Aonde foi o PT?

baVÂNIA NOELI FERREIRA DE ASSUNÇÃO*

Há uma semana, quando conhecemos os resultados das eleições municipais, um misto de incredulidade e desânimo se apossou dos militantes e teóricos situados à esquerda. A derrota eleitoral acachapante gerou uma série heterogênea de reações, indo da culpabilização do pobre que, incapaz de discernir seus interesses e ideologias específicos, teria cometido a estultícia de sufragar seus inimigos, até a minimização da própria importância do processo eleitoral para a esquerda.

Evidentemente, a perspectiva de esquerda se peculiariza pela sua radical opção teórica e prática pela revolução social. Ainda que se reconheça a sua impossibilidade atual, é forçoso constatar que, sem um projeto de transformação revolucionária para além do capital, confundem-se meios e fins e corre-se o risco de se perder na miscelânea de medidas imediatas apenas mitigadoras dos aspectos mais danosos do atual sistema, tomando-as como o próprio projeto revolucionário. Nesta abordagem, não havia nesse processo eleitoral forças propriamente de esquerda consequentes e organizadas, mas, no máximo, agrupamentos e ideologias que se situam à esquerda do capital.

Para a perspectiva de esquerda, as eleições (especialmente as de caráter nacional) são importantes enquanto há nelas projetos efetivos, mais ou menos limitados de acordo com as possibilidades concretas, que são postos à escolha do eleitor, e também enquanto momento de esclarecimento e organização das massas populares. Assim, mesmo que esteja longe de ser o objetivo final, um processo eleitoral não é desprezível e uma derrota eleitoral não é um mero detalhe, especialmente quando vem se somar a inúmeras outras derrotas nos campos econômico, social, cultural e ideológico.

Não há que relativizar a contribuição do Partido dos Trabalhadores para esse quadro deletério, ainda que suas causas o ultrapassem de muito, fundadas que estão em transformações nas forças produtivas e no mercado internacional. Surgido no interior das intensas mobilizações operárias do final dos anos 1970, o PT se apresentou como continuador daquilo que havia de melhor no movimento operário pós-64, mas de imediato procedeu à sua instrumentalização político-partidária e à sua desorientação teórica. Naquele momento, a ênfase em garantir o aperfeiçoamento institucional, de forma desvinculada de questões mais essenciais à vida das massas, significou abrir mão da luta por uma democracia efetiva. Ademais, o PT, sem projeto econômico alternativo, não pôde se contrapor à política econômica oficial, baseada na superexploração dos trabalhadores.

Seus fundamentos teóricos se assentavam num marxismo mais ou menos aceito, mais ou menos renegado, desprovido de perspectiva revolucionária e tomado como método científico. Consubstanciava-se num quarteto teórico (teorias do populismo, da dependência, da marginalidade e do autoritarismo) construído a partir de uma miscelânea de conceitos weberianos e liberais e de uma seleta de categorias marxistas. Destaque-se a teoria do populismo, visto como prática política típica da transição de uma sociedade tradicional agrária para uma sociedade moderna industrial. Nesse processo, em que nenhuma classe deteria a hegemonia, seria necessário estabelecer um pacto entre os setores agrários, os industriais e a grande massa que entrava no cenário político, mesmo que de forma subalterna e artificiosa; dada a inexistência de canais de organização, haveria uma relação direta entre líderes demagogos e massas manipuladas, às quais seriam feitas concessões econômicas e sociais em troca da sustentação do status quo. Em suma, dominação é vista como sinônimo de manipulação, alcançada pela atribuição de uma falsa consciência. O PT incorporou esse arsenal teórico (cujos elaboradores depois estariam em partidos concorrentes, o que demonstra sua falta de autonomia teórica) exacerbando seu aspecto politicista. Isso significou que, identificando toda política de frente a um reboquismo conciliatório, reagia com uma intransigência ideológica verbal subjetivista e voluntarista que o levava a recusar as alianças políticas, ao tempo em que buscava a adesão partidária. Aditava-lhes uma obsessão pelas formas de organização e pelos procedimentos, perdido na fórmula maniqueísta democratismo x autoritarismo.

Embora continuasse a afirmar-se enquanto representação da perspectiva da esquerda por seu vínculo com o movimento sindical, muito rapidamente o PT, acreditando serem escolhas excludentes a via eleitoral ou os movimentos operários-sindicais, optou pela primeira, passando a pleitear a domesticação ou democratização do nosso capitalismo selvagem. Nesse processo, começou a ganhar algumas eleições e, no exercício de mandatos executivos, foi obrigado a abandonar o sectarismo e o voluntarismo e aprendeu a negociar até à degeneração, compondo frentes de talhe liberal, distantes dos grupos sociais que dizia representar. Sua relação com os movimentos sociais passou a ser, por cima, de cooptação, e por baixo de desmobilização.

