Franz Kafka – O romancista do “absurdo”

MAURÍCIO TRAGTENBERG

Maurício Tragtenberg (1929-1998)
Maurício Tragtenberg (1929-1998)

Explicação preliminar

O presente “Ensaio” tem como finalidade básica analisar o tema do “absurdo” no seu “desenvolvimento histórico”, estruturado por Dostoievski em seus romances, desenvolvido por Franz Kafka no sentido transcendental e por Albert Camus no sentido imanente.

Pretende ele analisar também o tema da incomunicabilidade ligado ao “absurdo”, partindo de textos considerados básicos na bibliografia kafkeana, quais sejam, “O Castelo” e seu “Diário”, evitando cair numa análise estilística tão a gosto dos adeptos do modern criticism [1] como a uma redução sociologística da obra de arte, cultivada pelos epígonos modernos de Taine.

Crê o Autor, que o equilíbrio entre o aspecto psicológico, literário e histórico permite uma visão mais “integrativa” do universo literário, sem cair nos reducionismos atraentes, porque fáceis, de cunho estilístico ou sociologizante. Nessa linha de equilíbrios integram-se a obra de Antônio Cândido “Panorama da Literatura Brasileira” e a de Hugo Friedrich na sua Die struktur der modern lyrik (von Baudelaire bis zur Gegenwart).

*

O grau de validade de uma crítica literária situa-se entre o nexo histórico que capta a realidade objetiva e a análise psicológica e literária que constitui seu suporte subjetivo; da interação desses elementos é que a criação literária recebe sua configuração última, adquirindo autoconsciência dos problemas que analisa e das medidas propostas.

A criação intelectual, como toda criação, nasce e se desenvolve num complexo cultural determinado, onde os fatores objetivos – econômicos ou ideológicos – são captados pelo intelecto em conexão com seu suporte subjetivo – o psicológico.

Portanto, impõe-se a análise do pensamento intelectual, – o “espírito subjetivo” da intelligentsia – dentro de um marco sócio-cultural, donde ele emerge individualmente diferenciado.

  1. A “intelligentsia”

Um dos fatores mais significativos da criação intelectual na atualidade, consiste em que esta, contrariamente às civilizações anteriores, não é exercida por uma casta fechada mas por uma camada, que em sua gênese aparece desligada de qualquer classe.

Esse fenômeno sociológico é que determina a universalidade do pensamento que já se inicia com o humanismo e cristaliza-se na “Ilustração”, na sua forma leiga e mundana, oposta à “sacral”.

Criado pela Revolução francesa, surge esse estrato social destinado a salvaguardar a herança intelectual, cumprindo o mesmo papel que as castas sacerdotais no mundo antigo.

Enquanto que os homens que tomam parte ativa na produção social, provindos de diferentes classes, têm um estilo de vida e pensamento correspondente à sua “situação de classe”, os intelectuais, além de trazerem o cunho de sua afinidade classista, são também determinados pelo meio intelectual este contém em si todos os elementos contraditórios da vida social, e fornece aos intelectuais os elementos potenciais que os habilita a desenvolver uma sensibilidade social, sintonizada com as forças em conflito.

Duas são as linhas de ação adotadas pelos intelectuais para sair dessa posição intermediária: filiação voluntária a uma das classes antagônicas ou o exame de suas próprias raízes sociais que os condicionam a defender a herança cultural da sociedade em seu conjunto. Em relação à primeira atitude, encontramo-los fornecendo teóricos para os conservadores, que, devido a sua própria posição social, dificilmente chegavam a autoconsciência teórica de sua situação, e fornecendo teóricos aos movimentos populares. Marx, Engels e Trotsky são a materialização da intelligentsia “pequena-burguesia” pelo estilo de vida, e por seu contacto com o povo, que os habilitava à posição de porta-vozes dos seus interesses mediatos e imediatos.

A possibilidade de se aliar a classes que não pertencem era dada originariamente aos intelectuais, porque podiam adaptar-se a qualquer ponto de vista e devido também a sua posição intermediária entre as duas grandes classes sociais.

