O futuro de Ulisses Maia: muitos desafios aguardam o prefeito eleito de Maringá

VICTOR SIMIÃO*

Boa parte deles, políticos. Além disso, ele terá de cumprir propostas principais, que envolvem saúde, transporte, lixo e atenção a servidores municipais.

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Ulisses Maia (PDT) comemora a vitória eleitoral (foto do autor)

Ulisses Maia (PDT) está feliz. Muito feliz Nas entrevistas que deu desde que venceu a disputa pela prefeitura de Maringá, o prefeito eleito tem se mostrado sorridente e empolgado para comandar o poder executivo municipal.

Não é para menos. Nessa eleição, a segunda que disputou para a prefeitura (na primeira, em 2000, Maia foi o sexto colocado), ele fez 118,645 mil votos – 58,88% do total de votos válidos. Resultado que o deixou com 36 mil votos à frente do candidato derrotado. Silvio Barros (PP) obteve 82,868 mil votos – 41,12% do total válido.

Mas, para além da felicidade, existem os desafios. E eles são muitos. Neste texto, busca-se apresentar alguns dos principais que o prefeito eleito terá entre 2017 e 2020.  Dentre eles estão ações relacionadas à saúde, ao lixo e ao transporte público.

Destaca-se, também, a questão política no âmbito municipal – que pode ser um entrave para a gestão do pedetista. Isso porque, ao longo de toda a campanha eleitoral, Ulisses Maia disse não ter prometido cargos e não fazer parte de grupos. Para a população maringaense, o discurso soou como renovação – algo esperado em todo o Brasil e aqui, em que um mesmo grupo está no poder há quase 12 anos.

Entretanto, agora, depois de ter sido eleito, Maia deve começar a pensar as estratégias de governo e repensar o que disse. Apesar de todos os problemas que Maringá tem, e tem muitos, o município é reconhecido em todo o Brasil pela qualidade de vida, tecnologia, geração de empregos e investimentos.

Tudo isso passa pela política, formada por grupos, que é uma via crucial à governabilidade.

O desafio político

O pedetista terá de conversar com todos os políticos, inclusive adversários, a menos que queira afundar dentro do Paço Municipal sozinho – algo que, pelo que já demonstrou, não quer deixar acontecer.

Em relação ao município, nove, dos 15 vereadores eleitos, são da oposição, ao menos na formalidade. Esse grupo de parlamentares, de partidos que vão do PP ao PPS, foi eleito por meio de coligações do candidato derrotado Silvio Barros.

No legislativo municipal, Maia tem, com toda a certeza, dois vereadores – ambos do PV –sigla a qual se aliou na chapa “Inovação e Transparência”. O Partido Verde, aliás, é a legenda do vice-prefeito eleito, Edson Scabora. Ressalta-se que, na nova legislatura da Câmara de Maringá, Maia poderá conseguir votos do PT, que elegeu dois parlamentares. Ainda assim, fica com a minoria (11×4).

Assim como âmbito federal, ter minoria no legislativo é um problema. Há duas razões principais. A primeira delas: pautas prioritárias para o executivo podem não ser aprovadas; a segunda: projetos que os vereadores aprovam, mas que são vetados pelo prefeito, voltam à Câmara. Aí, lá o legislativo pode derrubar o veto do mandatário. São ações que, sem dúvida nenhuma, geram desgastes a imagem do chefe do executivo municipal.

Isso não foi algo que houve intensamente ao menos nas três últimas legislaturas, em que a base do chefe do executivo, na Câmara, sempre foi maioria.

As dificuldades em relação à política vão além. O irmão do segundo colocado na eleição municipal, Ricardo Barros, é o atual ministro da Saúde, e a esposa dele, Cida Borghetti, a vice-governadora do Paraná. Um canal aberto com os governos estadual e federal é necessário para trazer recursos ao município. Aliás, esse foi um dos destaques na campanha de Silvio Barros – que tentou mostrar ao eleitor que, com ele, as possibilidades de obter verbas para Maringá seriam maiores.

Os irmãos Barros e a vice-governadora já disseram que estão dispostas a ajudar o prefeito eleito. O mesmo foi dito pelos três deputados federais do município (Enio Veri [PT], Luiz Nishimori [PR] e Edmar Arruda [PSD]).

Maia também terá o desafio de mostrar ser diferente do grupo político que está no poder há três mandatos, dois com Silvio Barros e um com Carlos Roberto Pupin (PP), o atual chefe do executivo municipal. O prefeito eleito esteve por quase 10 anos com o grupo, atuando em funções como secretário municipal de Assistência Social e chefe de gabinete. Não bastasse isso, Maia foi eleito vereador pela máquina pepista, em 2012.

Pouco mais de um ano após ter sido eleito presidente da Câmara, ainda pelo Partido Progressista, Maia começou a votar com a oposição, e, no final de 2013, mudou de partido, indo para o Solidariedade. A partir daí, acostumou-se a fazer críticas ao grupo ao qual pertencia. No final de 2015, filiou-se ao PDT – partido cuja máquina política era e ainda é maior que a do SDD.

