Caipira cosmopolita

REGINA M.A. MACHADO*

clipboard02Pois é, trata-se de uma antinomia, uma contradição no emprego conjunto dos dois termos.

Mas é isso mesmo. Até diria que isso é eu. Cada vez mais se me torna evidente a caipirice inarredável de meu ser no mundo, apesar de todas as andanças ciganas que a vida me impôs. Pôxa, soa bem, apesar de meio enfático demais. Mas é a pura verdade. Se não achasse cafona usar muita palavra difícil de uma vez, assim como quem pusesse todas as jóias para brilhar fosse lá como fosse, eu diria que essa antinomia conduz a uma aporia. Chique, né?

Mas voltando à vaca fria, o título acima não passa de uma constatação, pois ao mesmo tempo, de tanto ser estrangeira, a gente acaba cosmopolita, palavra que nas definições apresentadas pelo Houaiss remete a cidade grande e cheia justamente de estrangeiros, recebendo influências de toda parte (para um vocabulário mais escorreito, cf. o original).

Uma linda evocação desse sentimento contraditório do estranho estrangeiro é o poema “Pátria minha”, de Vinícius de Morais, provavelmente escrito num dia de desânimo “Nesta sala estrangeira com lareira/E sem pé-direito,” sala que imagino imponente como em todas aquelas suntuosos embaixadas europeias (em geral vistas em filme, claro).

Em geral, adiro (ô presente mais desajeitado o desse verbo!) a todos os termos dessa elegia, salvo quando ele quer mudar as cores da bandeira, que ele acha “tão feias”. Não sei se haverá outras mais bonitas, mas a nossa me agrada muito. Aqui, verde/amarelo são cores do outono, minha estação preferida, por causa do dourado das folhas contra o céu azul, misturado a umas poucas folhas ainda verdes e iluminado pela luz prateada e suave dos dias que encurtam.

Mas não sou poeta nem diplomata, minha sala não tem lareira, e meu estranhamento começou assim que deixei minha terrinha em que os horizontes se desdobravam segundo o caminho percorrido. Um dia, minha ignorância curiosa e aberta teve de revisar seus recursos, face às exigências dos novos ambientes que, por bem ou por mal, tive de enfrentar pela vida afora.

Acho que todo fracasso leva primeiro a uma culpabilidade individual. Se a figura é dada à introspecção, talvez uma meditação inspirada a leve a se situar no vasto mundo e entender seus próprios inevitáveis limites. E os dos outros. Mas não era o meu forte. Meu forte era um certo espanto, uma eterna surpresa ante cada novo ângulo que as pessoas ou os acontecimentos punham no meu caminho.

Pra ilustrar, aí vai um causo, que gostaria de contar em volta da fogueira em noite de lua, mas vai assim mesmo, daqui deste inverno gelado da Europa para vocês que estão derretendo no verão tropical (saudade de passear em noite de lua sentindo calor, mas também não precisava exagerar…)

Foi um dia, há alguns anos, numa crêperie na Ile de la Cité, em Paris, que no final da refeição, não me lembro a que propósito, uma amiga chique comentou que, se havia uma coisa que a deixava com raiva, era gente que cruzava os talheres ao acabar de comer.

Assertiva indiscutível, largada sem mais aquela na mesa simples e bem posta da crêperie. Pesada e inamovível, pelo menos para a minha perplexidade. Essa nova lei universal, vista como natural e evidente pela amiga, acho que tinha me contaminado, porque não consegui responder, sequer resolver aquela história para mim mesma. Foi uma entre muitas ocasiões em que a certeza esmagadora do enunciante me fechava a boca.

A imagem que me veio de imediato foi a das regras de polidez aprendidas na infância interiorana, que determinavam exatamente essa posição do garfo e faca, que eu caprichava em dispor num perfeito x, fechando assim num símbolo bem mais expressivo a refeição. Afinal, “fazer cruz em cima” é sempre um ato de fechamento, de remate, enquanto que os dois talheres paralelos num sinal de igualdade só querem dizer algo por pura convenção arbitrária. Daí sua força, talvez…

Um dia, encontrei uma elucidação perfeita para aquela cena, num romance de Françoise Chandernagor, “La sans pareille”, que se poderia traduzir como “A inigualável”, ou “A sem igual” (traduzir títulos é um exercício perigoso, assim que deixo a escolha à perspicacia do leitor). Nesse romance, a heroína é educada no meio operário, pelo avô, num subúrbio devastado pela especulação imobiliária e pela anulação progressiva de seu meio cultural. A mãe, paralisada por uma misteriosa doença, tinha sido abandonada pelo pai, ex-esquerdista engajado e mais tarde diplomata refinado. Já adulta, é chamada pelo pai, que um dia resolve assumir a educação da filha que tinha herdado dele a silhueta aristocrática e que ia bem com as figuras renascentistas que ornavam as escadarias da embaixada em Roma. A outra filha, baixinha e redonda demais, é simplesmente mandada de volta ao subúrbio. Além de retrato impiedoso do âmbito político francês do século XX, o romance faz também um sutil painel das aquisições culturais e estéticas que o tempo traz à moça e e ao novo universo que ela passa a frequentar, juntamente com algumas devassidões de bom tom (ignoro se a última reforma ortográfica manda colar, pôr hifen, separar os dois termos… Foi tanta futilidade que me perdi nos detalhes).

Continuando. Numa primeira refeição na residência do embaixador, em que a presença constante de criados empertigados a intimidavam, ela capricha em limpar o prato com o pão, como o avô tinha ensinado às netas. Grande escândalo do pai. Desconcertada, ela se defende dizendo que deixar comida no prato é desperdício. E o pai, já irritado: “E daí?!?” Nenhuma resposta era possível. Os valores eram outros, o dourado das librés e a altura do pé direito exigiam outra atitude. Questão de valores? De convenção tácita? De decoração?

O romance não faz julgamento, posto que é um bom romance. Limita-se a contar e a nos apresentar um retrato possível de nossa propria humanidade. Kundera, em L’art du roman, num parágrafo que traduzo aqui sem compromisso, reflete sobre a abordagem ficcional  :

« O romance não examina a realidade, mas a existência. E a existência não é o acontecido, a existência é o campo das possibilidades humanas, tudo o que o homem pode se tornar, tudo de que ele é capaz. Os romancistas traçam o mapa da existência ao revelar tal ou qual possibilidade humana. Mas, ainda uma vez – existir quer dizer: “estar no mundo”.

Termino com uma notícia que me deixou feliz: a China, que era o maior importador de presas de elefante do planeta, proibiu o comércio do marfim. Possuir objetos de marfim, segundo a reportagem, era tradicionalmente visto como sinal de riqueza e prosperidade. Agora que o país está enriquecendo de verdade, pode dispensar tais sinais. Um pouco menos de elefantes massacrados e um ganho de dignidade para o país Sera que riqueza traz bom gosto? Nada é garantido, revela o vídeo da Trump Tower.

machado* REGINA M.A. MACHADO é Pesquisadora associada ao CREPAL. Tese sobre a ficção das fazendas de café escravagistas no vale do Paraíba disponível em https://tel.archives-ouvertes.fr/tel-01086733

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