“Unidos Perderemos” – ou porque n-1 vale mais que a soma dos votos

THOMÁS ANTÔNIO BURNEIKO MEIRA*

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Nas últimas eleições, a soma dos votos em branco, nulos e das abstenções seria suficiente para conquistar as prefeituras de duas capitais: Belo Horizonte e Rio de Janeiro; em outras sete – Fortaleza, Salvador, Recife, Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre e São Paulo –, esse montante, caso fosse um candidato, estaria apto a fazer campanha pelo segundo turno. Intui-se, ainda, que essa mesma tendência possa ser observada em cidades menores, embora, sobre isso, a cautela exija consultas mais demoradas, especialmente por parte daqueles que se interessam pelas quantificações.

As motivações implicadas na espantosa amplitude dos tecnicamente chamados “votos alienados” – como se sabe, e a exemplo das cédulas denominadas “válidas” –, em cada caso, são bastante variadas. No entanto, de maneira geral, não parece arriscado conectar esses números a dois catalisadores, que se somam a outros. Primeiro, a alta rejeição dos elegíveis certamente está, de algum modo, ligada aos momentos que sucederam as “jornadas de junho”, quando – nas ruas e na nebulosa da Internet – parte das elites brasileiras passou a manifestar suas demandas para além das urnas e “contra tudo isso que tá aí”. Já mais à esquerda, os resultados das eleições também podem advir de um fluxo que passa pelo desgaste sofrido pelo PT – tradicional aglutinador de diversos movimentos sociais – após a série de episódios nos quais a legenda esteve – ou foi – envolvida nos últimos anos. De qualquer forma, em uma avaliação possível, aposta-se que, ao menos em certa medida, os anti-votos tenham sido alimentados pela descrença de parcela significativa dos brasileiros na atual configuração de nosso sistema político-partidário; e, nessa chave, os pleitos municipais indicariam uma grande vitória ou a força crescente de uma negação da política institucional nas grandes cidades.

Não obstante o triunfo numérico dos que, aqui, se supõem desacreditados, os prováveis índices de recusa e ceticismo também trazem, em si mesmos, uma avassaladora derrota dos anti-eleitores (a)partidários dessa via. Afinal, as eleições não fizeram outra coisa do que, na melhor das hipóteses, traduzir incredulidades e insatisfações em porcentagens: por exemplo, “no Rio de Janeiro, tivemos 42,54% de votos alienados; em Belo Horizonte chegamos a 43,14%”. Nesses termos, os maiores perdedores nas disputas foram, assim, os anseios daqueles que obtiveram ou se aproximaram da maioria quantitativa nas apurações – e mais: seu fracasso é diretamente proporcional à expressividade da soma dos não-votos a que possam estar associados. Esse revés, intui-se, não decorre de um “desperdício”, como se costuma dizer: ou seja, da oportunidade “jogada fora”, quando poderia ser aproveitada em favor de alguém apto, ao menos parcialmente, a representar certos interesses do não-votante – ou então na medida em que o direto ao voto poderia ser estrategicamente direcionado em benefício do candidato “menos pior”. Não se trata disso. São, antes, os próprios mecanismos amplos da representação que, por princípio, mais retêm ou neutralizam os desejos, do que os realizam pela delegação a um terceiro, um “representante do povo”. Os últimos certames eleitorais, ao produzirem vitoriosos que contêm em si os seus malogros – como “vencedores inelegíveis” –, talvez se constituam como uma situação-limite particularmente esclarecedora a esse respeito.

