O partido que não ousa dizer seu nome

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

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Como diria o simpático amigo de Alice, “as palavras significam aquilo que eu quero que signifiquem – é só uma questão de poder”. De modo que, estivesse o PT ainda no poder, é possível que o significado de “golpe” pudesse ser diferente daquele que até agora registram os dicionários e livros de história. Ou seja, o conceito de “golpe” incluiria retirar um chefe de governo com data marcada, umas tantas votações, recursos e julgamentos, entrega do cargo em lugar e dia combinados (com direito a aplausos de ministro da presidente no momento da assinatura do termo de saída – mesmo sob forma de gafe, isto de fato aconteceu…). Incluiria também a impossibilidade da presidente afastada fazer um discurso em praça pública defendendo seu mandato, considerando sua notória impopularidade. Mas… se o PT ainda estivesse no poder, não seria necessário redefinir o conceito de golpe. E não estando no poder, dificilmente conseguirá emplacar esse novo significado para a palavra, de acordo com a precisa observação de Humpty Dumpty.

Deixando de lado a teoria do golpe pra boi dormir, restam dúvidas bem mais relevantes. Pulando já, por motivos quase óbvios, a patética figura da ex-presidente e indo direto para aquele que a colocou em seu lugar com o propósito de apenas ocupar o cargo durante sua estratégica ausência. Por que motivo alguns tantos eleitores – entre os quais incluo muitos amigos, pessoas lúcidas e honestas – defendem a “pureza da alma” de uma figura como aquela em que Lula se transformou? Incapacidade de encarar o doloroso desabamento do mundo em que basearam suas vidas? Cálculo político de que, seja como for, Lula é o símbolo maior da esquerda e deve ser preservado? Ou ainda as mais diversas teorias conspiratórias e expiatórias?

Caso existisse um pouco mais de lógica nessa história, seria razoável que a militância e os eleitores do PT considerassem os envolvidos – Lula em particular – como sendo simplesmente traidores dos ideais que defenderam antes de sua chegada ao poder. Não há dúvida alguma a respeito dos meios e do quanto de dinheiro público foi roubado. Não há dúvida alguma a respeito do discurso do PT ao longo dos anos 80 e 90.

Assim sendo, não teria sido melhor, bem melhor, que o partido tivesse expulsado aqueles que necessitavam serem expulsos? Talvez sim; mas apenas num mundo que certamente não é aquele em que os dirigentes do partido passaram a viver. Neste, passaram a predominar os interesses maiores do comitê central – deixando de lado militantes comuns e eleitores, fixando razões maiores; caso clássico, por exemplo, do veto à candidatura de Vladimir Palmeira à prefeitura do Rio de Janeiro por Lula e José Dirceu, no longínquo ano de 1998. Admitir os próprios erros, decisão que soaria como gesto de grandeza e honestidade, certamente seria, ainda assim, a ruína de alguns de seus dirigentes símbolo; mas também certamente salvaria o partido e o próprio patrimônio imaterial da esquerda de caírem no abismo moral por onde atualmente descem.

Escolhida essa linha, tornou-se cada vez mais constrangedor para muitos – por força do partido, de nostalgismo, esquerdismo, auto engano, ingenuidade, etc. – apoiarem uma figura cada vez mais infame – que se defende com auto elogios e declarações dignas da pior tradição populista. O constrangimento que vejo em alguns de meus amigos tem a ver com coisas que também para eles são bastante óbvias. Roubo é roubo. Mentira é mentira. Raríssimas devem ser as culturas no mundo que consideram o roubo e a mentira como virtudes. Ninguém decide ser amigo de outra pessoa por ver nela um mentiroso sensível e inteligente. Quando muito e na melhor das hipóteses, por acreditar, cega e incondicionalmente que suas mentiras são verdades.

E como quase sempre acontece, a figura de Lula, como sendo a de um líder ao mesmo tempo poderoso e de origem humilde, que faz manobras e acertos com a elite mas também gosta de beber no bar com os amigos, foi construída ao longo do tempo; por suas características, virtudes e habilidades pessoais, e mais ainda em tempos recentes, também por um marketing milionário, apoiado inclusive por tantos intelectuais e artistas.

Golpes de fato, ao contrário de golpes imaginários, possuem a vantagem de renderem eternas dúvidas a respeito de coisas que poderiam ter sido e não foram. As formas como abruptamente encerram uma disputa política permite, paradoxalmente, que o perdedor se descreva, à falta de testes, como dono dos melhores ideais. Suicídios, acompanhados de cartas testamento, também costumam preservar boa parte dos ativos políticos do mártir. De modo inverso, longos períodos de debate e investigação pública, com o investigado apelando para as mais bizarras explicações, costumam desbotar as mais douradas biografias (ter um filho que poderia ser considerado o Ronaldinho da informática; que pouco sabia das “tralhas” armazenadas ao preço de alguns milhões por uma empreiteira que por sua vez fez reformas no sítio milionário que afirma não possuir, etc.). Um dos cenários possíveis, nesse ambiente de golpe imaginário é, portanto, o de chegar o momento em que a incontornável realidade dos fatos tornarão algumas das atuais fantasias impróprias para uso – seja como auto engano, marketing ou mesmo pura e simples estratégia política. Os intransigentes defensores desse ponto de vista terão, nesse caso, de enfrentar um problema maior, de que esses foram os fatos responsáveis pela ruína do PT e, talvez durante anos, da perda do crédito dado às principais ideias da esquerda brasileira.

ribeiro-fabio* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor associado da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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