A liberdade e a casa

alfredinhoPe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

 

“O homem é condenado a ser livre” – sentenciou o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre. A liberdade, irmã siamesa da responsabilidade, pode tornar-se efetivamente um dos maiores fardos do ser humano. Nas últimas décadas, com a revolução dos transportes, das comunicações e da informática, ampliou-se de forma desmedida o espaço da liberdade individual. Isso vale sobretudo para o uso da Internet, a formação das redes sociais e um espaço virtual aparentemente sem limites. Neste campo livre, aberto e sem fronteiras, tudo parece permitido, inclusive invadir a privacidade do cidadão, particularmente quando este vem a ser uma “celebridade” no mundo da política e da economia, da televisão e do cinema, da moda, do esporte e da arte.

Ao mesmo tempo que se ampliam vertiginosamente os espaços da liberdade, porém, o mesmo ser humano corre o risco de perder o valor da “casa”. Casa como lugar de referência, de refúgio, de bem-estar. Ambiente íntimo e familiar, calor do que chamamos lar. Lugar onde o indivíduo é livre para ser ele mesmo, para despir as muitas máscaras que é obrigado a usar na sociedade real ou virtual. E para revelar sem medo nem vergonha a própria nudez, bem como a fraqueza e debilidade que a todos nos fragiliza. Uma pessoa somente é capaz de desnudar-se diante do olhar de quem a ama. De outra forma, sentir-se-ia exposta à curiosidade alheia, em plena praça pública. O amor reveste a nudez do ser amado. Daí o ditado popular segundo o qual “mesa e cama só se partilha com quem ama”.

Casa é também o espelho que nos devolve sem subterfúgios as rugas, os cabelos brancos, os danos que tempo cavou em nosso rosto. Mas o espelho da casa/lar devolve igualmente o olhar que, por sua vez, desvela a alma nua, sem falsidade. E ali o peso dos anos deixaram impressos sucessos, alegrias e vitórias, sem dúvida, mas também vestígios indeléveis de tristezas e medos, fracasso e insegurança, angústias, incertezas e interrogações. Nos últimos tempos, em especial, as perguntas parecem substituir as antigas respostas prontas, que tínhamos na ponta da língua. Ao mesmo tempo, as dúvidas se instalaram no lugar das tradicionais “verdades e certezas”. Dito de outra forma, as perguntas se tornaram maiores e mais inquietantes que nossa capacidade de responder. E isso é sinônimo de crise! E na crise, emerge com força o desejo de resgatar a identidade.

Resulta evidente a necessidade de uma casa, referência ou identidade. De uma forma ou de outra, sentimo-nos atropelados e arrastados pelo rio de águas turvas, revoltas e turbulentas que representa a globalização econômica e política, a imposição do mercado total, o ciclo crescente e em espiral da produção e consumo. Em meio a essa corrente cada vez mais impetuosa, com a água a bater no pescoço, tentamos com a ponta dos pés tocar o solo firme, pedra ou rocha sólida onde encontrar segurança. É a busca da casa num universo que, pouco a pouco, se transforma em “não lugar”, para usar a expressão cunhada por Mar Augé, etnólogo e antropólogo francês. Na contramão da globalização, erguem-se fortemente as resistências identitárias, saudosas da própria casa.

A liberdade no sentido de “fazer o que se quer” debilita, neutraliza e liquidifica os marcos fixos e sólidos da experiência humana, seja na relação com a história em geral, sem na relação com a tradição pessoal, familiar ou nacional. Entende-se tradição aqui em seu significado positivo, como transmissão de valores profundos e essenciais da existência. São esses valores que nos levam a outro sentido da liberdade que é o de “fazer o que, para a maioria da população, constrói oportunidades iguais, justiça e paz”. Conectar a liberdade à responsabilidade e à solidariedade conduz-nos a encontrar alguns pontos de apoio naquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman batizou de “sociedade líquida”. A conclusão é que a liberdade, nesta perspectiva, em lugar de um sentimento de necessária condenação, é antes uma abertura viva, livre e positiva a um projeto maior de cuidado e de recriação do planeta terra, da história da biodiversidade sobre ele, com particular atenção à vida humana.

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2 comentários sobre “A liberdade e a casa

  1. O conceito de liberdade e responsabilidade são abordados de modo abstrato, numa concepção liberal com um indivíduo igualmente abstrato. Segundo o autor, o “indivíduo [pode ser] livre para ser ele mesmo, para despir as muitas máscaras que é obrigado a usar na sociedade real ou virtual”, como se esse indivíduo não fosse também determinado por estruturas anteriores. É considerar que, por exemplo, os indivíduos na Índia fizessem o uso de sua liberdade abstrata e um belo dia calhasse que todos se perguntassem: que religião devo escolher? e, coincidentemente, a maioria escolhesse ser hindu. O mesmo se poderia pensar com os islâmicos na Etiópia ou os cristãos no Brasil. Ou seja, ao fazer o mero uso de uma liberdade abstrata, os indivíduos podem simplesmente “escolher livremente”, suas religiões, concepções de mundo etc.

    A mesma concepção abstrata de indivíduo é transposta para a internet, sendo esta considerada com um “campo livre, aberto e sem fronteiras”. Aqui é até plausível a pergunta: livre, aberto e sem fronteira para quem? Esquece-se que, materialmente, a internet ocorre sobre um substrato bilionário com grandes provedores, fabricantes transnacionais de equipamentos, redes de infovias internacionais, inclusive com tráfego por satélites que são basicamente controlados pelos Estados Unidos. Ora, acreditar nessa “liberdade” permitida pela internet é acreditar que as Microsofts da vida, Androids, Aples etc., estão bancando uma infraestrutura que, ao fim e ao cabo, podem ser apropriadas pelas “forças do bem” e proporcionar os instrumentos para uma revolução popular. A esse aspecto, é sempre pedagógico ler o artigo “A revolução não será tuitada” de Malcom Gladwell, (2010).

    Não se quer aqui defender uma compreensão reducionista aos moldes do “tá tudo dominado”, onde há a exclusão da liberdade, nem desconhecer que a internet possa (e deva!) ser apropriada como instrumento de luta. O Wikileaks e a Revista Espaço Acadêmico são exemplos disso. O que se questiona aqui é o excesso de romantismo.

  2. Interessantes e pertinentes considerações!
    Campo de estudos, talvez inesgotáveis…

    A complexidade é muito grande e as mudanças muito dinâmicas.
    As TIC’s que seduzem e conduzem da realidade para a virtualidade também são provedoras de possibilidades de um retorno às Casas e Convívio como muito bem foi proposto no livro A Terceira Onda – ainda na década de 80, bem antes da Internet e do PC e mais recentemente os Smartphones.

    Evolucão. Desejável, irreversível e com potencial de ser Saudável

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