Despedida olímpica

JACQUES GRUMAN*

Neste início de ressaca das Olimpíadas, cidade removendo a maquiagem, narradores bufões buscando novos mercados para se esgoelarem e atletas que brilharam em esportes ignorados pela mídia voltando ao ostracismo (a fila anda), reflito sobre o comportamento da torcida brasileira nas várias competições.

Antes de entrar nesta questão, destaco duas estranhezas. A mídia, que tratava cada competição com brasileiros como um épico universal, usou e abusou de uma tal de superação. Com toques melodramáticos e textos de poesia medíocre, reportagens mostravam as imensas dificuldades que muitos jovens brasileiros tiveram que superar para se afirmarem no esporte. O objetivo, claro, era ganhar audiência na mesma base dos programas policiais estilo Datena: mistura de demagogia, chororô e mundo cão. Ora, é evidente que se deve aplaudir os que se empenham, contra muitas adversidades, em praticar um esporte. Foi o caso, por exemplo, da judoca Rafaela Silva e do canoísta Isaquias Queiroz. Ambos foram abraçados por ONGs e só por isso driblaram a miséria e criaram um projeto de vida. A grande questão é a seguinte: por que tanta gente precisa de superação para ter acesso a uma prática esportiva? A resposta, que os jornalistas chapa branca mascaram, é a falta de uma política que massifique o acesso a quadras, piscinas, etc., tornando natural o surgimento de talentos, diminuindo o papel do acaso nas eventuais vitórias e minimizando os casos de “superação”. Com um sistema escolar público arruinado e um ministério dos Esportes mero penduricalho burocrático e cabide de empregos, as perspectivas de mudança nesse quadro são remotas.

O segundo desconforto foi muito bem traduzido por Eduardo Galeano. Apaixonado por futebol, e não necessariamente apenas pelo seu time (o Nacional, de Montevidéu), Galeano dizia que não era mais do que um “mendigo do bom futebol”. Andava pelo mundo, “de chapéu na mão”, e nos estádios suplicava: “Uma linda jogada pelo amor de Deus!”. Quando encontrava o momento mágico, agradecia, “sem se importar com o clube ou o país que o oferece”. Nossos locutores e comentaristas não são capazes de entender essa busca desinteressada de beleza. Ignoram, com raras exceções, que se pode torcer sem hino, sem cores. O resultado é que viram, eles mesmos, torcedores, e iludem o público, tentando convencê-lo de que apenas as “nossas cores” merecem aplauso e compreensão. O espectro do Brasil Grande reside nas transmissões esportivas. Sei que não é fácil aceitar esta subversão do que se considera natural, mas também sei os prejuízos desta naturalidade. É por aí que entro no tema da torcida.

Minhas críticas ao comportamento da torcida brasileira são específicas para esportes que exigem grande concentração dos atletas. Neles, se um dos competidores é prejudicado por vaias, não há igualdade de condições na disputa e o resultado será uma fraude. Torcedores de futebol dirão que, para ganhar, vale gol de mão, em impedimento e aos 49 minutos do segundo tempo. A ética vai direto para o chuveiro. Na minha utopia, isso não é um imperativo categórico. Dou alguns exemplos, o primeiro na Olimpíada recém acabada. Duelavam os espadachins Jiri Beran, tcheco, e Athos Schwantes, brasileiro. A pouco menos de 30 segundos para o final da luta, o tcheco atacou e o juiz consignou ponto a seu favor. Ele ficaria, assim, a apenas um ponto de se classificar para a etapa seguinte. O que aconteceu em seguida foi um assombro para um público habituado a jeitinhos, malandragens e patriotadas. Jiri se dirigiu ao juiz e pediu a anulação do ponto, que, segundo ele, não tinha sido corretamente assinalado. Fez “o que qualquer gentleman faria”. Foi eliminado, mas tinha a consciência tranquila por ter jogado limpo. “Viver não se resume a ganhar”, resumiu.

unnamedRecuemos no tempo, para 1967. Final do campeonato colombiano de futebol, estádio lotado. No Santa Fé, de Bogotá, jogava um centro-avante argentino, Omar Lorenzo Devanni, artilheiro da equipe. O jogo é duro e o zero a zero persiste. Aos 40 minutos do segundo tempo, Devanni penetra na área do Millonários e cai. O juiz marca penalty. Devanni se aproxima do árbitro e diz que foi um erro, ele tropeçara na bola, não tinha penalty. Sua Senhoria lhe mostra as arquibancadas, como a dizer: Você acha mesmo que vou voltar atrás? Me cortam em pedaços! Pois o atacante argentino pega a bola, coloca na marca da cal e … isola a pelota com raiva para o mais longe possível do gol. Caiu em desgraça, mas conservou sua dignidade. Quando vejo a geração cai-cai no Brasil, trapaceiros e covardes, sempre lembro daquela tarde longínqua na capital da Colômbia. É difícil, mas possível, praticar um esporte sem apelar para truques desonestos. Com ou sem apoio de torcidas.

Viajemos para mais longe ainda. Em março de 1940, as seleções de Brasil e Argentina disputaram a Copa Roca, em Buenos Aires. O jogo estava empatado em um a um, quando o juiz marcou um penalty inexistente contra o Brasil. Lance clássico de bola na mão. De cara, uma reação inesperada. Parte da torcida argentina, reconhecendo o erro da arbitragem, protestou contra a marcação. Em seguida, como o juiz mantivesse a decisão, o capitão da seleção argentina, Arico Suarez, teve a mesma atitude que seu compatriota Devanni teria vinte e sete anos depois. Isolou a bola e, segundo reportagem do Correio da Manhã, “a assistência applaudiu fartamente o acto do capitão argentino”. Melhor reconsiderar a hipótese de que os conflitos esportivos com os hermanos fazem parte de um destino manifesto.

Copa Roca 1940

É com essas imagens na cabeça que lamento a atitude da torcida brasileira. Impregnada por um nacionalismo marrom e excitada por narradores e comentaristas histéricos, feriu de morte o espírito esportivo. Seus ídolos, muitos deles fabricados pela narrativa ufanista (e que serão esquecidos em tempo recorde), tinham que ganhar a qualquer custo. Esse ânimo espartano vazou para os atletas. O rosto de Thomaz Bellucci, absolutamente transfigurado após derrotar um rival belga, mostrava uma tensão que nada tem a ver com a velha máxima do barão de Coubertin. Fez lembrar o medíocre David Luiz na Copa de 2014. Tigre possesso ao marcar um gol, para, no jogo seguinte, implodir sob o peso de uma responsabilidade que não compreendia e superestimava. Era a psicologia canhestra do “vão ter que nos engolir”, que parece a bandeira não desfraldada, mas onipresente, nestas Olimpíadas.

Dirão que estou a desenhar nuvens, a convocar sonhos num mundo em que tudo vira mercadoria. Até a paixão. E darei razão a estes realistas. Para consolar-me nesta solidão consentida, escalo como capitão do meu time de visionários o Homem de Alegrete. Diz aí Mário Quintana: O Profeta diz a todos: Eu vos trago a Verdade. O poeta, mais humildemente, limita-se a dizer a cada um: Eu te trago a minha verdade.

gruman* JACQUES GRUMAN é Engenheiro químico, ativista da esquerda judaica laica e internacionalista. Escreve crônicas semanais.

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