Alejandra Benitez, Esporte, Política e a Pátria Grande

ANISIO PIRES*

 Alejandra Benitez Corazon

Fomos milhões de pessoas no mundo que assistimos a abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. O fato do senhor Temer ter falado escondido, por quase 10 segundos, de forma patética, confirmou que Alejandra Benitez, atleta olímpica da Venezuela, tinha razão. Ele foi vaiado pelas milhares de gargantas presentes no Maracanã, o que já vem acontecendo nas mobilizações prévias ocorridas em várias cidades do Brasil e nas ruas próximas ao estádio, incluídas emblemáticas manifestações individuais, como as de Chico Buarque e Caetano Veloso, que exibiu nas redes seu “Fora Temer” momentos antes de atuar na própria cerimônia, junto com Anitta e Gilberto Gil.

 

Quando sobram motivos para querer dizer alguma coisa (idéias e sentimentos), é fácil escrever. Um pouco depois, fluem as frases, porque contas com a cumplicidade da inspiração e de como é verdade que “mulher que luta, mulher bonita”, contas ainda com o plus estimulante da combativa beleza, algo muito diferente da beleza combativa.

A guerreira venezuelana, Alejandra Benitez, que estará representando a Venezuela nos jogos olímpicos do Rio 2016, tem nos permitido revelar, sem que fosse seu propósito, algo que poderíamos chamar de divisão internacional na partilha do ocultamento e da mentira dos grandes meios de comunicação

As forças democráticas do Brasil vêm denunciando que, enquanto os conglomerados midiáticos locais têm mostrado toda sua parcialidade defendendo o golpe parlamentar dado à presidenta Dilma, a imprensa internacional tem sido menos descarada revelando, em muitos casos, a corrupta imoralidade de seus detratores e as inconsistências das acusações apresentadas para afastá-la do cargo. Mostra disso é que esses meios têm citado estranhas declarações de Hilary Clinton favoráveis a Dilma.

Acontece que até um jornal como a Folha de S. Paulo, que tem manipulado descaradamente pesquisas para favorecer ao governo golpista, deixa passar verdades democráticas pelo seu valor de troca jornalístico. A protagonista que conseguiu atravessar as baterias antidemocráticas dessa canalha midiática foi a medalhista venezuelana Alejandra Benitez. Ela já havia despertado a curiosidade dos brasileiros em 2015, durante os jogos pan-americanos de Toronto, com uma entrevista pouco usual no esporte. Nessa oportunidade ela revelou que, além de se considerar hiperchavista (inclusive exibindo um desenho muito conhecido dos olhos de Chávez no seu uniforme), declarava-se admiradora dos ex-presidentes José Pepe Mujica e Luis Ignácio Lula da Silva. O que ocorreu desta vez é que ela foi favorecida pelas mobilizações populares no Brasil, e pelo inevitável clima de abertura que propiciam os jogos olímpicos os quais permitiram que umas contundentes declarações suas contra o governo golpista chegassem até o público. Estas declarações, aliás, somaram-se ao anúncio recente feito pelo senador democrático Roberto Requião, que disse ter se reunido com 30 senadores contrários à destituição da presidenta Dilma, quando estão sendo necessários 27 senadores para sepultar o golpe no Senado.

Como se ela estivesse adivinhando que ocorreria uma grande manifestação contra Temer na abertura dos jogos olímpicos, Alejandra Benitez deu uma entrevista divulgada pela Folha de S. Paulo[1] e outros meios, onde ela declara sem vacilação que, durante o ato de inauguração dos Jogos Olímpicos, não saudaria o presidente interino, Michel Temer, porque é um “golpista”:

“Lamento, porque pensava que ia passar pelo estádio e iria saudar Dilma, como presidente da república. Mas agora há um golpista (…) e os golpistas são antidemocráticos. Eu sou pela democracia e pela justiça. Queria ver Dilma, e não vou saudá-lo”.

Mas o que foi dito pela Alejandra não se resumiu nessas palavras fulminantes. Demonstrando que também aprendeu do método Chávez do “Por agora”[2], aproveitou a curta entrevista para se lamentar “(…) que não tenha havido um apoio mais contundente à companheira Dilma”. E, para demonstrar do que são feitas as mulheres bolivarianas, ela foi direto com suas palavras ao encontro dos milhões de mulheres brasileiras que apoiam Dilma. Usando muitos dos argumentos que essas mesmas mulheres têm invocado na hora de denunciar toda a sanha que foi descarregada contra a presidenta Dilma, Alejandra declarou:

“Eu, como mulher, acredito que também foi um ato machista, algo patriarcal, contra a mulher. Na política, o homem acredita que deve se impor ante a mulher, e que ela não tem méritos por estar lá (…). Me incomoda. Dói, afeta, sim. Porque sou política, sou mulher e sou de esquerda. Aconteceu comigo também. No mundo dos dirigentes esportivos eles crêem que os homens devem ter domínio absoluto e que as mulheres só servem para acompanhá-los. Eu sigo na política, trabalhando no meu trabalho social, no partido socialista (PSUV)”.

