Estrelas e celebridades

Pe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

Estrelas e celebridades – sejam elas do esporte, da moda, do design, do entretenimento, dos mass media, do cinema ou do meio empresarial – em geral semeiam expectativas falsas. Implícita ou explicitamente, em particular com o seu modo de vida, induzem os fãs a pensar que a existência humana é puro gozo e prazer. Certo que a vida comporta momentos de prazer, mas está longe de ser um prazer.

O equívoco está, entre outras coisas, no fato de que os meios de comunicação revelam dos “famosos” especialmente seu lado prazeroso e hedonista: mansões, jatinhos, carros, roupas de grife, relógios, calçados, festas, viagens, glamour, relações – tudo se reveste de alto luxo, elegância e não pouca ostentação. As marcas mais caras, conhecidas e extravagantes, através do marketing, da propaganda e da publicidade, disputam o uso (e abuso) da imagem de tais celebridades.

Querendo ou não, passa-se a ideia de um verdadeiro “céu na terra”. Os “famosos”, profusamente iuminados e luxuriantes, parecem crianças grandes com seus grandes e custosos brinquedos. Dinheiro e popularidade tudo conseguem, e tudo regando a champanhe da mais alta qualidade. Os fãs, porém, no cotidiano de suas existências, tropeçam a cada esquina com problemas, adversidades e obstáculos intransponíveis. A cada instante, cresce a distância entre a “estrela” que eles cultuam e o dia-a-dia que devem enfrentar: difícil, rude, às vezes brutal ou trágico.

O contraste é patente, mas a consciência fanatizada recusa-se a aceitá-lo. A miopia e a cegueira, neste caso, não se curam com doses de realismo. Os embates de um caminho cheio de pedras e espinhos não são suficientes para apagar o brilho da “estrela”. E pior que isso, não são suficientes para destituí-la do altar em que os fãs a colocaram e a idolatram. Ela, a estrela, permanece viva e brilhante, como um ideal a ser alcançado. Ou, de forma mais prosaica, como uma espécie de compensação para a pobreza e mediocridade da própria existência.

Nesta relação entre os fãs e sua estrela/celebridade reside uma das motivações para a diferença entre expectativa e esperança. A expectativa, guiada pelas últimas novidades do mercado e pela busca imperativa do prazer imediato, nutre-se do “alimento” fornecido pela sociedade do hiperconsumo. A esperança, mais sábia e paciente, é capaz de recusar um prazer efêmero, instantâneo e descartável, em vista de um bem-estar sólido e duradouro no futuro. Jogando com as palavras e citando a apóstolo Paulo, poder-se-ia dizer que ela aprendeu a “esperar contra toda esperança”.

O resultado torna-se bem visível. A expectativa, orientada pelo fascínio e sedução dos objetos expostos em lojas e vitrinas, tenta construir uma “casa na areia”. Em lugar de preparar-se para o amanhã, joga todas as suas fichas no aqui e agora. Leva ao exagero o carpe diem, com o pretexto de que o importante é viver o hoje com a maior alegria, intensidade e prazer. A esperança assenta sua “casa na rocha”. Solidamente lança os alicerces no futuro. Sabendo-o por natureza incerto, procura precaver-se contra as inesperadas tempestades que inevitavelmente se batem contra a casa.

Não que seja necessariamente um risco viver com apetite o presente, costurando relações de amizade e companheirismo. O perigo está em ignorar por completo o que vem pela frente. De fato, é mais fácil abandonar-se à diversão do que construir laboriosamente um “programa de vida”. Justamente nesta construção lenta e planejada afirma-se a esperança. A esperança, além disso, conta não somente com as próprias forças, pois conhece a fragilidade da condição humana. Esperar é precisamente dar um salto no escuro com a fé de que Alguém nos sustenta em seus braços. Nesta perspectiva, a aposta no futuro, por mais paradoxal que pareça, revela-se mais sólida, serena e confiável do que todo o fogo de artifício que não raro reveste um presente rodeado de novidades.

Roma, 16 de janeiro de 2017

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2 comentários sobre “Estrelas e celebridades

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