A vez do Capital Social?

©2015 Wagner Meneguzzi
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LUCIANO ANDRÉ LEMOS*

O entendimento de Capital Social pode-se dizer como sendo uma espécie de reação a um dos mais determinantes fundadores mitológicos da civilização moderna, de que a sociedade é um “conjunto de indivíduos independentes, cada um agindo para alcançar objetivo a que chegam independentemente uns dos outros, o funcionamento do sistema social é consistir na combinação destas ações dos indivíduos independentes” (COLEMAM, 1990). Consequentemente, a assimilação do Capital Social concede perceber que os indivíduos não agem autonomamente, que seus quereres não são definidos de maneira solitária e seu comportamento nem sempre é estritamente autocentrado. Na significação, as essências sociais devem ser consideradas como herança, como um participante de capital de que os indivíduos podem assenhorar-se. Conforme Coleman (1990) “O Capital Social, não é uma corporação peculiar, mas uma pluralidade de distintas entidades que possuem traços em comum: equivalem em algum aspecto de uma estrutura social e facilitam algumas ações dos indivíduos que estão no meio desta estrutura”. O Capital Social, neste sentido, é produtivo, já que ele torna possível o alcance de objetivos que não seriam atingidos na sua ausência.

Portanto tratando de uma perspectiva histórica, o conceito de Capital Social é caracterizado como uma abordagem em elaboração na sociologia e, consequentemente, com carência de um corpo teórico definido e coerente. Conquanto seja reconhecido, por fornecer análise que aponta os atores sociais e/ou ações coletivos como dinamizadores de modelos de incrementos mais democráticos e sustentáveis. Observamos nas abordagens principais sobre a definição de Capital Social, a de Bourdieu (1998) na qual se verifica em três dimensões: i) como capital com sentido econômico; ii) como forma cultural no sentido de organização; iii) na relação social com a construção de rede de apoio. Na abstração de Bourdieu, Capital Social se suplementa em um recurso engenhoso nas lutas sociais, nas querelas de classes, demostrando o significado utilitarista das redes sociais. O autor define, Capital Social como:

O conjunto dos recursos reais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento mútuos, ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como o conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros e por eles mesmos), mas também que são unidos por ligações permanentes e úteis. (BOURDIEU, 1998, p. 67).

Nesta essência, as relações de sociabilidade seriam formas de aumentar a capacidade de um sujeito para avançar no sentido de auto interesse. Em contra parte outros autores como Colemam, já citado, e Putnam, definem Capital Social de forma semelhante como uma construção de organização social de confiança, normas e redes de relacionamento, podendo aprimorar a eficiência pela ação coordenada, coletiva e cooperativa. Ambos descrevem como investimentos em relação dos indivíduos através do qual eles adquirem para alcançar os retornos esperados de instrumentos ou ações significantes. Segundo Putnam (1993), “capital social refere-se a aspectos da organização social, tais como redes, normas e confiança que facilita coordenação e cooperação para benefícios mútuos. Capital social aumenta os benefícios de investimento em capital físico e humano” (grifo nosso). Nesse contexto podemos definir que Capital Social é uma interação recíproca da comunidade bem como no impacto de desenvolvimento sócio econômico, sendo que suas dimensões fundamentais abrangem o plano individual, social e institucional. Compreendemos então que em uma comunidade ou uma sociedade torna-se geradora de vários tipos de capitais: o capital humano, o natural, econômico e o Capital Social. Podemos dizer que de todos os capitais existentes em uma comunidade, o Capital Social é o que trabalha com dimensões inteligentes, pois nele há participação à confiança, ajuda mútua, associativismo e o solidarismo, tornando-se excêntrico dos demais capitais. Analisando assim, quanto mais utilizado o Capital Social maior será a sua reserva, sendo intangível, além de ajudar a construir os outros capitais considerando também o Social. De acordo com o cientista político norte-americano Roberto Putnam o ser humano “é um envolvimento individual em atividades coletivas na construção de redes de confiança recíproca e ideação de virtudes cívicas que possibilitam o fortalecimento da democracia”.

Em vista disso o cooperativismo é elementar nessa esfera do Capital Social no sentido de contribuir e edificar essa obra, hoje tão debatido na mídia, e tendo gerado a reparação no interesse da comunidade acadêmica sobre a participação comunitária. Colocando-se como um modo de atração e repulsão para quem quer entender a importância deste tema, a qual é citada por Amartya Sen, Prêmio Nobel da Economia em 1998, no qual muito vem contribuindo na difusão e popularização do termo. Sen (2000) afirma que o desenvolvimento das nações é determinado por um leque de capitais: o natural (recursos naturais, terra, água), o físico (edificações, móveis, veículos), o financeiro (dinheiro, ações, títulos), o humano (educação, saúde) e por último o Capital Social como um ativo intangível.