Essa decisão voluntária tinha a virtude de unir os intelectuais a essa classe durante a luta, mas nem por isso eles se libertavam da desconfiança dos membros dela originários.

Segundo Karl Mannheim, tal desconfiança é um sintoma de uma realidade social: a assimilação dos intelectuais a uma classe estranha é limitada por suas características sociais e psíquicas que lhes são próprias. Somente à luz dessa desconfiança é que se entende o fanatismo dos intelectuais radicados nos movimentos totalitários, sejam fascistas ou estalinistas. Esse fanatismo é uma compensação psicológica pela falta de integração mais profunda numa classe e pela necessidade de vencer a própria insegurança e a desconfiança da mesma classe, à qual pretende ele se ligar.

A intelligentsia como parte orgânica de uma estrutura social determinada, dela recebe sua configuração específica – conservadora ou revolucionaria – e a amplitude e limites lógicos de seus problemas.

Assim a intelligentsia russa que trocou os diplomas universitários por uma bomba, o estudo pela ação conspirativa, representada por Netchaev, Bakunine e Vera Figner, era fruto de uma estrutura social feudal e do absolutismo político; somente a industrialização e o aparecimento das Dumas é que permitiu o surgimento dos Plekhanov ou Jordânia.

Enquanto isso a intelligentsia ocidental, formada na tradição parlamentar ingressava nas universidades oficiais. No entanto, à medida que entrava em contacto com as realidades fundadas pela revolução industrial ela se ligava, sob a ação da propaganda ou da vaidade, ao totalitarismo, seja nazista, fascista ou estalinista, tendo um destino trágico.

Ela é a parte da sociedade que reflete mais diretamente sua ascenção ou decomposição. Sua deterioração, seu aniquilamento físico, a perda de sua liberdade de crítica, mostram o processo de decomposição das elites dirigentes e do estalinismo.

O nazismo e o fascismo sabiam bem o que faziam, quando exterminaram a intelligentsia independente de vinculações estamentais, suprimindo-a ou transformando-a em simples parafuso de máquina burocrática, estatal ou partidária.

No entanto, a intelligentsia não pode flutuar no ar: coloca-se o problema de orienta-la num sentido positivo, pois ao ver-se privada do apoio dos grupos progressistas da sociedade, ela volta-se contra si mesma erigindo sua “torre de marfim”.

Ela deve procurar esse apoio nos grupos sociais ascendentes, pois ela é a materialização do espírito histórico da cultura, em oposição aos grupos sociais decadentes que tomam e da cultura, devido a uma “falsa consciência” de sua situação específica – grupo decadente – identificando-a com a situação da sociedade global.

Franz Kafka (1883-1924)
Franz Kafka (1883-1924)

2. Franz Kafka.

Sua obra constitui a materialização das tensões sociais numa alma pequeno-burguesa, isso aparece na sua dicotomia: profissionalmente é gerente de uma companhia de seguros, e subjetivamente é um intelectual, um artista.

O vácuo existente entre esse “desdobramento” foi preenchido pela crise. Essa antinomia marcou sua existência, tornando-o um tipo introvertido. Daí seu estilo alegórico e o tema da “incomunicabilidade” entre os homens, vivido por José K. no “O Processo” e pelo agrimensor no, “O Castelo”.

Justifica-se essa atitude de reserva, pois ele, como intelectual, é olhado com suspeita pelo seu próprio grupo social e familiar, por esses burgueses rotineiros que compensam suas frustrações quotidianas no culto fetichista do cheque bancário que lhes garante a segurança financeira, da religião, que assegura um passe livre ao céu e do Estado, supremo protetor de suas propriedades.

Franz Kafka choca-se com uma organização social que impõe como “anormal” toda atividade que não vise um lucro, não propicie uma felicidade sonante, como a do escritor que faz profissão do mental e do “ocioso”, num mundo de valores pragmáticos e contábeis.

O drama de F. Kafka é o drama de um membro de uma família pequeno-burguesa.

