Bertolt Brecht, Sheldon Cooper, o personagem autista da sitcom The Big Bang Theory. Diversidade sexual, pois não. Aos mais atentos, observam-se casais homoafetivos circulando pela escola. Miguel teve uma professora lésbica (ou será bissexual? Na verdade, quem se importa?). Até aqui, nenhum trauma visível.

A escolha por colocar nosso filho numa escola que dá importância à discussão de temas que dizem respeito à cidadania e à história recente de nosso país, posicionando-se criticamente e tomando partido de um dos lados, politicamente, não é, obviamente, desprovida de interesse. Sabíamos, de antemão, que a orientação pedagógica primava, sobretudo, à formação do indivíduo dotado de massa crítica, inserido como sujeito ativo e responsável pela realidade que o circunda. Não concordamos, necessariamente, com tudo o que é transmitido a partir do projeto pedagógico nem com o posicionamento político, ainda que velado, do corpo docente e demais funcionários, mas concordamos com este projeto pedagógico de uma forma geral. Se não concordássemos, Miguel estaria estudando em outra escola. Muitos pais tiraram seus filhos porque, embora os pequenos estejam ainda no segundo ano do ensino fundamental, a preocupação com o ENEM é tamanha que a preferência é, desde cedo, acostumá-los à concorrência feroz a uma das vagas das universidades mais prestigiosas do país. Quilos de deveres de casa por semana, provas, pressão por desempenho desde já. É uma escolha, não a nossa.

O que me deixa feliz é a inserção crítica dos alunos em seu meio social. Goste-se ou na Dilma (eu não gosto da Dilma, tampouco gosto do Temer), goste-se ou não de homossexuais (eu não gosto nem desgosto, o mesmo com os heterossexuais, não é uma característica que se deva gostar ou desgostar), eles existem e devem ser compreendidos segundo um arcabouço teórico e valorativo cuja responsabilidade de transmissão é tanto dos pais quanto da escola. Meu filho tem a oportunidade de discutir temas que fazem parte de seu cotidiano, ainda que ele não tenha ainda muita consciência, coisa que eu não tive. Lembro-me perfeitamente do dia em que uma multidão de alunos descia a Rua das Laranjeiras em direção à Candelária para mais uma manifestação pelo impeachment de Fernando Collor, ouvíamos a rapaziada entoando slogans e nós numa aula qualquer, de matemática ou português, totalmente alheios ao que se passava à nossa volta. Importava mais quantos alunos entrariam na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fui o patinho feio da turma, único a seguir ciências sociais, isto e um punhado de alfafa dava na mesma para a coordenação pedagógica da minha escola.

Então nos vemos diante de um troço chamado “Escola sem Partido”, um “movimento” que prega o fim das “ideologias” dentro da sala de aula, especificamente, aquelas mais à esquerda que pregam o socialismo ou o comunismo. O foco, claro, é dirigido ao Partido dos Trabalhadores que, há muito tempo, nada tem de esquerda, sejamos sinceros. No entanto, os representantes deste “movimento” confundem, involuntariamente porque intelectualmente deficientes, “ideologia” com, digamos, “posicionamento político”. Erroneamente estigmatizado, o termo “ideologia” diz respeito à forma como interpretamos a realidade, são as lentes de aumento que usamos como referência valorativa, simbólica daquilo que nos cerca, daquilo que sentimos, daquilo que vivemos, daquilo que fazemos. Ela tem, inexoravelmente, relação com nossas convicções políticas, inclusive sermos seres apolíticos. Todos nós somos ideologicamente motivados.

Colocar o filho numa escola que preza a diversidade sexual, por exemplo, é uma opção ideologicamente orientada no sentido de estar consoante com os valores professados pelos pais (nós, neste caso) e compartilhados com a escola. Também são ideologicamente orientados os pais que colocam o filho numa escola religiosa ou que só quer saber de passar o maior número possível de alunos nas principais universidades do país, sem criar indivíduos que consigam pensar por si próprios, autocríticos, responsáveis e solidários com o outro. O filósofo italiano Nuccio Ordine lembra que “o estudo é, antes de mais nada, aquisição de conhecimentos que, livres de qualquer vínculo utilitarista, nos fazem crescer e nos tornam mais autônomos”. O projeto pedagógico utilitário é ideológico também. É uma escolha como qualquer outra. Escola sem partido, sim; escola sem tomar partido, não.

A impressão que tenho ao ouvir os defensores do fim das ideologias na escola é que querem, na realidade, a formação de autômatos idiotizados, incapazes de questionar o que quer que seja. A ignorância é método eficientíssimo de controle. Olha a ideologia de novo aí: a alienação intelectual como forma de controlar corações e mentes. Por isso minha emoção em ver o comportamento espontâneo dos alunos, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio, nas cerimônias de abertura e encerramento das olimpíadas escolares. Tive a certeza de que Miguel está no lugar certo.

Detalhe não menos importante: É CAMPEÃO!

* grumanMARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Atualmente é administrador cultural da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Blog: https://desconstruindomarcelo.blogspot.com.br/

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10 comentários sobre “A estupidez da “escola sem partido”

  1. Artigo sem sentido e sem fundamento. A escola atual é partidária, porque reproduz o modelo de sociedade capitalista, baseado na propriedade privada. Portanto, não é porque existem alguns movimentos em algumas escolas que se possa dizer que é escola hoje é boa, formado de cidadãos conscientes. Com relação à questão de escola sem partido, nunca vai existir. Acho falta de visão estratégia os intelectuais e alguns movimentos sociais ficarem discutindo isso. Porque a escola libertária nos marcos do sistema capitalista é impossível. Existem sim, algumas experiências isoladas, como a Escola da Ponte e aquelas que desenvolvem o método de Paulo Freire.
    Cito algumas experiências de partidarismo dentro da escola: alunos são obrigados a rezar Pai nosso. Professores discriminam quem é ateu. Na verdade, os professores, principiantes dos anos iniciais, sempre repassam suas ideologias. E hoje, muitos alunos são manipulados por uma esquerda inconsequente que nada aprendeu com Gramsci e Lênin. O que veja é uma pequena burguesia sem rumo em busca de manter seus privilégios, inclusive intelectuais.

    • Sei lá Marcelo não imagino uma escola sem partido. Sou da língua portuguesa como professora e lógico como cidadã todo e qualquer discurso vem marcado por uma ideologia isso é Bakhtin, poderia usar outra abordagem para dizer que toda e qualquer posição é partidária. Se faz política dentro de uma instituição e possibilitar ao aluno posições discursivas distintas, dialéticas possibilita a crítica sem torná-los cordeiros de Deus. Na minha prática no ensino médio eu era terrível. Dizia o que queria acho até tinha algo de cientista política kkkk, pois há anos atrás, coisa de uns 13 anos atrás, levei um jornal com notícias do RJ, na época o Garotinho iniciava no governo e previ na discussão a falácia constituída nas posições discursivas dele. Isso é análise do discurso. A escola que dei aula em SP, na periferia quase toda ela era formada por mestres e doutores. Todos em sua maioria de esquerda, aprendi muito com a ciências sociais. A esquerda neste pais – sempre disse isso em sala de aula -, nunca existiu.. E mais sempre disse que há uma crise partidária e identitária no pais, uma ameba. A oposição/esquerda está em reagir ao discurso do outro visando ao poder constituído e, sobretudo ao bolso/poder de poucos. Para mim não permitir posições em sala de professores, de alunos, enfim da comunidade escolar é construir autoritarismo velado. O que vemos na atualidade é reação e não ação consciente e/ou inconsciente. Qualquer posição é importante num quadro. A inconsciência me faz pensar na identidade ou no oco identitário do pais. O que ocorre é que às vezes as paixões partidárias são todas reativas, pulsionais.

  2. Muito bom artigo, meu caro. Lucidez, pois. Apenas uma observação: “toto’ ” ou “pebolim” não caracterizam o “provincianismo” de um lugar.

    Um forte abraço!

  3. Muito bom artigo, meu caro. Apenas uma observação: “toto’ ” ou “pebolim” não caracterizam o “provincianismo” de um lugar.

    Um forte abraço!

  4. Esse tipo de debate, se escola deve ou não ter partido, é decorrência do nível do ensino no Brasil ter descido a níveis deploráveis. Eu estudei em escola pública, na zona sul do Rio de Janeiro, na primeira metade do século passado e essas questões não estavam em pauta.

    Na minha turma estudavam filhos de profissionais liberais, de empregadas domésticas, de porteiros de edifício. Cariocas, mineiros, nordestinos, gente branca, preta, mulata, etc. Crescemos, alguns se conservaram amigos e não me recordo de que alguém tenha se tornado homofóbico, racista e que discriminasse gente que seguisse religião diferente da sua.

    Na escola, onde as professoras eram formadas pelo Instituto de Educação ou pela Escola Normal, aprendemos, no mínimo, a ler, escrever e contar. Éramos leitores ávidos. Não havia televisão. Mas tinha rádio, jornais e revistas. No ginásio aprendíamos história e não me lembro de nenhum professor que fizesse proselitismo político. Alguns de nós foram para a direita, outros para a esquerda porque acompanhávamos o que se passava no Brasil e no mundo, como o suicídio do presidente Vargas e e Revolução Cubana, ouvíamos as conversas dos adultos, entre eles os nossos pais, o que aliado a outras circunstâncias, foram nos fazendo tomar posições.

    O homem é um animal político. A política está em todo o lugar. Está na escola e está na nossa casa. As brincadeiras e os jogos de regras são excelentes fontes de educação política. Você só participa se estiver de acordo com as regras. Mas as regras, por consenso, podem ser modificadas ou criadas, de modo a que o indivíduo se submeta à uma regra de cuja elaboração ele tenha participado.