Até recentemente, só os quatros primeiros eram considerados responsáveis pelo crescimento das pessoas e povos. Mas, após a queda do muro de Berlim e dos experimentos socialistas reais do oriente europeu, juntamente com a crise do capitalismo de 2008, que tornou-se mais severa em 2009, ficou claro que eles não eram suficientes para um incremento equitativo e sustentável. Surgiu, então, a proposição do Capital Social como quinto componente na busca do objetivo comum ou coletivo. Quanto ao coletivo, o mesmo é entendido como a soma de todas as qualidades e competências individuais, independente da posição hierárquica da organização. Este consiste em que as pessoas devam participar de organizações que realizam negócios, com vistas ao aperfeiçoamento social e econômico.

O Capital Social é, portanto, a base da equidade, das pessoas que confiam umas nas outras, unindo se, aprisionando confiança no ofício do Capital, quando apontado como um elemento facilitador da cooperação voluntária decisiva para instauração dos ciclos virtuosos favorecedores do bom desempenho institucional. Sendo essa conexão de valores que engloba a educação, confiança e construção de redes, em que favorece a obtenção, elevações rápidas e satisfatórias na organização e no acréscimo da eficácia da comunidade.

Embora haja dificuldade de mensuração do Capital Social, se percebe que por trás dos sucessos de crescimento e desenvolvimento de localidades ou organizações locais há certa influência desse capital e podemos notar que os fracassos estão associados à sua ausência. Nesse processo de crescimento e desenvolvimento está contida uma condição de formato horizontal de atuação dos membros que compõem esse sistema de cooperação. Amaral Filho (1996) afirma que o formato horizontal está presente naquelas organizações que dão origem às cooperativas, aos clubes, à sociedade de assistência mútua, a associações culturais, aos sindicatos, ou seja, espécie de sociedade compostas por organizações desprovidas de hierarquia e regras rígidas.

Consequentemente, estas organizações desfrutam de certas vantagens em relação às verticais, pelo fato de que as horizontais criam redes de solidariedade entre seus membros e desenvolvem relações generalizadas de reciprocidade, facilitando a cooperação espontânea e criando antídotos contra o clientelismo, o oportunismo, e o desalinho social e humano sem precedentes. Sendo assim há necessidade de buscar a valorização do ser humano e o bem social. Portanto, esta rede nunca é constituída de uma vez por todas e para sempre, mas, sendo constituída por produto de um trabalho permanente de instauração e manutenção criada de relações duráveis e que asseguram, ao longo do tempo, ganhos no âmbito simbólico ou material.

Considerações finais

A pretensão de que as sociedades estão procurando alternativas de gerência dos próprios recursos, com fins de desenvolvimento social sustentável, encontra amparo nos conceitos de capital humano como ativo intangível, por ser considerado o mais importante ativo de uma organização, seja com ou sem fins lucrativos, de universo publico ou privado (ANTUNES, 2004).

O capital humano, quando sensibilizado pelos aspectos de participação perante o meio em que convive, forma o Capital Social que, através de seus entrecruzamentos de conexões de ideias, torna-se uma sociedade resistente e suficiente gerando o bem-estar de seus membros, a equidade social e a igualdade política, sendo assim, uma sociedade capaz de autogovernar.

O Capital Social é um dos mais importantes instrumentos para a formação do autogoverno, da ética da responsabilidade coletiva, da subjetividade, recompondo a cidadania com base no voluntariado e na concertação social. Nesta perspectiva, quanto maior o grau de coesão das redes (sociais e econômicas, formais e informais) entre as formas intermediarias de coordenação, que se manifestam essencialmente no plano territorial, maior estocagem de Capital Social haverá neste território e maiores serão as chances de sua estratégia de reação autônoma redirecionar a seu favor, com as forças que emanam da pressão heterônoma. A elaboração desse método territorial de reação autônoma deve contar com a participação de todas as representações institucionais envolvidas (poder público, empresas, comunidades e sociedade civil) para o desenvolvimento econômico e para um governo efetivo de modo ao encontro do Capital Social.

Referências

ANTONIO DAVID CATTANI, J. L. L. L. I. G. P. H. Dicionário Internacional da Outra Economia. São Paulo : Grafica de Coimbra Ltda, 2009.

ANTUNES, M. T. P. A influência dos investimentos em Capital Intelectual no desempenho das empresas: um estudo baseado no entendimento de gestores de grandes empresas. Universidade de São Paulo. São Paulo. 2004.

BOURDIEU, P. O capital social-notas provisórias. In: CATANI, A. & NOGUEIRA, M. A. (Orgs.) Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 1998.

FILHO, J. A. Desenvolvimento regional In: Desenvolvimento regional. 14. ed. Brasília,: IPEA, 1996.

PUTNAM, R. Comunidade e Democracia. A Experiência da Itália Moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, tradução de Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy , 1993.

S.COLEMAM, J. Foundations of Social Theory – The Belknap Press of Harvard University Press. Londres: Cambridge, 1990.

SEN, A. a. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

* LUCIANO ANDRÉ LEMOS é Especialista em Cooperativismo, UNISINOS Licenciado em Ciências Exatas e Biológicas, UCS, Técnico Agrícola EAFBG. Bento Gonçalves – RS Brasil. http://lattes.cnpq.br/3991657485097892 e-mail: lucianoandrelemos@yahoo.com.br

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