Em termos econômicos, o PT, contaminado pelo politicismo e pelo economicismo, rebaixou a globalização de fase específica de um processo histórico a especulação financeira, a questão política e ideológica, encastelando-se num nacionalismo conservador. Sua política econômica, apesar das fenomênicas divergências e suas confusões entre o discurso e a prática, no fundamental foi uma continuidade dos governos antecedentes. No que tange às políticas sociais, deu continuidade a projetos limitados e focalizados de transferência de renda, complementados com crédito abundante. Mas a inserção via consumo era individualizada, fugaz e facilmente reversível, inobstante seus resultados não fossem desprezíveis para as massas que superaram a fome. Seu liberal-radicalismo se orientava filosoficamente pelo moralismo, tinha o distributivismo como plataforma e apostava na possibilidade de desenvolvimento do capitalismo nacional baseado na participação negociadora e no estatismo redentor (curiosamente, justo o que criticara no PCB). O governismo reformista/distributivista do petismo deseja aperfeiçoar o estado e tornar o capitalismo mais humano para os de baixo sem atingir os interesses dos de cima.

Arrogante, e crente que poderia dar continuidade aos esquemas que seus aliados/cúmplices criaram, imergiu profundamente na corrupção. Também se sentiu em casa atuando no nível da “pequena política”, decrescendo paralelamente à lógica da atividade política como prestação de serviços e troca de favores. Esta mudança transparece em seu líder máximo:  Luís Inácio da Silva, o antigo Lula, líder extraordinário das movimentações operárias de fins dos anos 1970, foi se transformando paulatinamente em um modesto político, até que se tornou algo próximo do “líder populista” que o PT tanto criticou nas suas origens, além de exemplo exaltado de ascensão individual meritocrática.

As contradições dos governos petistas evidenciaram-se até para os mais avessos à política. Os que, originariamente, pensaram ter encontrado naquela legenda jovem e arrogante o instrumento para mudar o mundo, perceberam de há muito sua aposta sonante na afirmação de si mesmo, em detrimento da constituição de uma alternativa efetiva de projeto societário. Os expoentes das novas classes trabalhadores viram suas expectativas de ascensão frustradas ou proteladas e tremem diante da ameaça, cada vez mais concreta, de serem novamente arrojados em faixas de renda mais baixas. Os jovens que saíram às ruas em 2013, exigindo reformas urbanas e políticas, foram homogeneizados e rotulados pelos ideólogos do partido como “massa conservadora e fascista” e desqualificados. Os eleitores que pensaram ter encontrado uma alternativa ao corrupto sistema partidário-eleitoral viram-se, surpresos e constrangidos, diante de denúncias em cascata contra um partido que, consumido pela doença senil do governismo, reage a elas insistindo em ser tratado de forma igual pelo sistema jurídico-político (este, efetivamente, o trata como pária, como aquele distante e brega parente novo-rico que foi admitido a contragosto no chá-dançante por anfitriões que ficam de olho na prataria). Os que reelegeram Dilma para evitar o mal maior que representaria o projeto tucano muito rapidamente a viram realizar as medidas imputadas ao adversário e reprovadas nas urnas, coroadas por uma legislação constrangedora das manifestações e movimentos sociais. Poucos entenderam a denúncia contra supostos golpistas que continuam aliados em mais de mil localidades pelo país afora, incluindo-se aí a maior cidade do país.

Com tudo isso, o PT saiu como o grande derrotado do pleito municipal. A agremiação se tornou mera sombra da potência que tinha nos áureos tempos em que Luís Inácio era presidente e a bonança econômica internacional favorecia o projeto petista de poder.

A derrota, contudo, não foi meramente eleitoral e não se restringiu ao petismo: o drástico crescimento das abstenções aponta para um descrédito na política e nos seus representantes, vistos como todos iguais. Nada de positivo nem de superador pode vir desse alheamento. Mais importante: como o PT é identificado à esquerda, mesmo proposituras que nada têm de socialistas e que nem mesmo pertencem ao campo da esquerda – como políticas de transferência de renda e de ação afirmativa, ligadas à social-democracia ou até mesmo a um social-liberalismo menos tacanho – são tachadas de socializantes e atacadas sem piedade por uma gama de forças conservadoras e reacionárias que finalmente puderam expor toda a sua ferocidade.  Se já viemos de derrotas mais ou menos graves, tempos ainda mais sombrios estão se avizinhando, podendo-se prever choro e ranger de dentes, mas também lutas renhidas para os que defendem os interesses populares.

Evidentemente, nem tudo é culpa do PT, pois há movimentos históricos objetivos que vão muito além do partido e que afirmam fortemente um conservadorismo e até um retrocesso em várias esferas. No entanto, pelo que representou e pelo que fez, o partido tem uma enorme responsabilidade diante do atual contexto. Fazer a sua crítica, radical e sem concessões, é fundamental para tirar o entulho histórico do terreno em que se podem edificar novas perspectivas e mobilizações. Não se trata de criticar o PT “mas” reafirmar a perspectiva de esquerda: trata-se, de fato, de criticar o PT para possibilitar, em tempos melhores, a reafirmação da lógica revolucionária.

* VÂNIA NOELI FERREIRA DE ASSUNÇÃO é professora da Universidade Federal Fluminense – campus Rio das Ostras. E-mail: vanianoeli@uol.com.br

 

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