A “incomunicabilidade” kafkeana não é uma categoria abstrata de caráter extraterreno, ela pertence à “contingência”, “ao quotidiano” da vida de cada um.

Ela é um “recurso” literário e artístico refinado como conseqüência de sua oposição ao Pai. Segundo seu próprio testemunho, toda sua obra advém do conflito com seu pai. O pai, um tipo bonachão, audacioso, de temperamento brutal e dominador, o filho, o oposto: um “intelectual”, um contemplativo.

A incomunicabilidade leva a oposição de caracteres; daí advém uma luta surda e Kafka se sente como um criminoso que espia um crime que não cometeu.

É a mesma sensação de esmagamento que José K. sente ao enfrentar o Tribunal, de um criminoso sem culpa formada e formalizada, julgado sem saber por quem e condenado sem saber como.

É uma antevisão kafkeana da tragédia judaica no processo da 2ª guerra mundial, – a de perseguidos sem culpa, pela onda totalitária.

No entanto, deve-se ressaltar que seu desligamento de um grupo social ascendente impediu-o de levar sua obra a uma espécie de uma tomada de consciência de uma realidade universal e ao mesmo tempo particular: a do homem do século XX, entre duas guerras.

Essa unilateralidade sociológica é compensada por qualidades pessoais: o sentido kafkeano da arte como atividade vital e sua sensibilidade em captar o que há de trágico e grotesco no quotidiano do homem moderno.

Se O Processo é o retrato da desintegração da personalidade humana ante um Estado totalitário e impessoal, América é uma critica severa a uma civilização que erige como ideais de vida, a televisão, a geladeira ou o automóvel.

ca. 19th century --- Portrait of Russian novelist Feodor Dostoyevsky (1821-1881).  Undated photograph. --- Image by © Bettmann/CORBIS
ca. 19th century — Portrait of Russian novelist Feodor Dostoyevsky (1821-1881). Undated photograph. — Image by © Bettmann/CORBIS

3. O tema do “absurdo” no seu desenvolvimento histórico. (De Dostoievsky a Kafka)

Na preparação do caminho para a interpretação do “absurdo” na vida humana situa-se o homem “dostoievskeano”, que aparece como negação de um racionalismo de perfumaria, de um Botroux ou de um Alain.

No homem “dostoievskeano” a alma é puro caos. Encontramos ébrios por desejo de pureza (Marmeladov), homens que violam virgens por respeito à inocência. O amor e o ódio, a volúpia e a fraqueza confundem-se em “transposições” ininterruptas.

Svidrigailov, Fedor Karamazov e Raskolnikov são dissolutos, no entanto estão separados por um abismo dialético. A volúpia de Svidrigailov e a depravação “fria”de Karamazov representam “a alegria de viver”. Raskolnikov encarna a maldade intelectual unida à perversão.

Dostoievsky decompõe a volúpia e remonta às suas raízes, às suas composições mais misteriosas, insistindo na antinomia entre o “mundo” e o “eu”, o aniquilamento do homem em favor de forças invisíveis.

É o profundo sentido do “absurdo da vida”, que tem suas raízes em Dostoievsky, ramificando-se em Albert Camus com La Peste num sentido “imanentista” e assumindo “traços transcendentais” em Franz Kafka.

O “absurdo” atinge sua máxima expressão em Dostoievsky, na lenda do Grande Inquisidor nos Irmãos Karamazov e no suicídio de Kirilov n’Os Possessos.

Na legenda do Grande Inquisidor, Cristo desce à terra na época da inquisição espanhola. O Grande Inquisidor justifica sua missão terrena mostrando a Cristo que ele dando liberdade ao homem – “a verdade vos tornará livres” – “eu sou a verdade” – deu-lhe um fardo pesado para suas costas fracas e o Grande Inquisidor “tirando-lhe a liberdade em troca da segurança” revelou-se seu amigo, ao mesmo tempo em que transferia toda responsabilidade dos atos humanos na terra para si, deixando para o homem o pão terrestre. Em nome do homem e do cristianismo o Grande Inquisidor poderia atirar Cristo à fogueira.