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Algumas das ideias colocadas por Gilles Deleuze e Félix Guattari, sobretudo nos Mil Platôs (1980) – o segundo volume da díade Capitalismo e Esquizofrenia, também composta pel’O Anti-Édipo (1972) –, não só inspiram, como permitem dar um pouco mais de corpo a esse pequeno argumento acerca dos limites da representação em todas as instâncias imagináveis, do pensamento ao Estado – enlace, aliás, propício à solidificação de um estado de pensamento. Embora seja difícil resumir parte dos aspectos que compõem, em toda a sua complexidade, o arcabouço filosófico armado na obra, para instigar uma discussão a esse respeito basta dizer que, conforme a dupla de autores, o desejo é, por princípio, indefinível. Não se trata de algo constituído pela falta – como sempre somos inclinados a intuir –, e sim de uma produção, que, se traz alguma coisa em si, é unicamente um excesso em ameaça constante de transbordar. “Desejar é construir um agenciamento” – como diria Deleuze em seu Abecedário –, e “o desejo é sempre agenciado, ele é o que o agenciamento determina o que ele seja” – como se lê no Platô 1933, intitulado Micropolítica e Segmentaridade. Logo, definir essa potência, que não quer ser interpretada – ou, para ser direto, representada –, é estancá-la, matá-la em seu ímpeto tão produtivo como imprevisível.

Contudo, se não se pode definir os desejos, as entradas para segui-los são, justamente por isso, infinitas. Pela pauta em discussão, a abordagem proposta por Deleuze e Guattari a certa altura do Platô 1227 – Tratado de Nomadologia: A Máquina de Guerra, quando se referem ao que chamam de “número numerante”, pode ser, aqui, instrutiva. Para os autores, essa organização numérica remete a uma aritmética autônoma, própria dos pequenos grupos, e especialmente dos nômades e ligados à guerra. O conteúdo, assim, independente das quantidades pode ser esclarecido, por exemplo, em referência à forma como Gêngis Khan costumava fazer sua composição de estepe no século XIII: as linhagens eram organizadas quantitativamente e submetidas a cifras e a chefes; ao mesmo tempo, um pequeno contingente de homens era dali subtraído para constituir sua guarda pessoal, sem que deixassem de integrar aquela outra, a “primeira”. Vê-se que, nesse caso, o Número – aqui, o das estirpes, mas isso pode valer para o quer que seja – contém algo que não ele próprio. Existem relações que lhe são internas e independentes de quantias; ele é direcional, e não métrico; se desdobra em dinâmica aberta, ao invés de medir segundo convenções aprisionadoras; “[…] produz seu efeito de imensidão graças à sua articulação fina, isto é, sua distribuição de heterogeneidade num espaço livre”. Como unidades de agenciamento, são quanta de desejos.

Desnecessário dizer que muito diferentes são os “números numerados”, que, entre a organização do trabalho, os censos, as eleições etc., são apontados por Deleuze e Guattari como decisivos nos dispositivos estatais para “dominar a matéria, para controlar suas variações e seus movimentos” – em uma palavra, conter os desejos. Os Estados, para o díptico de filósofos franceses, afinal, são isso: “aparelhos de captura” cuja eficácia, principalmente em sua forma moderna, depende de princípios como os da “maioria”. Entenda-se que, nos Mil Platôs, por esse termo designa-se algo que em nada evoca uma superioridade numérica, e sim um axioma – “o Trabalhador nacional, qualificado, macho, e com mais de trinta e cinco anos” [e branco, heterossexual, etc.], por exemplo – sempre numerável. A minoria, por seu turno, não é nunca um número: antes, são as relações internas e inumeráveis do Número: multiplicidades de fuga ou de fluxo não-axiomatizáveis em si, mas sempre axiomatizadas na medida em que se deixam cooptar pelas (sobre)codificações. É plenamente possível, portanto, estar em maior quantidade e ser minoritário – como o são, no Brasil, as mulheres em relação aos homens; ou, nas grandes cidades do país, os não-votantes em razão à democracia representativa, para ser claro.

