Quo vadis, PT?

jardimWILLIAMS R. MONJARDIM*

 

As últimas eleições municipais nos dão curiosos elementos para pensarmos os rumos que tem tomado o Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo.

Fazendo um brevíssimo retrospecto do cenário nacional para, a partir daí situar o âmbito local, o PT chegou à presidência da república em 2003 a partir da formação de um amplo leque de alianças com as mais variadas colorações da política nacional em nome da governabilidade.

De modo gradativo, notadamente a partir de 2013, setores políticos da direita, apoiados explicitamente pela grande imprensa, insatisfeitos com a perda do protagonismo político e sem conseguir elaborar um discurso político minimamente convincente, bombardeou o PT com inúmeras denúncias de corrupção. Esse bombardeio maciço foi extremamente seletivo e quase que tão somente atingiu solos petistas, deixando praticamente incólumes os terrenos políticos de outros partidos, sob os quais também pesavam graves denúncias, todas ou quase todas devidamente jogadas para baixo do tapete.

Nesse cenário de denúncias, vazamentos seletivos, juízes pop star, polícias, ministérios públicos, STF, pixulecos, memes, marchinhas de carnaval, etc., partidos então aliados ao governo federal – caso mais emblemático, o PMDB –, fazendo uso da mesma estratégia dos ratos, abandonaram o barco do governo à medida que esse ia fazendo água e desembarcaram no porto seguro do golpe. Esse movimento teve seu ápice midiático-político no impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nesse cenário, um dos poucos partidos que se mantiveram fiéis em defesa do mandato da presidenta foi o PC do B.

Ora, após vencido o degrau do impeachment, a escalada do golpe continuou – e continua – insaciável, agora em busca da prisão de Lula e juntamente com ela, em tentar extirpar o PT de uma vez por todas do espectro político nacional. Não tendo um discurso político minimamente convincente com o qual pudesse se apresentar às massas com uma proposta de governo, só restou à direita brasileira demonizar o PT e surfar nessas águas para então, sem maiores entraves, implantar seu projeto de retirada de direitos sociais, direitos dos trabalhadores, de ataque ao SUS, à Previdência Social, à educação, de implantação de uma política racista, homofóbica e machista, etc.

Frente a esse golpe em curso, como reagiu o PT municipal? Mais do que se recusar em sair do governo Hartung e fazer-lhe oposição na Assembleia Legislativa, aliou-se em vários municípios a partidos golpistas e que historicamente representam tudo o que há de mais sórdido e retrógrado na política brasileira. Aliou-se ao DEM, que carrega no corpo as marcas da extinta ARENA e da ditadura militar; ao PP de Jair Bolsonaro, conhecido racista e homofóbico, que impunemente saúda um general torturador em pleno Congresso Nacional; ao PR de Magno Malta, com sua defesa da redução da maioridade penal e da escola sem partido e outros mais.

Em linhas gerais, vejamos como se comportou o PT no tabuleiro capixaba.

Segundo dados extraídos do Tribunal Superior Eleitoral, dos 78 municípios capixabas, o PT apresentou candidato próprio em apenas 11 deles e conseguiu eleger um único prefeito, que foi o de Barra de São Francisco.

Ao longo do estado e com cenários que se modificavam de município para município, como se fossem movimentos de um caleidoscópio político, o PT se coligou com 29 partidos. Com o PMDB, de Paulo Hartung e Michel Temer, golpista-mor, coligou-se em 25 municípios. Este foi o partido com o qual o teve a segunda maior quantidade de coligações no estado, sendo que o primeiro foi o PDT, com o qual se coligou em 31 municípios. Com o PSD, de Kassab, e o PP, de Bolsonaro, se coligou em 20 municípios (terceiro maior partido em número de coligações); com o PSDB, de Aecinho, FH e Serra, em 19 (quarto maior número); com o SD, de Paulinho da Força Sindical, e o DEM, de Agripino Maia, em 18 (quinto maior número) e com o PR, de Magno Malta e Garotinho, em 17 (sexto maior número), isso para falar apenas dos maiores partidos que votaram a favor do impeachment e estão diretamente ligados a projetos que atentam contra a democracia, a liberdade e o povo brasileiro.

Já com o PC do B, aliado histórico e fiel até o último momento do impeachment, curiosamente coligou-se em apenas 13 municípios, ficando este partido em 10º lugar no número de coligações.

Ora, com esse comportamento o PT capixaba adota uma postura extremamente ambígua, para não dizer contraditória: formalmente denuncia o golpe em cenário nacional, mas quando cai em território local, coliga-se com partidos que ele próprio denuncia como golpistas e inimigos da classe trabalhadora. E o que é pior, faz isso sem nem ao menos poder usar a governabilidade como desculpa, já que na maior parte dos municípios o PT nem mesmo lançou candidato próprio.

Ora, diante desse cenário tragicômico, parece-me que já passou – e muito – da hora do PT voltar a dialogar com os movimentos sociais, com a juventude, com a periferia, com os artistas, de reassumir suas bandeiras históricas, hoje de um vermelho um tanto desbotado, e voltar a encantar a militância que antigamente comprava o broche da estrelinha e com orgulho a sustentava em seu peito.

* WILLIAMS R. MONJARDIM é servidor público, licenciado em filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e mestre também em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s