Nessa legenda, além de Dostoievsky mostrar todo o processo de burocratização da Igreja Romana a quem ele odiava por ser ortodoxo, ele nos mostra que toda idéia religiosa ou social desenvolve-se sob o signo do absurdo.

Em sua fonte original a idéia é limpa e pura: o cristianismo na pessoa do Cristo. Quando, porém, ela se institucionaliza – Igreja, dogma e clero – , ela se nega a si própria. Daí o cristianismo poder findar em Inquisição, como o culto à “deusa razão” terminou no “despotismo da liberdade”, contra a tirania, de Robespierre.

Se Deus não existe, tudo é permitido, então eu gozo de uma liberdade ilimitada. O máximo de liberdade consiste na prova de meu aniquilamento. Eu me mato para provar a minha liberdade e ao mesmo tempo que Deus não existe.

Esse é o “absurdo” do homem que vai da liberdade ilimitada ao auto-aniquilamento.

Em La Peste de Albert Camus esse absurdo tem um aspecto imanentista; é a morte; uma multidão de ratos invade uma cidade, espalhando-a tornando-a quotidiana. A coabitação com a morte tira dela qualquer aspecto “trágico”. É o inumano borbejando o humano: ele é imanente à própria existência.

Em Franz Kafka o “absurdo” é transcendental; reside na incomunicabilidade do homem com o homem, formando uma trama de relações pessoais “sem” sentido, impostas por circunstancias alheias ao homem. O agrimensor n’O Castelo não se comunica com a autoridade suprema, Klamm. O personagem de O Processo José K., não se comunica com uma justiça, que permanece eternamente na penumbra, assim como Kafka não se comunica com Deus.

O fenômeno mais significativo no pensamento de F. Kafka consiste na desierarquização espiritual que coloca seres, objetos e situações em nível de idêntica força causal.

Nele tudo assume a forma de uma categoria capaz de transcendência; o fato mais insignificante converte-se em símbolo, em sonho. Assim, o sobrenatural pertence também a esse mundo quotidiano. Sua irônica dialética a respeito do conhecimento além do real, encontra sua expressão nessa sentença típica: “o conhecimento é a etapa que leva à vida eterna e o obstáculo colocado diante dela”.

4. O Processo

Essa obra de F. Kafka é a previsão das maiores farsas judiciais dos tempos modernos, como os Processos de Moscou e Budapeste. E’o supremo protesto contra a volta aos aspectos mais negativos da Renascença, materializados no culto à “razão de Estado”, sob os regimes totalitários.

Essa antevisão aparece no destino trágico e absurdo de José K., escravo e joguete de forças estranhas e invisíveis, tão impessoais como a burocracia que o condena.

Nessa obra aparece com maior clareza o traço original que liga a vida à obra de F. Kafka.

O personagem principal de O Processo coloca-se diante de um problema de caráter finalista: “da direção e sentido de sua existência, de seu destino inexorável que culmina com a morte”.

Pelo fato de viver “para” esse destino é que o homem kafkeano se converter num condenado permanente sem outro consolo que suas meditações sobre uma culpa inexplicável, projetada em sua vida por uma autoridade impessoal e invisível como ela própria. Essa luta contra o absurdo finalismo de nossa existência adquire aspectos patéticos no homem kafkeano.

Ela é expressa por Kafka quando no seu Diário escreve:

“Eu luto mais que os outros. A maior parte luta com sonhos como quando se agita a mão para desviar minhas forças com reflexão e minúcia”.

O personagem verdadeiro de O Processo é a culpa. Uma culpa surda e invisível ligada organicamente ao ser, à existência.

José K., não enfrenta a luta, limita-se a padece-la como um doente experimental que sofresse sozinho os efeitos da culpa. Esse herói é um tipo comum de funcionário bancário que enfrenta a Autoridade, “sofrendo” uma culpa cuja origem e razão ele próprio desconhece.

