Uma palavra instável

ANTONIO CANDIDO*

mapa-mundial

Nacionalismo é uma palavra arraigada na pulsação da sociedade

Nacionalismo tinha, pois, um primeiro significado, digamos positivo, que exprimia o patriotismo normal e correspondia ao grande esforço de conhecer o país. Mas quando apelava para palavras como “brasilidade, começava a se alterar e adquirir o sentido negativo de conservadorismo político, social e cultural; de sentimento antipopular e simpatia pelas soluções do autoritarismo de direita. Por isso, era palavra suspeita aos democratas mais consequentes e a toda a esquerda. Com os seus toques de xenofobia, patriotada, autoritarismo e saudosismo, era um conceito e uma posição que desejavam prolongar o passado e usá-lo para envenenar o presente, opondo-se a concepções mais humanas, isto é, às que miravam o futuro e procuravam pensar os problemas da sociedade além do âmbito das nações, como o socialismo, mais atento ao conceito de luta das classes e de solidariedade internacional dos trabalhadores, do que aos estados nacionais se afirmando com vontade de poderio.

Eis senão quando, no começo dos anos 40, a meca dos socialistas daquele tempo, a União Soviética, sente a ameaça e depois sofre a invasão alemã. Sob este impacto, começou a revalorizar o seu passado, os seus heróis nacionais (alguns dos quais execrados até então), tornando-os protagonistas de filmes patrióticos: Alexandre Nevski, Ivan, o Terrível, Pedro, o Grande, Kutuzof. Ao mesmo tempo pôs-se a cultuar a bandeira, o solo sagrado, e a verberar, não o inimigo de classe, mas o “inimigo tradicional, que vinha das planícies ocidentais _niemetz, cavaleiro teutônico, nazista. O hino internacional dos trabalhadores cedeu lugar a hinos patrióticos, e Stalin recebeu como designativo obrigatório o de “guia genial dos povos (da URSS). Sob o impacto da guerra, ressurgiu assim por toda a parte a ideologia nacionalista extremada, como mecanismo de luta e sobrevivência. E isto influiu no comportamento das esquerdas.

Na América Latina, depois da guerra, o combate contra as oligarquias acabou por identificá-las com seu patrono, o imperialismo, de maneira que houve, por parte das esquerdas, fusão da luta de classes com a afirmação nacional (através do antiimperialismo). Por parte dos liberais, houve um novo sentimento de independência econômica, esposado por alguns governos, como, no Brasil, o mandato final de Getúlio Vargas (1951-1954). Neste contexto, nacionalismo começa a ser outra coisa. Ao se generalizar a noção da nossa dependência em relação ao imperialismo, modifica-se o patriotismo eufórico e ingênuo, substituído pelo sentimento de defesa contra a infiltração política e cultural, que segue quase sempre a dominação econômica. O ingresso das esquerdas nesse universo ideológico fez a palavra nacionalismo sofrer uma alteração semântica de 180 graus. De tal modo, que a direita passa a ser antinacionalista, e nacionalistas as tendências radicais…

À direita se associa a idéia de servilismo cultural, alienação, imitação, cosmopolitismo; as tendências radicais incorporam a valorização dos traços locais, a procura do genuíno brasileiro, com valorização nunca vista antes nesta escala da cultura popular, das componentes africanas, e uma espécie de reação contra fórmulas manipuladas fora. Um intelectual combativo, Alberto Guerreiro Ramos, forja para descrever a situação da sua disciplina a expressão “sociologia enlatada, a fim de contestar a transferência mecânica de métodos e teorias elaborados noutros países, e acentuar a necessidade de elaborá-los aqui mesmo.

A isto se associa como base condicionadora a luta pela defesa das riquezas naturais, sobretudo o petróleo, objeto, nos anos de 40 e 50, de campanha memorável liderada pelas esquerdas, mas contando com apoios decisivos à direita, no Partido Republicano (Artur Bernardes) e na União Democrática Nacional (Gabriel Passos).

Estas tendências culminaram com os governos que tentaram resistir aos aspectos mais agressivos do imperialismo, no período final de Getúlio Vargas e na abertura popular de João Goulart. Todo o país viu então afirmações culturais muito vivas do sentimento nacional (sob a nova roupagem) no teatro participante, no Cinema Novo, na música popular brasileira, culminando no grande esforço do governo Miguel Arraes, em Pernambuco, que patrocinou o método educacional transformador de Paulo Freire. Estes momentos e estes movimentos selaram a transferência semântica, consagrando a palavra “nacionalismo como algo progressista, tanto na busca de uma cultura vinculada ao povo, quanto na politização da inteligência e da arte _tudo englobado na luta contra a servidão econômica em relação ao imperialismo (em nosso caso, sobretudo norte-americano) e a favor da incorporação efetiva à vida nacional das populações marginalizadas e espoliadas.

O objetivo deste artigo foi verificar por alto a flutuação da palavra “nacionalismo (que é uma espécie de ímã atraindo limalhas diferentes conforme a hora), com preferência pelos aspectos culturais.

Recapitulando: na história brasileira deste século, têm sido ou podem ser considerados formas de nacionalismo o ufanismo patrioteiro, o pessimismo realista, o arianismo aristocrático, a reivindicação da mestiçagem, a xenofobia, a assimilação dos modelos europeus, a rejeição destes modelos, a valorização da cultura popular, o conservantismo político, as posições de esquerda, a defesa do patrimônio econômico, a procura de originalidade etc. etc. Tais matizes se sucedem ou se combinam, de modo que por vezes é harmonioso, por vezes, incoerente. E esta flutuação, esta variedade, mostra que se trata de uma palavra arraigada na própria pulsação da nossa sociedade e da nossa vida cultural.

Hoje, nacionalismo é pelo menos uma estratégia indispensável de defesa, porque é na escala da nação que temos de lutar contra a absorção econômica do imperialismo. Ser nacionalista é ser consciente disto, mas também dos perigos complementares.

Ficando no terreno cultural, alguns lembretes. Se entendermos por nacionalismo a exclusão das fontes estrangeiras, caímos no provincianismo; mas, se o entendermos como cautela contra a fascinação provinciana por estas fontes, estaremos certos. Se nacionalismo for aversão contra outros países, mesmo imperialistas, será um erro desumanizador; mas, se for valorização dos nossos interesses e componentes, na sua pluralidade, além de defesa contra a dominação por parte desses países, será um bem. Se entendermos por nacionalismo o desconhecimento das raízes européias, corremos o risco de atrapalhar o nosso desenvolvimento harmonioso; mas, se o entendermos como consciência da nossa diferença e critério para definir a nossa identidade, isto é, o que nos caracteriza a partir das matrizes, estamos garantindo o nosso ser _que é não apenas “crivado de raças (como diz um poema de Mário de Andrade), mas de culturas.

candido* ANTONIO CANDIDO DE MELLO E SOUZA é Sociólogo, estudioso da literatura brasileira e universal e professor universitário. Publicado originalmente em: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 27.08.1995, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/8/27/mais!/27.html

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