Luciana de Abreu: jovem educadora do século XIX

LUCIANO ANDRÉ LEMOS*

NELSON PILETTI**

Luciana de Abreu
11 de julho de 1847 – 13 de junho de 1880

A história de uma das primeiras mulheres a discursar publicamente sobre assuntos sociais no Brasil começou na Roda dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Ao amanhecer do gelado dia 11 de julho de 1847, uma menina foi abandonada, na roda de madeira, feita para receber as crianças que as famílias não queriam. Junto com menina foi deixado um bilhete escrito de forma rudimentar em um pedaço papel contendo o seguinte pedido: “Minha comadre, quero que minha afilhada chame-se Lucianna Maria da Silva”. (grifo nosso).

Os filhos de senhores brancos com escravas, na época Imperial, que nasciam bastardos pelos amores secretos, eram deixadas na roda, espécie de baú giratório. Nunca se soube quem eram os pais da pequena “enjeitada”, também chamada de “exposta Luciana”. Mas a cor da sua pele morena dava uma pista sobre a origem dessa criança.

A menina foi adota pelo senhor Gaspar Pereira Viana e sua esposa. Ele exercia o oficio de guarda livros na Casa Comercial Porto & Irmãos. Os pais adotivos resolveram chamá-la de Luciana, batizando-a na Capela do Senhor dos Passos. Assim começou a trajetória de Luciana de Abreu, a “enjeitada” que se tornou professora e pioneira nas reivindicações pela igualdade de direitos entre homens e mulheres na Província de Rio Grande do Sul. Desde pequena, a menina estudava mais que todas as outras crianças e falava em se tornar escritora. Tornou-se ajudante da professora aos 12 anos, as outras meninas logo a apelidaram de “a romancista” por esboçar escritos de romance.

Objetivando ampliar o número de professores, o governo da província, no dia 5 de abril de 1869, criou a Escola Normal Porto Alegre, localizada onde atualmente se localiza o Instituto de Educação General Flores da Cunha. Luciana estava entre as primeiras 12 alunas. Casada com João José de Abreu em 28 de setembro de 1867, freqüentou as aulas mesmo estando grávida da primeira filha.

Formou-se em 1872, sendo nomeada em 2 de maio de 1873 como professora provincial, contando sua aula com 25 alunas. Logo criou reputação de professora talentosa e dedicada e, aos 27 anos, assumiu a aula do 1º Distrito.

Já com o segundo filho a caminho e os compromissos do lar, criou sua escola particular e passou a ministrar aulas de educação às mães de família. Segundo o Relatório da Inspetoria Geral de Ensino de dezembro de 1878, sua aula era a de maior freqüência entre as 26 existentes na Província:153 alunos, 22 mulheres e 131 homens.

Além do magistério, Luciana também começou a participar da vida literária da província: em 20 de dezembro de 1873, na tribuna do Partenon Literário, sociedade fundada em 1868, falou sobre a necessidade da educação e emancipação da mulher. O Brasil ainda estava a 16 anos de se tornar uma República, a 15 anos de ser o último país do continente americano a abolir a escravidão e Luciana de Abreu já defendia o direito do voto da mulher, “em uma época em que a mulher só poderia ir da igreja pra casa e da casa para a igreja”  (SALDANHA, 2012).

Enfatizou a necessidade de uma educação para a mulher:

O que convém pedir, o que venho aqui em vosso nome altamente reclamar, é, de parceria com a educação, a instrução superior comum a ambos os sexos: é a liberdade de esclarecer-nos, de exercer as profissões a que as nossas aptidões nos levarem…

Dêem-nos a educação e a instrução: nós faremos o mais. A nossa posição legitima na sublime missão de que estamos incumbidas nós tornaremos pelo nosso trabalho, e a humanidade há de tudo ganhar com o nosso triunfo.

Em outra conferencia, em agosto de 1877, a professora manifesta sua indignação com o encarceramento da mulher no lar:

Nós temos sido caluniadas, dizendo-se que somos incapazes dos grandes cometimentos, que somos de inteligência fraca, de perspicácia mesquinha; e que não devemos passar de seres caseiros, de meros instrumentos do prazer e das conveniências do homem: quando o nosso ensino tem preparado os mais perfeitos heróis da humanidade; e quando, à testa das nações, quer na cadeira, quer na oficina modesta do operário, temos dado exemplos de assombrar os povos e os séculos!

Nós temos sido condenadas à ignorância, privadas dos direitos de cidadãos, e reduzidas a escravas dos caprichos políticos de legisladores e egoístas, quando benéficas espalham o bem-estar da vida íntima social preparando o coração de nossos filhos para virtude, e inspirando-lhes desde os primeiros dias o amor ardente pela liberdade e pelo progresso.

Finalmente, Luciana cita o exemplo da Europa, em especial da Inglaterra, para defender o   direito da mulher ao voto:

Haja vista, senhoras, a nação inglesa, o progresso a que tem atingido; e porque não veremos nesse fato a nossa salutar influência?

Nem me objetem, senhoras, os vergonhosos excessos que dizem cometer as ínfimas mulheres inglesas no dia de exercer a mais nobre prerrogativa do poder popular, isto é, o voto.

Apesar do êxito da sua oratória, que marcou época, Luciana sempre viveu como uma mulher simples, modesta e de uma humildade ímpar, cativando as pessoas ao seu redor.

Carregada de projetos e anseios, Luciana de Abreu faleceu aos 33 anos, em 13 de junho de 1880, de tuberculose, doença que assombrava o Brasil. Apesar da sua curta existência, foi um dos expoentes femininos do tempo e com certeza uma das tantas grandes brasileiras que, ao longo do século XIX, lutaram em defesa dos direitos da mulher, sobretudo das meninas que, praticamente, não tinham acesso à escola, como Nísia Floresta Brasileira Augusta, oriunda do Rio Grande do Norte.

 

Referências

ALEGRE, A. P. História Popular de Porto Alegre. Organizada por Deusino Varela. ed. Porto Alegre : [s.n.], 1940.

CEDOP. A casa da Roda – O abandono da Criança na Santa Casa de Porto Alegre. Porto Alegre : [s.n.].

FLORES, M. A casa dos expostos. Revista Estudos Ibero-americano, Porto Alegre, 1985.

FLORESTA, N. Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens. 4º. ed. São Paulo : Cortez, 1989.

LEC. Laboratório de Estudos Cognetivos-UFRGS, 2007. Disponivel em: <http://www.lec.ufrgs.br/index.php/Luciana_de_Abreu&gt;. Acesso em: 02 Feveiro 2017.

SALDANHA, B. Luciana de Abreu. Porto Alegre: edijuc, 2012.

SPALDING, W. Construtores do Rio Grande. Porto Alegre : Livraria Sulina Editora , 1969.

 

©2015 Wagner Meneguzzi

* LUCIANO ANDRÉ LEMOS é Especialista em Cooperativismo, UNISINOS; Licenciado em Ciências Exatas e Biológicas, UCS, Técnico Agrícola EAFBG. Bento Gonçalves – RS Brasil. http://lattes.cnpq.br/3991657485097892 E-mail: lucianoandrelemos@yahoo.com.br

** NELSON PILETTI é Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo USP (1983), Professor Associado da Universidade de São Paulo (USP) e autor de várias obras. Florianópolis – SC Brasil.   http://lattes.cnpq.br/8564536479438529 E-mail: nelsonpiletti@ig.com.br

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