Com essa passividade de José K., diante da culpa e da Autoridade invisível, Franz Kafka esforça-se em mostrar que o que existe “fora” de nós, consiste simplesmente no aniquilamento e no “absurdo”. O inumano sempre bordeja o humano. E todas as consolações edificantes expressas em sistemas filosóficos nada mais são do que “racionalizações”desse absurdo, que só é apreendido pelo processo novelesco. Daí a opção de Kafka pelo gênero conto ou romance.

O “absurdo” em F. Kafka rejeita todas as formas de “alienação”, seja a família, profissão, dinheiro, sistemas filosóficos, religião e o patriotismo. Elas nada podem contra o “escândalo” que consiste no simples existir.

O herói kafkeano rejeita a santidade como o desespero: sua atitude é de imobilidade ante o absurdo.

José K., faz a prova da liberdade, permanecendo imóvel ante a Autoridade e atraindo sobre si “livremente” todas as conseqüências de sua atitude.

No decorrer do processo, José K., comportar-se-á como culpado do principio ao fim; em vez de inquirir “porque” o acusam interessa-lhe saber mais “quem” o acusa, tentando manter-se lúcido, a única arma que lhe resta. Sua tristeza é ter que se ir, sem conhecer nem saber que juiz o condena.

A impessoalidade da burocracia judicial transparece claramente no encontro entre José K. e o pintor:

– Os grandes advogados quem são?, como podem ser vistos? – pergunta José K.

– Você nunca ouviu falar deles? – responde o pintor. Não há nenhum acusado que não sonhou com eles durante algum tempo. Não se deixe dominar por essa debilidade. Quem são? Não sei. Quanto a conhece-los, impossível.

Vemos o tema da autoridade unido estreitamente à culpa. José k., não pode viver sem se justificar. Então, tende a procurar a Autoridade. E se tal Autoridade não existisse, pensa ele, para que então essas idas e vindas, todo esse sofrimento, todo esse absurdo? Ela existe, mas não é acessível a José K. Estamos diante da “incomunicabilidade”. A Autoridade, o Conselho Judicial de um lado, o homem do outro.

E’a presença hofmaniana dessa máquina judicial, de uma justiça invisível que deixa no ar o gesto cego e impensado de uma acusação e uma sentença que parecem agitar-se no vácuo, funcionando mecanicamente que acaba reduzindo o individuo a condição promiscua de sub-homem.

Na prisão de José K. revela-se novamente a incomunicabilidade. Os funcionários que o prenderam nada podem dizer. Estão aí para prendê-lo, para cumprir ordens. “Tudo existe, mas nada se comunica”. A desconformidade do movimento parcial é a lei. Cada fenômeno move-se em seu próprio circulo hermeticamente fechado, sem ligação com o general.

O espanto de José K. ante sua detenção não tem limites. Nascido sob o agasalho de uma Constituição que garantia os direitos individuais, não concebe essa invasão em sua vida e ainda desconcertado pergunta:

– De que falam? A que serviço pertencem? Ninguém lhe responde.

Essa experiência do pacato cidadão diante da Autoridade é uma visão antecipadora do processo de sujeição do homem ao totalitarismo vivido na experiência do fascismo, nazismo e estalinismo.

José K. sente a força do destino em sua vida: este está traçado. Se o deixassem em liberdade condicional o pacato José K. seguiria sua existência normal: ir ao Banco, visitar semanalmente Elsa, passear com o chefe. Tenta iludir-se pensando que sua detenção nada pode ter de terrível.

José K. achega-se ao guarda principal e os outros se achegam por sua vez, formando um grupo cerrado. Por um processo de abstração ele se imagina tomando parte no grupo que o persegue, o “acusado livre” comenta o seu próprio “caso” com outrem, como se outro fosse. No entanto ele, nem sempre pode levar-se pelos vôos da imaginação e manter-se calmo.

Há momentos em que o desespero se apodera dele. Então, é quando sente a necessidade de conversar despreocupadamente, justificar-se perante os outros. José K. procura contacto com a vida, com os bens terrestres, coisa que Kafka aspirará encontrar em sua vida, mais inutilmente.

