Política econômica e suas contradições

alfredinhoPe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

Desde o início deste governo, ouvem-se rumores de promessas que falam em diminuir os gastos do Estado, de ajustar as contas públicas e de equilibrar entre si arrecadação e despesas. Qualquer família sabe que economia signifuica exatamente isso: administrar entradas e saídas da casa. E da caixa comum, no caso os cofres da União. Sem esse equilíbrio mensal e anual, a crise e a bancarrota batem às portas. A ideia é tão elementar quanto precisa é a matemática.

Mas aqui as contradições do título entram em cena. Quando se fala de “apertar o cinto”, os políticos em geral miram não tanto os privilégios ou direitos adquiridos (?!) das classes dominantes, e sim os investimentos referentes aos benefícios sociais, voltados para o bem estar dos mais necessitados. “A corda rebenta do lado mais fraco”, diz o ditado popular! E vem a receita: rever os gastos com a previdência, com o bolsa-família, com transportes coletivos, com hospitais e escolas, com a segurança, habitação, lazer… Rever aqui é sinônimo de restringir.

A política econômica move-se com os olhos fixos nos indicadores econômicos – altos e baixos da bolsa de valores, que mede o humor do mercado; sobe e desce da cotação do dólar; crescimento do produto interno bruto (PIB); balança comercial entre exportação e importação; e assim por diante. Com isso, acabam protegendo as grandes redes comerciais, os empresários, os latifundiários, os banqueiros, os especuladores. Ou seja,  garantem os lucros dos que habitam o topo da pirâmude social. Não é à toa que os bancos, por exemplo, seguem ganhando em plena crise, ou quem sabe, por causa da própria crise.

Falta em geral um olhar igualmente atento aos indicadores sociais – valor real dos salários frente à inflação; precariedade das estruturas de educação, saúde e transportes públicos; pode de compra da população de baixa renda (comida, roupa, casa). Ao deixar em segundo plano os índices que medem o nível de vida dessa população, a política econômica abandona à própria sorte os que ocupam o andar inferior da pirâmide. Resulta que esta vê ampliar-se cada vez mais o desequilíbrio abissal entre a ponta e a base.

Os simulacros de reforma por parte do governo põe a nu o vírus de uma política econômica fortemente marcada pelas leis férreas do mercado liberal. Este é que dita as regras, e suas regras de produção e consumo supõem lucros progressivos. O mesmo se pode afirmar da tendência às privatizações. Tal  prática onde o lucro é o metro para tudo, escancara os mecanismos ocultos do que o Papa Francisco chama “economia que mata”. Não com bombas espetaculares e estridentes, mas com o silêncio legitimador de decisões que sacrificam os de baixo para manter o rendimento dos de cima.

Daí a contradição das contradições: cresce ao mesmo tempo a concentração de renda, de um lado, e a exclusão social, de outro. Face e contraface da mesma moeda. Desenvolve-se desse modo a espiral da acumulação gradativa que produz – para usar as palavras do Papa João Paulo II, por ocasião de sua visita ao México – “ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”. Mansões e favelas, carros de luxo e ônibus superlotados, milionários e mendigos, roupas de grife e farrapos, uísque e cachaça – convivem lado a lado, no espaço da mesma cidade. Entre uns e outros, porém, erguem-se muros visíveis e invisíveis que mantêm as devidas distâncias.

Impõe-se uma inversão de valores. Equilibar o orçamento público não quer dizer tirar dos pobres para favorecer os ricos, e muito menos aumentar os impostos da população de forma indiscriminada. Ao contrário, faz-se necessário taxar as grandes fortunas, riquezas e rendas – para uma melhor distribuição dos benefícios  do progresso técnico. Trata-se, numa palavra, de uma verdadeira distribuição de renda. De fato, tratar de forma igual uma situação desigual é cometer uma grave injustiça. Em semelhante defasagem entre o pico e a base da pirâmide, torna-se urgente adotar medidas que possam ajudar os “de baixo” a manter-se de pé, para caminhar com as próprias pernas. Nada de esmola, mas oportunidades para todos. O que significa um tratamento diversificado para uma realidade histórica e estruturalmente tão desigual!

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