O sorriso da morte

CARLOS RUSSO JR.*

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“Desculpai-me se meus discursos vos entediam. Os velhos, quando começam a tagarelar, são insuportáveis”, dizia um antigo mestre. Ele sabia melhor que ninguém que, quando um homem vive muito, ele se dá conta de que, no fundo, o mundo é monótono, os homens não aprendem nada e recaem a cada geração nos mesmos erros e horrores; os acontecimentos não se repetem, mas se assemelham.

Existe, entretanto, algo que por ser exclusivo da natureza humana, nos torna sempre diferentes, um atributo que não compartilhamos nem com os anjos, nem com os demônios e nem com os animais: a capacidade de ser cômico, de rir. Somos a única espécie vivente que sorri, brinca, joga, porque não sendo imortais, disso possuímos a mais plena ciência. O gestual, a ironia, o cômico e o humorístico talvez sejam os modos pelos quais o homem tenta tornar aceitável a ideia insuportável da morte, arquitetando pelo riso a única vingança que lhe é possível contra o destino ou contra os deuses que o querem mortal.

Somos os únicos a saber que a morte trabalha conosco no mundo, ao nosso lado e que quando morremos, já que perdemos o mundo, perdemos também a morte. Se existimos é porque podemos e vamos morrer. A morte é sempre o nosso extremo e quem dispõe dela dispõe extremamente de si. Afinal, quando se morre, perde-se toda e qualquer alternativa, inclusive a possibilidade de morrer.

Quem vai ao funeral de um amigo ou de um parente tem, no fundo, a ideia de que está tratando de uma coisa que não lhe diz respeito pessoalmente. Ao visitarmos uma família atingida pelo luto, enquanto o finado ainda encontra-se no velório, vemos pessoas estupefatas, como se tivesse acontecido algum fato estranhíssimo. Todos se agitam e com isso demonstram o quanto estão despreparados para a coisa. Sejam os parentes, sejam os amigos, ou simples conhecidos. Os visitantes pronunciam frases que, mesmo que escutadas com benevolência, é inevitável que sejam definidas como insensatas. Afinal, não podem ver uma só lágrima, que já ordenam: “Não chore! Prometa que não vai chorar…” Mas por quê?   Há algum mal em que alguém chore? Quanto aos parentes, estes repetem frases desprovidas de sentido comum: “Não deveria morrer”, “Quem poderia imaginar? Quando estava no melhor da existência…” e outras assertivas que somente seriam admissíveis caso o fenômeno da morte estivesse se apresentando pela primeira vez no mundo.

Surpresa pela morte? A surpresa seria lógica se, em vez da notícia de que o amigo morreu, tivessem recebido- como um raio em céu sereno- a notícia de que o amigo não poderá morrer jamais, por toda a eternidade. Somente nesse caso as frases pronunciadas nas ocasiões da morte seriam apropriadas: “Não poderia imaginar! Quem poderia pensar? Ainda não posso crer…”

Somente o morto entendeu sua própria situação e ficou com a alma em paz.

Enquanto havia vida, existia esperança. Por um fio de esperança o agora defunto se agitou, fez gestos descompostos, disse palavras insensatas. Mas agora, não mais. Está tranquilíssimo. E é o único que, com desenvoltura, sabe fazer a sua parte nesta sala de velório! Está morto há poucas horas e já se mostra cheio da prática dessas coisas. Para quem o venha ver, está lá em seu caixão, cheio de flores, vestido com boa roupa; mal o vemos e já assumiu aquele aspecto impenetrável, aquela palidez inverossímil, aquela frieza característica.

Enquanto isso, os vivos se agitam como peixes fora d’água demonstrando que foram pegos de surpresa e revelam um despreparo deplorável. No morto, nenhuma surpresa. Dir-se-ia que não fez na vida outra coisa senão morrer.  Olhem para ele estendido em seu caixão.  Não se move há horas, não se vira para ninguém, não faz comentários. Mas como, se há tão pouco tempo parecia que ele jamais poderia se afastar dessas pessoas e dessas coisas que o circundam, e, principalmente, desligar-se de seus pertences?

Será possível que já tenha conseguido ficar com a alma em paz? Uma coisa é certa. O defunto não se ocupa nem de nada e nem de ninguém, aliás, nem de si mesmo. Que façam o que bem quiserem; vistam-no ou dispam-no, fechem-no nessa caixa, enterrem-no ou enviem-no a um crematório. Mostra-se completamente desinteressado. E se insistirem em deixá-lo ali, há de ficar. Querem rezar? Rezem. Querem chorar? Que chorem. Ele está ali parado e deixa que tudo aconteça. Tranquilíssimo. Mas onde terá aprendido fazer-se de tão morto e tão bem? E não é uma questão de cultura, de idade, classe social ou ainda preferência política. Nada! Os pobres sabem fazê-lo tanto quanto os ricos, o ignorante assume o mesmo aspecto que o intelectual. Jovens ou velhos, eles permanecem na idêntica imobilidade, com a mesma ausência, tenham eles sido de esquerda, de direita ou de centro, isso já não importa.

Porém que achado constitui a morte! O maior dos legisladores, escritores ou homens de teatro, mesmo dentre os mais engenhosos não saberiam imaginar uma solução tão genial! Há situações que parecem ser irremediáveis, emaranhados inextrincáveis, embrulhos que nunca se consegue desfazer. Doenças que prolongam o sofrer por anos, que levam toda a família a padecer, as reservas familiares ao fundo do poço. Chega, então, a morte e resolve tudo, colocando as coisas nos seus lugares, removendo as situações ou as dissolvendo, permitindo o recomeçar do início, abrindo as portas para a vida. É, a morte tem como resultado, muitas vezes, restabelecer a paz familiar.

É bem verdade que se ela faz mal ao coração de quem realmente ama, por outro resolve o que antes parecia impossível. Do modo mais impensado e simples. Se nem os melhores gênios saberiam inventar algo como a morte, é preciso acrescentar que ela constitui um instrumento complicado, que só deveria ser manejado por uma sapiência suprema. Em mãos humanas a morte é um desastre. Transforma-se em assassinato!

Pois bem, uma vez em velório, receberemos os amigos e vizinhos que chegarão com alguma agitação; nossos familiares estrilarão, ficarão surpresos, chorarão, farão muitos gestos sem nexo e todos realizarão coisas inúteis; não haverá ninguém que não tenha um ar preocupado ou que não deseje parecer um macaco numa loja de porcelanas finas.

Só nós estaremos tranquilíssimos. Estendidos num móvel totalmente novo, envernizado a rigor e que jamais terá outro dono, rodeado pelo perfume e pelo delicado toque das flores, estaremos completamente alheios à confusão geral e definitivamente não partilharemos os sentimentos dos circunstantes. É mesmo possível que, contrariando nossa vontade, nos sejam aplicadas máscaras e cosméticos que finjam nos rejuvenescer.

Nós, no entanto, não estaremos nem aí! Tão pouco teremos pensamentos de nenhuma espécie, nem mesmo os menores; tudo para nós estará doravante resolvido. Teremos sob os lábios não decerto o melhor, mas com certeza, o mais fino, ambíguo e irônico dos sorrisos. O sorriso da morte!

russojr* CARLOS RUSSO JR. é escritor, ensaísta e professor, dedica-se ao ensino de Literatura e Mitologia, com militância política na esfera dos Direitos Humanos. Blog: www.proust.net.br.

Nota: Extraído do livro de contos “As Máscaras de Perséfone”, de autoria de Carlos Russo Junior. Publicado com a autorização do autor.

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