Angustiado José K. procura comunicar-se; sente uma incoercível necessidade de falar sobre o “caso” com a Senhora Grubach, travar com ela relações mais amigáveis, quotidianas.

O que importa n’O Processo é o culpado mais do que a justificação ou não da causa, que é pouco menos que secundaria, porque a justiça é inacessível, permanecendo incomunicável com o homem. Essa máquina permanece só, sem gestos, nem aparatos, como uma presença insólita no drama do humano.

Nesse singular processo pouco interessa o dia do julgamento: ele se efetua num “domingo”. O lugar onde funciona o tribunal pouco importa, num “local abandonado”. Pouco importa o “nome” do acusador; José K. é confundido com um pintor de paredes. Uma promiscuidade horrível reina em seu redor e tudo se processa numa marcha “mecânica” e “indiferente”. Pressente-se que o desfecho inevitável do drama, que se passa num ambiente opressor, junto às lavadeiras inexplicáveis, é a “morte”. Isso todos sabem porque todos estão envolvidos. A intervenção inexplicável do tio do acusado no processo representa “simbolicamente” um chamado à vida familiar, de cujo circulo Franz Kafka permaneceu inteiramente afastado.

O advogado sob cuja tutela o herói permanecerá durante o transcorrer do processo, representa a transição com a corrupção, a cujos sinistros mecanismos é mister submeter-se e a cuja autoridade é impossível atingir. Essa é a significação exata da presença de Titorelli, pintor medíocre, amigo, tal como o advogado, de juizes subalterno e servis que muito pouco farão por José K. lhe diz:

– Pertences à Justiça? Para que me queres?

– A Justiça nada quer de ti. Toma-te quando vens e deixa-te quando vais.

Certa noite a Justiça vestida de negro aparece diante de José K. Levam-no a um local afastado e com três facadas no coração liquidam-no. Onde estava o juiz? Onde estava a Alta Corte que o condenou? Continuam sendo entidades abstratas e incomunicáveis com o humano, com José K. transformado em símbolo.

  1. O Castelo.

A vontade de possuir uma casa, ter uma segurança mínima é o que alenta o incansável agrimensor de O Castelo.

“As primeiras experiências do agrimensor K., desenvolve-se na trama sutil armada pelo absurdo que acolhe o homem em suas malhas”.

O agrimensor K. choca-se com o sentimento de impotência, com as casas semi-destruídas, que aglutinadas entre si formam um bloco compacto representando o inacessível, que o homem tenta atingir, mas não consegue.

O agrimensor esmagado pela incomensurabilidade do Castelo, chega a duvidar de si próprio, perguntando-se: “quem sou eu pois?”. No entanto, uma carta da Alta Autoridade do castelo chama-se para lá; ela é assinada por um chefe poderoso, Klamm. Logo se anuncia o equivoco havido. Após sua conversa com o alcaide, K., começa a duvidar da própria existência de tal chamado.

É informado que O Castelo prescinde de seus serviços, que tudo se encontra medido. Inicia-se aqui a luta violenta com o “inimigo”. Apesar de tudo, o agrimensor obstina-se em ser admitido. Sua esperança é entrar em contacto com Klamm, ser admitido, ouvir de seus lábios a palavra decisiva; essa é a aspiração constante que o domina.

Não consegue realizar seu desejo, sua vontade é consumida num continuo rodeio, fica sempre detido nas imediações, nas medidas preliminares; outro aspecto da “incomunicabilidade ”kafkeana.

Busca ele apoio para se ligar, entrar em contacto com a autoridade inacessível: Klamm. Liga-se a Frieda, à hoteleira e a Barnabé. A hoteleira torna-se amiga de Klamm, o chefe poderoso.

Sem ser poderosa aspira a sê-lo e admira secretamente os que estão nas altas posições da escala social. Essa burguesia média despreza o idealista que sai de suas próprias fileiras, tendo maior consideração pelos tipos vazios que freqüentam o “Hotel dos Senhores”. Em outro plano, a hoteleira representa uma liberdade submissa à autoridade (Klamm).

