Renegando meu sangue

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

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Da lista de filmes pouco conhecidos que aparentam simplicidade, “Renegando meu sangue” é certamente um dos mais complexos e impressionantes. Mesmo considerando o fato de se tratar de um simples filme de faroeste, filmado em preto e branco em 1957 e com menos de 90 minutos de duração. Ou inversamente, em boa parte por isso: frequentemente filmes de faroeste tratam de questões bastante universais, sendo que, nas mãos de bons diretores (no caso, o pouco lembrado Samuel Fuller) ultrapassam as evidentes limitações do gênero, do país que descrevem e da época em que foram feitos.

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O filme retrata o tema do ódio entre grupos, do ponto de vista daquilo que num indivíduo o justifica. Mais que isso, coisa rara em filmes que trataram do assunto, a dolorosa constatação, por parte do personagem principal, das contradições que envolvem suas escolhas: seu ódio pelos nortistas se choca com a constatação de que são também eles portadores de um senso de humanidade que até então acreditava inexistente. Como também ele próprio, que acreditava já não sentir nenhuma compaixão por seu próprio povo. De que, mesmo tendo sido aceito entre os sioux como um igual, jamais seria um deles; nem para eles, nem para si mesmo. O caráter dramático e bastante perturbador da história está diretamente relacionado com aquilo que talvez sejam os aspectos mais sombrios que sustentam a razão do ódio de um grupo por outro. Em outras palavras, a assustadora irracionalidade que sustenta esse ódio. Ao que parece, sempre pronto para renascer em qualquer lugar; seja na Alemanha dos anos 30, Iugoslávia ou Ruanda dos anos 90; entre o nós e entre o eles…

É provável que o ódio signifique sempre um poderoso meio de construção de certezas. Talvez com uma rapidez e intensidade que o amor, seu oposto, não seja capaz de estabelecer. Em situações de não conflito, ou mesmo conflituosas mas tratadas com ingênua simplicidade, é sempre possível falar em diálogo, respeito, justiça e confiança. Não, contudo, num ambiente de ódio real, onde este se torna irredutível e irracional.

Já no início do filme, o ex soldado sulista derrotado, descreve todo o ódio que sente por aqueles contra os quais lutou: daqueles que foram mortos por eles, de sua própria vida, que não teria sentido de ser vivida depois de anos lutando pela causa sulista. As cenas iniciais, bastante incomuns para um faroeste dos anos 50, por si só já fornecem uma medida assustadora desse ódio. Ainda que em situações de não conflito seja, repetindo, possível falar de diálogo, respeito, justiça e confiança, parece ser quase impossível fazer o mesmo em um ambiente contaminado pelo ódio. A dor causada pela admissão dos próprios erros ou que os argumentos da outra parte podem não ser apenas maus é, muitas vezes, maior que aquela causada por todo o mal que se atribui ao outro. Considerando inclusive o prazer – mórbida satisfação, sentimento de cumprimento de uma missão, etc – que, paradoxalmente, o ódio que um grupo dedica a outro grupo provoca entre seus membros.

a-produto_foto3_632464Não raro, “Renegando meu sangue” é apontado como um “faroeste revisionista”. O que é ótimo, como todo e qualquer revisionismo. Qualquer reinterpretação histórica é necessária – considerando que a história é sempre uma interpretação – na medida em que permite testar hipóteses mais plausíveis e menos plausíveis sobre as ações dos indivíduos. No caso do filme, os sulistas são vítimas, e ao mesmo tempo não são; os índios lutam por uma causa justa, e muitas vezes parecem não merecê-la; os soldados da União representam a opressão do vencedor, e ao mesmo tempo sem meios para estabelecer uma paz que de fato desejam.

Como curiosidade (e eventualmente refúgio para a dramaticidade do filme!), constam no elenco a lendária atriz Sarita Montiel, facilmente identificável na história; e Charles Bronson, que mesmo não representando um papel tão secundário, só é possível saber que estava no filme por conta dos créditos.

Ficha Técnica

Título Original: Run of the arrow
Gênero: Drama
Direção: Samuel Fueller
Duração: 88 minutos
Ano: 1957.
País de Origem: Estados Unidos.
ribeiro-fabio* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor associado da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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