Para deixar o raciocínio prosseguir com o tema dos números, a “representação” depende, assim, da “maioria”, visto que só se pode fazer derivar algo – como um representante – de alguma outra coisa que seja substantiva, estável e/ou quantificável. E esse é, mesmo, o princípio do “Uno que devém dois”; ou d’“o livro [que] imita o mundo, como a arte, a natureza” – conforme se pode ler na introdução dos Mil Platôs –; e, ainda, do político que, supostamente, defende os interesses do cidadão. Ocorre que o desejo, a priori, não é nada, mas pode ser tudo: está no campo aberto da multiplicidade, e não no território disposto da pluralidade. Sua equação de base é, portanto, n-1, pois para “devir” – e para não “ser” – é necessário subtrair o “Uno”, ao invés de somá-lo ou multiplicá-lo (o que não é igual a “multiplicizá-lo”). E enquanto as máquinas desejantes se constroem ininterruptamente pelas conexões, sempre a variar de natureza conforme aquilo que conectam, “é pretensão do Estado ser imagem interiorizada de uma ordem do mundo e enraizar o homem” – diga-se, fixando-o mais pela cabeça do que pelos pés, tão logo o dispositivo estatal seja “o modelo do próprio pensamento”, com seus “números numerantes”, “maiorias” e “representações”.

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Para voltar ao Brasil – mas ainda em aportes, ou desvios, franceses –, a filósofa Isabelle Stengers, diria, talvez, que as últimas eleições municipais expressaram de maneira quase caricatural o que, em seu livro Capitalist Sorcery (2011), ela chamou de “alternativas infernais”, constitutivas do capitalismo como um modo de existência. A julgar pelos “vencedores inelegíveis”, no final das contas, nas urnas, tem-se uma democracia participativa em que, nas mais importantes cidades brasileiras, a maioria quantitativa permanece minoritária. Quanto mais se vota, menos se deseja; a vitória é, em si, uma derrota; o número de votos, qualquer que o seja, é avesso à multiplicidade. E isso é próprio da representação e dos números, ou ao menos nas formas como estamos acostumados a conceber as quantidades. Os anti-votos são contados desde os pressupostos dos “numerantes” em um “sistema representativo”. Se se almeja a menor mudança no mais amplo dos quadros, é preciso, pois, ser anti-número: n-1.

Após os resultados das disputas eleitorais, muito se ouviu que, diante dos avanços conservadores, a esquerda precisava se unir. Mas somar é, assim, prosseguir em minoria. A melhor alternativa, por ora, quem sabe, seria “multiplicizar-nos”, a cada dia, em todos os lugares, a fugir de um centro que está em toda parte, inclusive em nós quando pensamos. Tão melhor, portanto, se os politicamente minoritários brancos que se anulam também devirem putas, gays, plantas, animais, drogados, espíritos, mulheres, indígenas, macumbeiros etc. Fazer conexões criativas, e não sínteses empobrecedoras. Como empreendê-las sem que o ingrato campo dominado pelo aparelho de captura seja gratuitamente oferecido aos que dispõem armadilhas, das violentas as mais sutis, por todas as partes? Criar problemas, em detrimento das respostas, já é acionar linha de fuga; um vislumbre de possibilidades.

Referências

DELEUZE, Gilles. O Abecedário de Gilles Deleuze. Transcrição disponível online em: http://escolanomade.org/wp-content/downloads/deleuze-o-abecedario.pdf. S./d.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34, 2010.

__________. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia 2. Vol. I, III e V. São Paulo: Editora 34, 1995, 1996 e 1997.

PIGNARRE, Philippe; STENGERS, Isabelle. Capitalist Sorcery: Breaking the Spell. Hampshire/New York: Palgrave Macmillan, 2011.

meira* THOMÁS ANTÔNIO BURNEIKO MEIRA é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM); doutorando em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF); pesquisador vinculado ao Laboratório de Estudos Evolutivos Humano (LEEH/UEM), ao Laboratório de Pesquisas Antropológicas (LAPA/UEM) e ao Cosmopolíticas – Núcleo de Antropologia (UFF)

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