O principio do mundanismo é claramente refletido pela hoteleira, principio que quer salvar pela sua oposição ao matrimonio de K., com Frieda. A hoteleira teme por seu mundo. Receia no fundo qualquer contacto entre K. e Klamm.

“Isso mostra que a Autoridade está seqüestrada pelos submissos. E a submissão que tem medo de modificações, dos que querem ‘continuar’ que confere a ela sua força inaudita”.

A hoteleira pressente que o encontro entre K. e Klamm dissolve o principio da Autoridade da qual ela depende.

Quão comovente é a descrição do episódio em que o agrimensor desesperado se decide a falar diretamente com a Autoridade, Klamm, de quem depende diretamente seu destino. A espera inútil, o ambiente no “Hotel dos Senhores”, a descrição desse ambiente, que parece não conter em si outra vida, senão de forjar a “vivencia” do herói, é de uma força digna de um Dostoievsky.

  1. permanece distraído e cansado no interior de um trenó esperando a chegada de Klamm. Um homem vem ao seu encontro: não é Klamm. Informa-lhe que este não virá. Há um instante em que o recém-chegado, o cocheiro e o trenó se retiram. Então K. sente que se “cortou” toda união, que goza de uma terrível liberdade, ninguém teria o direito de joga-lo, toca-lo ou falar-lhe. Nada tão desprovido de sentido e aterrador como essa intangibilidade do herói.

Enquanto K. sonha chegar ao Castelo, Frieda sente a nostalgia da quietude olhando com sugestiva simpatia esses seres despreocupados que lhe são afins. Ainda que bobos ou inconscientes, Jeremias e Artur representam a “segurança”, o não-compromisso. K. vê-se obrigado a compactar com eles. Sujeita-se a viver na mesma habitação, na escola.

Essa curiosa residência e a promiscuidade reinante, simbolizam com maestria a transação, o compromisso a que nos obrigam com desgraça freqüência as circunstâncias da vida.

O fracasso configura toda a existência de K., pois as aspirações realizam-se de um modo “absurdo”, a realidade as deforma.

Frieda e K. têm plena consciência que sua união é impossível: apesar da vontade subjetiva de unir-se, o destino de cada um é diferente. O destino de Frieda diferencia-se profundamente do destino trágico de K. Ela não é um tipo para abandonar sua família, seu estilo de vida tecido de fins imediatos. Ela representa o quotidiano, o comum, o banal.

Essa passagem está impregnada do drama pessoal de Franz Kafka, o biográfico, o psicológico e o literário se confundem.

Numa carta memorável destinada ao pai F. Kafka expõe os motivos que o levam a renunciar a uma união conjugal. Em primeiro lugar, ela se opõe à sua vocação literária. Tudo que não é literatura, para ele é penoso e insuportável. Outro motivo, sua constituição débil e enfermiça, seu caráter nervoso e insatisfeito. F. B. sua noiva é o oposto, “um ser tão natural e robusto”.

Apesar de todos os protestos da noiva ele sabe que o matrimônio a desgraçaria. Desprovido de todo o sentido de família a união contribuiria para efetivá-lo.

A hoteleira n’O Castelo não vê com bons olhos a união de Frieda com K.

Ela é a imagem de uma sensatez doentia, que consiste em compor as partículas em que se dividem as circunstâncias com o mundo. Ela considera K. um insensato e uma loucura, sua pretensão de entrar em contacto com Klamm, expoente do único poder que ela reconhece e respeita.

As dificuldades com que tropeça K., não se erguem só em seu caminho ao Castelo, elas aparecem insistentemente no mais humilde acesso a um oposto, por pequeno que seja, na comunidade.