Tendo exposto o que foi dito pela nossa atleta bolivariana, e o tratamento no uso da informação por parte da imprensa brasileira, nos compete agora indagar um pouco como opera a imprensa venezuelana na hora da partilha internacional da mentira midiática que mencionávamos no começo. Por que não tem chegado até a Venezuela as palavras de combate de Alejandra Benitez? Quantos dos milhares de atletas que estão no Rio podem exibir, além de suas qualidades esportivas, opiniões firmes e claras sobre fatos importantes da realidade mundial contemporânea? Se a Folha de S. Paulo, que não partilha nem uma vírgula do que foi dito pela Alejandra, considerou que se tratava de um fato jornalístico relevante, como é que a imprensa venezuelana ignorou “olimpicamente” suas declarações? Reconheçamos, também, em nome da verdade, que é sempre revolucionária, que nós bolivarianos que, sim, estamos comprometidos com a luta democrática do povo brasileiro, estivemos distraídos ou não lhe demos a importância que mereciam estas declarações da nossa compatriota Alejandra. Isto deveria nos servir para melhorar nossa eficácia midiática na hora de enfrentarmos esta Guerra Não Convencional que vai muito além de nossas fronteiras. Hoje nós pelo Brasil, amanhã o Brasil por nós.

Para concluir, vale mencionar também a subjetividade humana que faz parte da sensibilidade de uma compatriota mulher, esportista e política. Alejandra confessou se sentir em casa no Brasil, graças ao trato amável e receptivo que tem recebido do povo brasileiro e que está à espera de que chegue esse dia mágico e especial da inauguração dos jogos olímpicos. Admite, também, que “É difícil conquistar uma medalha, mas não é impossível”. A isto todos os venezuelanos e venezuelanas deveríamos dizer a ela: pra frente, Alejandra, faça junto aos seus companheiros aquilo que você sabe fazer, já que ninguém colocará em dúvida que você e todos nossos atletas darão o melhor de si para elevar bem alto o nome da Venezuela. Mas, neste caso, vamos dizer também a ela que, graças a sua consciência bolivariana, ganhou já a medalha da coragem e da dignidade revolucionária, não vacilando um segundo na hora de defender a justiça, a liberdade e a dignidade de um povo irmão da Pátria Grande.

Nos jogos olímpicos de Londres, de 2012, Alejandra Benitez tinha anunciado a sua aposentadoria, mas depois, por sorte, decidiu voltar atrás. Nesta oportunidade, demonstrando que nós, chavistas, somos, ao mesmo tempo, consciência e alegria Alejandra encerrou sua contundente entrevista com um sorriso malicioso, dizendo ao jornalista que a entrevistou: “Agora não vou dizer que é a última Olimpíada. Melhor esperar”.

***

Os jogos olímpicos acontecem pela primeira vez na América do Sul. Sigamos juntos, construindo a esperança. Somos o mesmo povo. Somos a Pátria Grande de Lula e Chavez. Viva Brasil! Viva Venezuela!

* ANISIO PIRES é Cientista Social pela UFRGS. anisiopires1992@gmail.com@AnisioVenezuela. Tradução: Anisio Pires (http://www.aporrea.org/internacionales/a231928.html). Revisão técnica: Silvia Moura

[1] http://www1.folha.uol.com.br/esporte/olimpiada-no-rio/2016/08/1797591-ex-ministra-da-venezuela-compete-na-rio-2016-e-diz-que-não-saudara-temer.shtml

[2] No dia 4 de fevereiro de 1992, Chávez liderou a famosa revolta militar que o levaria à cena política nacional e internacional. Derrotado o movimento em Caracas concederam a Chávez um breve espaço na televisão para pedir a deposição das armas daqueles regimentos que ainda estavam fora do controle do governo. Ele usou apenas umas 175 palavras em quase 30 segundos que incluíram a enigmática frase de “Por agora” que marcou para sempre o novo destino da Venezuela. Eis aqui a sintética e histórica mensagem desse histórico dia:

“Primeiro que nada, quero dar o bom dia a todo o povo da Venezuela, e esta mensagem bolivariana vai dirigida aos valentes soldados que se encontram no Regimento de Paraquedistas de Aragua e na Brigada de Valencia:

Companheiros, lamentavelmente, por agora, os objetivos que tínhamos planejado não foram alcançados na capital. Quer dizer, nós, aqui em Caracas, não conseguimos controlar o poder. Vocês o fizeram muito bem por lá, mas já é tempo de evitar mais derramamento de sangue. Já é tempo de refletir e virão novas situações, e o país tem definitivamente que tomar um rumo que o leve a um destino melhor. Assim que escutem minha palavra. Escutem ao Comandante Chávez que envia a vocês esta mensagem para que, por favor, reflitam e deponham as armas, porque na verdade já os objetivos que tínhamos traçado a nível nacional são impossíveis de serem alcançados. Companheiros, escutem esta mensagem solidária. Agradeço sua lealdade, agradeço sua valentia, seu desprendimento, e eu, frente ao país e frente a vocês, assumo a responsabilidade deste Movimento Militar Bolivariano. Muito obrigado.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s