O professor: o que ele tem sido?

RAFAEL EGIDIO LEAL E SILVA*

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Ocupação Colégio Hilda T. Kamal – Umuarama (PR)

Passamos por mais um dia do professor. Cada vez mais esta data perde seu significado, assim ser professor cada vez mais perde o significado em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, contraditoriamente, governos e políticos, empresários e corporações cada vez mais falam da necessidade da educação, mas patrocinam, sorrateiramente, o fim da figura central da educação: como se educa sem um educador?

Quando ouvimos os relatos dos professores que iniciaram suas carreiras antes dos anos 1980, chama a atenção como naqueles longínquos tempos o professor era uma figura de respeito e notoriedade social. Não apenas alunos e pais respeitavam essa figura, mas o restante da sociedade também. O professor era professor na acepção da palavra: aquele que professa, e origina todos os outros profissionais. Claro que era uma época inteiramente diferente da nossa, e não apenas pela presença infame e ditatorial dos militares no poder, mas também por que nossa sociedade ainda era dividida, quase que meio a meio entre urbana e rural. As cidades portanto, eram poucas e menores em relação à nossa realidade atual, e por este motivo também era mais fácil ocorrer o destaque social de determinadas profissões e, entre elas, o docente, reconhecido por todos como fundamental para a vida urbana, não somente para a formação para o trabalho, mas para a formação cidadã.

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Ocupação Colégio Pedro II – Umuarama (PR)

O tempo passou (rápido demais), e nossa sociedade se alterou indefectivelmente a partir dos anos 1980: agora somos uma sociedade urbana, porém, que não se preparou para a urbanidade. O Estado, que era desenvolvimentista, marchava para as reformas orientadas para o mercado. O mando político, que era despótico, passou para uma frágil democracia capitaneada pelos setores civis que estiveram ao lado dos militares. E as escolas? Continuaram as mesmas, embora a população se invertesse, e agora a cidade precise educar a massa de emigrados do campo. E o professor? Este começou a ver a derrocada das instituições públicas de educação, ruindo também sua imagem de respeito e destaque social. Ele passou a ser apenas mais um profissional, como qualquer outro. A quem interessou tal situação? Aos novos (e velhos) donos do poder. Aos novos cidadãos urbanos, ficou apenas o discurso que nosso precário Estado não tem condições de cuidar daqueles que trabalham e pagam seus impostos.

Não foi sem luta que o professor se deixou levar pela situação, e nosso Estado do Paraná é emblemático nos conflitos envolvendo os professores. No entanto, dentro das escolas, tornou-se paulatinamente mais impotente, diante de regras burocráticas e pedagógicas absurdas, e que cada vez mais o colocavam de lado. “Todos são educadores” e “aprender a aprender” passaram a ser os lemas implantados nas escolas, conforme o Estado se encolhia frente aos mercados, nos anos 1990. Mas se todos são educadores, então ninguém o é. E aprender a aprender… o que? Tal processo ocorreu até mesmo dentro das escolas privadas, onde o professor passou a ser avaliado pelos seus resultados, muito menos de aprendizagem, e muito mais de entretenimento, enquanto os pais se desdobravam em seus trabalhos para pagar as mensalidades.

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Ocupação IFPR – Campus Cascavel (PR)

Vemos que hoje passamos para um estágio mais cruel. O professor é cada vez mais ridicularizado, alvo de chacotas, de piadinhas sem graça. Ao mesmo tempo em que enaltecido como um heróico Dom Quixote, é apontado como alguém que ensina o que ninguém mais vai precisar. E isto é cada vez mais materializado em nossas políticas públicas, especialmente na última reforma de ensino que coloca o aluno integralmente na escola, mas retira o professor de cena, substituindo-o por pessoas de um tal “notório saber”.

Ao mesmo tempo, temos também o movimento crescente dos alunos ocupando as escolas, e demonstrando, para a sociedade, que são eles os protagonistas da educação. Falta aos professores ocuparem também o seu lugar devido, a mente desses alunos. Assim, quem sabe, finalmente teremos a educação em nossas terras em sua verdadeira acepção: o ato de um humano tirar o humano de dentro de outro humano. É o nascimento de um novo homem, portanto.

silva-rafael* RAFAEL EGIDIO LEAL E SILVA é Graduado em Ciências Sociais – Licenciatura (2008) pela Universidade Estadual de Maringá. É Mestre em Psicologia (2012) pela mesma Universidade. Atualmente é Docente RSC-III do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, atuando no eixo tecnológico “Ciências Humanas e suas tecnologias” na área de conhecimento de Sociologia no Instituto Federal do Paraná – Campus Umuarama. E-mail: rafael.silva@ifpr.edu.br

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2 comentários sobre “O professor: o que ele tem sido?

  1. Resumidamente, não se constrói nada sem professor. Nada substitui o professor, o contato direto, face to face, toda “tecnologia” educacional como slides, tablet, vídeos,……são auxiliares, mas jamais prescinde da presença efetiva do professor. Não há futuro sem professor. Não sou professor sou apenas um aprendiz,

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