Esta sociedade não é digna do herói. Nela as coisas estão organizadas no sentido de uma submissão hipócrita, de uma “convivência” com a Autoridade que K. não aceita, pois, aspira a se realizar no seu ofício de agrimensor. Mas, o meio sugere-lhe outra solução. Klamm, Frieda incitam-se a manter-se longe de seus desejos íntimos, conformando-se com as “mediações”. K. não aceita o meio termo que as circunstâncias lhe impõem, assim como F. Kafka – é um rebelde, um insubordinável.

Franz Kafka havia explicado ao seu amigo Max Brod como terminava essa novela, truncada, como o fora a vida de seu autor. O agrimensor finalmente consegue obter uma parca satisfação. Mantêm-se firme, não se dobrando. Mas morre de esgotamento. Em redor de seu leito mortuário a comunidade se reúne e nesse instante chega do Castelo uma decisão que declara não ter K. realmente direito à cidadania no lugar, mas, não obstante, tem autorização para viver e trabalhar na localidade.

Há algo mais simbólico que esse final? Não é visível que o herói como o seu Autor “preferiu” a morte?

O que agravara a luta entre o herói e o Castelo, foi o fato deste não lhe dar combate, oferecendo-lhe uma resistência passiva. Desesperante e esgotadora. K. é “vivido” pelo Castelo e as coisas se sucedem com pré-determinação absoluta. A essa vivência deve-se o fato da vida do agrimensor desenvolver-se ligada a um equívoco fatal: o erro consiste em crer que se está lutando para chegar ao Castelo, quando não se faz outra coisa na realidade, do que permanecer nas mediações. E’ o fenômeno da incomunicabilidade, que marca não somente O Castelo mas o sentido profundo dos escritos de Franz Kafka[2].

 

Obras consultadas

Sobre a ‘intelligentsia’ ocidental e se papel social: Karl Mannheim, “Ideologia e Utopia”, págs. 141-151. Ed. Globo, 1950, onde o autor defende a famosa tese da “disvinculação classista” do intelectual e a existência de várias alternativas colocadas ante o mesmo, permitindo uma tomada de posição perante outros grupos sociais. Essa noção do “intelectual” livre está vinculada a tradição da filosofia especulativa do idealismo clássico onde o pensador aparece colocado ante o produtor de um lado, e o consumidor de outro. A critica a esse “fetichismo da consciência intelectual desvinculada dos grupos sociais” aparece com clareza em Irving Louis Horowitz, “Sociologia cientifica y sociologia Del conocimiento”. Lib. Hacchete. Buenos Aires, pág. 60. Ed. 1958-1959.

Sobre o histórico do tema do ‘Absurdo’ em Dostoievsky:

  1. “Crime et chatiment”. Gallimard. Paris, 1950.
  2. “Les Fréres Karamazov”. Ed. Gallimard. Paris, 1952.
  3. “Les Demons”. Gallimard. Paris, 1955.

Em Albert Camus – 1. “La Peste”. Ed. Gallimard. Paris, 1947.

Sobre a vida de F. Kafka – Max Brod “Franz Kafka”. Ed. Gallimard. Paris,1945.

Obras de F. Kafka utilizadas:

  1. “The Diaries of Franz Kafka”. Schocken. New York, 1948.
  2. “El Processo”. Ed. Losada. Buenos Aires, 1939.
  3. “America”. Routledge. Londres, 1938.
  4. “The Castle”. Ed. Konpf. New York, 1947.

[1] – Aliás, já Marcel Proust num artigo publicado na “Nouvelle Revue Française” no ano de 1920 sob o título A propos du style de Flaubert já fazia o que hoje os adeptos do new criticism anglo-saxão tão empafiamente chamam de ‘análise estilística” ou “crítica interna”.

[2] – Trabalho premiado pelo Centro Literário “Barros Casal” (Rio Grande do Sul) 1º prêmio no gênero “Ensaio literário”.

________________
MAURÍCIO TRAGTENBERG (1929-1998) foi professor da PUC/SP, UNICAMP e FGV/SP; texto publicado originalmente em: Separata da Revista ALFA. Nº 1. Departamento de Letras da F.F.C.L. de Marília, 1962.

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