Primeiro turno, primeiras impressões

JACQUES GRUMAN*

O futuro era muito melhor antigamente.
(Luiz Fernando Veríssimo)

 

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Costuma-se dizer que um julgamento tem muito mais a ver com a performance dos advogados, leia-se suas desenvoltura cênica e empatia, do que com o conteúdo da causa. O mesmo com as eleições. Raros eleitores conseguem distinguir promessas viáveis de delírios oportunistas. Numa sociedade politicamente invertebrada como a nossa, mais raros ainda são os que votam empurrados por identidade ideológica, por uma ideia estratégica do que se estende para além do futuro menos imediato.

O resultado das eleições para prefeito no Rio revelou um diretor de arte desastrado e uma incógnita. O Pavão da Cidade Nova montou uma cidade cenográfica, escalou um canastrão como protagonista e, numa empáfia hollywoodiana, acreditou que a audiência estava garantida. Não contava com programas de orçamento mais barato, que lhe tomaram público precioso. Daí cresceu a incógnita. Apesar da divisão da esquerda, Marcelo Freixo surgiu como o azarão que deu certo. Até aqui.

Para o segundo turno, a coligação PSOL-PCB enfrentará uma eleição polarizada e o desafio de firmar alianças sem descaracterizar suas propostas. A votação de Flávio Bolsonaro (um em cada sete eleitores compraram o discurso desta direita nada sutil) e a histeria antipetista (que contamina a imagem de toda a esquerda) são claros sinais das barreiras à frente. A militância evangélica completa um quadro complicado. O pastor Silas Malafaia, por exemplo, publicou nas redes sociais uma série de filmetes demonizando os “radicais anticristãos”. Adivinhem quem são eles? Por outro lado, se quiser criar um cenário diferente, Freixo deve evitar as tentações adesistas, da governabilidade a qualquer custo. Foram elas a origem mais profunda do desastre ético e político que derreteu o PT.

Se vencer, Freixo governará com minoria na Câmara dos Vereadores. O que é, hoje, reduto conhecido como Gaiola de Ouro, poderá transformar-se em trampolim de forças hostis, que farão de tudo para abortar um experimento de gestão democrática e ligada à sociedade civil organizada. Lembram o que disse o Espancador de Cachambi no debate da Globo? “O povo não quer mais esse radicalismo”. Isso cola. Com o desgaste da imagem dos políticos, muita gente acha que o bom é um João Doria, “não sou político, sou um gestor”. Como se administrar uma cidade ou um condomínio não exigisse fazer política, administrar interesses, estabelecer prioridades. A direita se esconde nessa fraude e vai jogar pesado na “incompetência” da esquerda. Será necessária a mobilização permanente para contrabalançar os “sensatos”. Teremos que assaltar o céu diariamente, se quisermos virar o jogo.

Recentemente, Lula contribuiu para tornar mais opaca a percepção sobre a política e os políticos. Discursando para simpatizantes, ele canonizou os políticos e produziu uma peça digna do Febeapá. “A profissão mais honesta é a do político. Porque todo ano, por mais ladrão, que seja, ele tem de ir pra rua encarar o povo e pedir voto”. Então tá. Os honestos, por mais ladrões que sejam (!), não são obrigados a pedir votos. Ou Lula nunca ouviu falar de currais eleitorais, compra de votos, eleição sob coação, etc.? Em que planeta habita o companheiro ex-metalúrgico? Dizer que política é profissão só consolida, num ambiente despolitizado, a impressão de que todos os que tentam se eleger querem mesmo é arrumar uma boquinha. E Lula continuou, atacando funcionários públicos concursados (velhos tempos em que uma das maiores bases eleitorais do PT era a burocracia estatal, maciçamente concursada). “O cidadão se forma na universidade, faz o concurso e tá com o emprego garantido pro resto da vida”. Mistura deplorável de leviandade, generalização pueril, falta de lucidez.

A escolha dos vereadores teve toques de clandestinidade. Com enorme pulverização de nomes e partidos, sem debates de peso, pouco espaço na mídia convencional, prevaleceram, quase sempre, os currais, invisíveis para a maior parte da população. De se notar a consolidação da grife Bolsonaro (Carlos foi o mais votado) e a tentativa, parece que inédita, de eleição de muita gente comprometida com milícias. A população quase nada sabe sobre o trabalho dos vereadores. Em 2016, um em cada quatro projetos aprovados na Câmara se referia a algum tipo de homenagem (títulos de cidadão, nomes de ruas, etc.). O trabalho de acompanhamento do orçamento municipal é prejudicado por desconhecimento técnico e pela dependência em relação ao executivo (verbas liberadas pela prefeitura para projetos assistencialistas são essenciais para garantir o “emprego” dos vereadores).

Nacionalmente, a centro-direita avançou e já se prepara para o grande salto em 2018. No Rio, talvez estejamos às vésperas de uma experiência interessante, que, no entanto, fracassará se não tiver o envolvimento ativo dos que se interessarem por ela. Depender do troca-troca tradicional e colocar o povo numa bolha será suicídio político. Sem ilusões, mas na linha do que disse um mineiro chileno durante o governo Allende: “Es un gobierno de mierda, pero es mi gobierno”.

gruman* JACQUES GRUMAN é Engenheiro químico, ativista da esquerda judaica laica e internacionalista. Escreve crônicas semanais.

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