Na campanha deste ano, Maia reiterou ser um candidato de oposição, citando o rompimento com o grupo dos Barros, e com ideias próprias. Terá de provar aos que já o conheciam e aos que estão conhecendo agora.

Além disso, ao dizer que não faz parte de nenhum grupo político, omitiu ser irmão de Ricardo Maia, vereador de Maringá entre 1989 e 1996 e deputado estadual entre 1998 e 2001; e de fazer parte de uma máquina comandada por Osmar Dias (PDT), que declarou ter interesse em se candidatar ao governo do Paraná em 2018, e Álvaro Dias (PV), que já disse pensar na presidência da República em 2018.

Ulisses Maia, prefeito eleito de Maringá (PR)
Ulisses Maia, prefeito eleito de Maringá (PR) – Foto: Gabriel Brunini

As promessas

O prefeito eleito, durante a campanha, fez propostas em áreas sensíveis ao eleitor maringaense, que são: saúde, transporte e lixo. Sobre a primeira, Maia prometeu zerar a fila de consultas especializadas, que atualmente está em três mil. Para isso, vai utilizar parte do dinheiro que diz poder economizar cortando parte dos mais de 300 cargos comissionados da prefeitura municipal.

Em relação à segunda área, afirmou que vai rever os contratos com a empresa de Transporte Coletivo Cidade Canção. Na opinião dele e dos maringaenses, serviço caro e ruim. Se fizer isso, será uma das maiores ousadias da política maringaense na história recente. Isso porque, em 2011, o contrato foi renovado sob diversas suspeitas – inclusive, está sendo alvo de investigação do Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado).

Já sobre o lixo, reiterou diversas vezes que o atual contrato com a empresa que cuida do serviço é caro – e que ele não irá continuar com a privatização para economizar ao menos 15 milhões de reais, que podem ser aplicados em outras áreas. Essa medida, esperada pelo Observatório Social, Ministério Público e eleitores, irá mostrar se Maia de fato tem ou não cacife para cumprir os desafios que ele próprio se propôs.

Ainda sobre esse assunto, se isso acontecer, o prefeito eleito terá de rever a frota de caminhões de lixo, composta por cerca de 20 veículos, que está sucateada.

Um dos principais desafios também será implementar o vale-alimentação aos servidores municipais. Maia disse que vai fazer isso em janeiro de 2017. Ser isso acontecer, por mês, a prefeitura irá depositar R$ 250 reais para cada servidor. Atualmente, Maringá tem mais de 10 mil trabalhadores concursados pelo município. Ou seja, por ano, mais de R$ 30 milhões de reis.

Para tomar tal medida, o prefeito eleito disse que vai cortar o número de cargos comissionados da prefeitura e retirar dinheiro de outras áreas (ele ainda não especificou quais, mas garantiu que irá reduzir o número de secretarias, que atualmente são aproximadamente 20).

O prefeito atual, Carlos Roberto Pupin, e o candidato derrotado, Silvio Barros, disseram, mais de uma vez, que não há como dar esse benefício aos servidores sem trazer prejuízos aos cofres públicos. Se Ulisses conseguir cumprir o que prometeu e não prejudicar o caixa a prefeitura, será visto como um herói que tirou o povo das mãos daqueles que não queriam o bem do funcionalismo. Caso contrário, será visto como mais um político que prometeu e não cumpriu.

Por fim, ele também garantiu armar a Guarda Municipal e aumentar o efetivo dela, que conta com aproximadamente 150 servidores no momento. Essas duas demandas são pedidos da própria categoria. Entretanto, devem aumentar as despesas da prefeitura e trazer à tona, mais uma vez, a polêmica discussão: segurança armada não é dever do Estado?

Em um país onde a polícia é a que mais mata e a que mais morre no mundo, a medida que, a princípio, pode parecer boa, tem lá suas chances de ser ruim.

O que esperar?

Em 2017, o orçamento previsto para Maringá é de R$ 1, 44 bilhão. Com esse valor, Ulisses Maia pode realizar uma série de ações – inclusive, tentar cumprir boa parte das propostas e mostrar saber gerir o dinheiro público. Entretanto, deve se atentar a não cometer deslizes fiscais ou criar problemas para a prefeitura. Isso porque o grupo de oposição a ele deverá fiscaliza-lo continuamente, assim como a Câmara Municipal, o Observatório Social e a imprensa. Além, claro, da população maringaense, que lhe deu quase 120 mil votos no segundo turno.

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Foto: Gabriel Brunini

* VICTOR SIMIÃO, 22, é jornalista e acadêmico de Ciências Sociais. Atualmente, atua como repórter na rádio CBN Maringá. Na emissora, acompanha, principalmente, a política local.

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