A “nova” Câmara Municipal de Maringá: existiu uma renovação dentro da tradição?

TIAGO VALENCIANO *

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Encerradas as eleições de 2016, as questões levantadas pela imprensa, pelo eleitorado e pelos analistas políticos sempre abordam as expectativas geradas em torno daqueles que foram eleitos. Nesta seara, indagamos além dos sentimentos existentes, mas sim sobre o histórico daqueles que se propuseram a representar a sociedade: afinal, existiu uma renovação na Câmara Municipal de Maringá para o quadriênio 2017-2020? E mais: o que podemos sinalizar a partir dos perfis dos eleitos?

Nosso argumento central permeia as relações políticas do Poder Legislativo de Maringá pelo menos nas últimas quatro legislaturas, isto é, de 2000 para cá: existe sim uma renovação dentro da tradição política. Ou seja, o fato de ingresso de novas lideranças em cena na Câmara Municipal não significa necessariamente que houve uma renovação de fato, uma vez que a maioria dos Vereadores eleitos tem inserção no campo da política, seja disputando eleições, dirigindo partidos políticos ou atuando em apoio à alguma candidatura.

Assim, apresentaremos o perfil da Câmara Municipal de Maringá 2017-2020 sob algumas vertentes: a idade de cada parlamentar ao assumir o mandato; a relação entre a escolaridade e a profissão/ocupação; as bancadas partidárias; a carreira prévia antes de assumir o mandato como Vereador; a ligação com o associativismo em Maringá; e a família enquanto condicionante para determinar o sucesso político.

A tabela abaixo reflete um perfil genérico dos 15 Vereadores eleitos em 02 de outubro de 2016:

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Fonte: TSE (Tribunal Superior Eleitoral); o autor.

Em relação à idade média, destacamos que esta encaixa-se na faixa etária “clássica” para a eleição de parlamentares em Maringá, que compreende entre os 45 e 60 anos de idade. O próximo parlamento terá uma média de idade de 48,4 anos, representando assim um perfil etário muito semelhante às últimas 4 legislaturas, uma tendência do novo século, e, sobretudo, da alteração do número de vagas, quando em 2004 a câmara passou a contar com 15 vereadores.

Quanto à escolaridade, constata-se que 7 parlamentares tem o Ensino Superior completo, além de 4 terem declarado que já estiveram nos bancos de uma faculdade – apesar de não concluírem o curso. Observamos, assim, a busca do eleitorado maringaense em 2016 por um parlamento com longas carreiras escolares, o que pode ou não significar um desempenho satisfatório no Poder Legislativo. Apenas dois vereadores tem o ensino fundamental completo e dois chegaram ao ensino médio.

Sobre a relação profissão cursada e ocupação exercida, apontamos uma boa correlação existente, sem grandes distorções entre a ocupação declarada e a profissão aprendida. No perfil geral, os empresários/comerciantes são destaque, com 6 parlamentares, seguindo a bancada dos advogados (3), dos servidores públicos (2) e de 4 profissionais liberais, sendo um agricultor, um engenheiro, um artista plástico e um contador.

Já a bancada dos partidos políticos representados sofreu uma alteração em relação ao pleito de 2012, além de eleições históricas e retornos ao parlamento. A maior bancada é a do PHS, com 3 vereadores, sendo que desde a eleição de 2004 o partido não elegia um representante. Em segundo lugar, com 2 representantes cada, destacam-se: o PTB, que dobrou a bancada; o PSD, com o formato atual debutando na Câmara de Maringá junto com o PV; o PT, conservando os dois vereadores desde 1996; e o PP, que perdeu um parlamentar em relação à eleição passada. Com um vereador cada partido, PPS e PR estreiam na câmara. Se considerarmos o PR após a fusão com o PRONA, o antigo PL havia eleito vereador pela última vez em 2004. Por fim, destacamos que, pela primeira vez na história, não haverá nenhum vereador do partido do Prefeito na Câmara Municipal de Maringá – no caso o PDT.

O quadro abaixo relata a carreira prévia dos parlamentares antes de assumir um mandato na Câmara Municipal de Maringá, o pertencimento à entidades sociais e as relações familiares com a política:

Fonte: o autor.
Fonte: o autor.

Observamos que apenas um Vereador não obteve nenhuma carreira política prévia, seja exercendo cargos comissionados na administração pública, seja disputando eleições: Jean Marques. Todos os demais já disputaram eleições anteriormente, além do exercício de postos relevantes na municipalidade.

O associativismo também é um traço marcante na próxima Câmara Municipal. Apenas quatro Vereadores não integram nenhum tipo de entidade assistencial, de classe ou clubes sociais de Maringá. Onze Vereadores têm participação em segmentos da sociedade, destacando-se a atuação religiosa, empresarial ou de classe. A característica comparativa desta legislatura com as anteriores diz respeito aos Vereadores que estavam ligados aos clubes de serviço ou ONG’s, uma constância nas últimas eleições.

Com relação às ligações familiares com o poder, um terço dos parlamentares eleitos apresentaram algum tipo de relacionamento, sendo dois filhos de ex-vereadores e um irmão de um Deputado Federal – estes os mais relevantes. A presença do prefeito Ulisses Maia como vitorioso no pleito reforça o argumento de que as famílias ainda importam na política brasileira[1]: seu irmão Ricardo Maia havia sido Vereador em Maringá e Deputado Estadual.

Conforme exposto, apresentamos uma breve análise do perfil da Câmara Municipal de Maringá 2017-2020, reforçando o argumento de que houve uma renovação dentro de uma tradição política. O fato de que apenas um Vereador não possuía carreia política prévia – apesar de ser Servidor Público Municipal, endossa este argumento. O índice de reeleição de 20%, o terceiro menor da história, afirma a busca do eleitorado por uma “nova” Câmara Municipal, porém com experiência política presente. Se considerarmos que 46,6% dos parlamentares não exerceram nenhum mandato eletivo, esta “renovação” deve ser melhor ponderada.

Se formulássemos um extrato da nova legislatura, teríamos: 1) Vereadores com  experiência política no campo da política – ainda que não necessariamente na Câmara Municipal; 2) uma média de idade que se enquadra na faixa etária histórica entre os 45e os 60 anos de idade; 3) mais de dois terços dos Vereadores tem alta escolaridade, algo presente nos últimos anos; 4) a volta do empresariado como categoria ocupacional predominante, além do retorno dos advogados ao parlamento; 5) e forte engajamento associativista.

Referências

DIAS, Reginaldo Benedito. TONELLA, Celene.  A experiência do Legislativo municipal em Maringá – 1947 – 1998. Maringá: Câmara Municipal de Maringá, 1999.

DIAS, Reginaldo Benedito. Da arte de votar e ser votado: as eleições municipais em Maringá. Maringá: Clichetec, 2008.

DIAS, Reginaldo Benedito. A Câmara Municipal de Maringá 60 anos: 1952-2012. Maringá: Edição da Câmara Municipal de Maringá, 2014.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Base de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Disponível em: <http://www.tse.gov.br&gt;. Vários acessos.

VALENCIANO, Tiago. A Radiografia do Poder – As elites políticas de Maringá (1997-2012). Maringá: Instituto Cultura Política, 2013.

valenciano* TIAGO VALENCIANO é Doutor em Sociologia pela UFPR, é Mestre e Graduado em Ciências Sociais pela UEM. Integra o Núcleo de Estudos Paranaenses (NEP), da UFPR. Contato: http://www.tiagovalenciano.com

[1] Ver: OLIVEIRA, Ricardo Costa de. Na teia do nepotismo. Curitiba: Editora Insight, 2012.

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