    Quando eu entrei na universidade não havia essa história de “marxismo cultural”. Nem era preciso, pois todos, ou, pelo menos, a maioria, já estava de cabeça feita. A minha experiência mostra que não faz sentido pedir à boa parte dos universitários de hoje que leiam textos de Marx, Engels e Gramsci, para fazer trabalhos. O que resulta desses pedidos é um amontoado de coisas, recolhidas aqui e ali na Internet, que resultam em textos absurdos. Eu sugeri a um reitor de universidade federal que recomendasse aos alunos a obra infantil do Monteiro Lobato. Não se trata de recomendação impertinente, pois pesquisas indicam que setenta por cento do povo brasileiro é infantilizado. Ademais, o professor Affonso Romano de Sant´Anna disse, em artigo publicado no Diário de Minas e no Correio Brasiliense, que alunos de mestrado de hoje não entendem livros de iniciação aos estudos literários que eram usados por ginasianos do passado.

    Do jeito que a escola está hoje, não há partido nem proselitismo político ou religioso que possa tirá-la do buraco. Professor não tem que fazer proselitismo, nem isso é preciso. Professor tem que ser dimensão humana, tem que ter cultura, tem que saber se expressar, usando o vernáculo, tem que ter circunlóquio didático. Tem que ter caráter. E tem, sobretudo, que conhecer a disciplina que vai ensinar. Esse professor exercerá um profundo efeito em seus alunos.

    E a escola, se conseguir que os seus alunos aprendam a ler, escrever e contar, o que não está acontecendo, terá dado um grande passo no caminho da sua redenção.

    Eu observo o sistema de ensino hoje, de alto a baixo, e noto que andam “enchendo muita linguiça”. Deve ser essa a razão pela qual não temos hoje um Gilberto Freyre na sociologia ou um José Guilherme Merquior na crítica literária. Nem um Millôr Fernandes, que só tinha o curso primário ou um compositor como o Cartola, que era favelado e só tinha também o curso primário, mas fez belíssimas letras de música.

    Todavia, temos que nos lembrar que, em 1971, a UNESCO, depois de amplos estudos, proclamou que A ESCOLA FALIU, no Terceiro Mundo. A escolas dos pobres, evidentemente, entre outras razões porque, como disse o Ivan Ilich, “Não se pode obrigar um cavalo sem sede a beber água”.

    Mas isso é assunto para outra ocasião.

  5. Tenho certeza que formar um cidadão com capacidade de desenvolver a própria opinião seja algo fundamental, tanto quanto oferecer a quantidade de conhecimentos científicos que ele precisará para entrar numa boa universidade, porém é necessário lembrar que cada elemento que forma o cidadão deve ser oferecido no lugar devido. A conduta do filho é um dever da família e os conhecimentos técnicos da escola. A escola não deve criar, tão somente ensinar para que à família não caiba ensinar, tão somente criar. Ainda assim um pode ajudar na competência do outro no sentido de a família reforçar pontos do ensino e a escola incentivar o pensamento crítico, respeitando sempre o domínio de cada uma das instituições. A escola deve oferecer os meios para o desenvolvimento da liberdade de pensamento, não oferecer o pensamento: deve ensinar a importância da política, por exemplo, não qual partido seguir.

  6. Republicou isso em luveredase comentado:
    “A impressão que tenho ao ouvir os defensores do fim das ideologias na escola é que querem, na realidade, a formação de autômatos idiotizados, incapazes de questionar o que quer que seja. A ignorância é método eficientíssimo de controle. Olha a ideologia de novo aí: a alienação intelectual como forma de controlar corações e mentes. Por isso minha emoção em ver o comportamento espontâneo dos alunos, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio, nas cerimônias de abertura e encerramento das olimpíadas escolares. Tive a certeza de que Miguel está no lugar certo.”

  7. A pedagogia sempre esteve as voltas com o poder, a propria língua não é destituída de ideologia. Entretanto a crítica tão necessária a formação do aluno só se faz no embate de vórtices dialéticos, mas o que vemos em sala não é bem discussão crítica, mas massa crítica. A voz do povo reproduz. Agora o ideal seria a discussão, fóruns com posições variadas e com direito a toda e qualquer opinião partidária. Para mim é impossível negar a ideologia discursiva, tudo é argumento, posição, papel crítico na palavra e na sociedade. Até mesmo na clínica, para sair um pouco do referente social, busca compreender os desejos dentro na análise clínica, a crítica do indivíduo na relação com outro sociedade. Impor a voz mesmo que seja de massa e propor golpe.

    • A questão das cores, sem querer parecer contraditória, uma vez que para é impossível pensar o espaço escolar destituído de posições e desejos, as cores já construíram comigo um certo mal estar. Em plena eleição, ou melhor, na época das eleições vestia uma determinada cor, mas não o fiz com intenção partidária, e me rechaçaram, foi bastante violento, embora velado. Usamos qualquer cor . O meu desejo como cidadã era outro nas eleições, mas os que me viam com aquela cor não discernia que era só uma cor. Enfim foi um desgaste emocional desnecessário. Então passei a usar cores neutras. Isso é importante, pois minha posição subjetiva, partidaria não foi compreendida. Isso me faz pensar nas bandeiras ideológicas, minha roupa naquele momento não dizia da realidade do meu desejo partidário. Será que nas eleições deveria não se veicular a cor roupa do sujeito? E uma questão a se pensar e debater TB. Bjssss

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