E o dia da mulher velha?

ANA CLAUDIA VARGAS*

E lá vem mais um dia das mulheres, lá vem mais uma data criada para fomentar o consumismo, lá vem aquele tipo de publicidade tão irritantemente clichê que a gente olha e nossos olhos, cansados que estão, mal se fixam.

(E ainda bem que é assim, isto talvez seja sinal de que estamos ficando mais sábios ou ao menos mais espertos).

E, então, novamente seremos inundados por comerciais nos quais mocinhas esbeltas e lindas e JOVENS, é claro, passeiam despreocupadas em ruas arborizadas, floridas ou em lugares modernos e estilosos.

(Bom, mas quem sabe neste ano alguém se lembre de fazer comerciais com mulheres gordas e negras ou lésbicas, com todas as minorias femininas, enfim.  Tomara que isso aconteça).

Pois é, mas quando se fala de minorias as mulheres mais velhas, acima dos 60 ou 70 ou 80 e mais, são e sempre foram inexistentes: elas são as minorias entre as minorias. Estas mulheres velhas com seus cabelos grisalhos e seus músculos flácidos, seu cansaço constante, suas queixas nunca ouvidas ou sempre minimizadas… Estas mulheres velhas (que eu saiba) nunca foram ou serão lembradas no ‘dia das mulheres’.

As mulheres velhas existem para a publicidade somente quando conseguem ser glamourosas e ousadas, quando até se esquecem que são velhas e fingem ser mais jovens com seus cabelos sempre pintados e suas expressões faciais paralisadas pela aplicação de botox… Ah, e aquelas que não os pintam precisam exibir um ar de modernidade senão… Nada contra essas mulheres, por favor! Mas é que hoje eu pensei nas mulheres velhas que se assumem velhas, que estão verdadeiramente cansadas porque ofereceram seus ‘melhores’ anos para o marido os filhos ou para seus próprios pais (as chamadas pejorativamente ‘solteironas’), e agora, sozinhas ou acompanhadas, estas mulheres verão que suas existências continuam sendo ignoradas no ‘dia das mulheres’.

É claro que a publicidade exclui muitos grupos sociais, é claro que existem pessoas que jamais se viram ou se verão representadas pela mídia de qualquer natureza e as mulheres velhas que são viúvas ou divorciadas, casadas ou solteiras; pobres ou ricas (embora que estas têm com certeza, mais chances de serem lembradas em qualquer ocasião), e aquelas que já se aposentaram em quaisquer profissões ou que foram sempre donas de casa, não importa… Estas jamais foram ou são lembradas no tal ‘dia da mulher’.

Diante disso: será que seria pedir muito para aqueles que lidam com publicidade que colocassem em seus comerciais e propagandas, a face de uma mulher que aparente ter mais de 50 anos e que não (veja bem: não) esteja tentando parecer ser mais jovem do que é de fato?

Hoje fala-se muito (e felizmente) da diversidade racial e sexual, da necessidade de se incluir todas as pessoas de todas as religiões, de todos os países e cantos do planeta, sejam elas gordas ou magras e feias ou bonitas e isso é ótimo, necessário e já não era sem tempo.

Daí fiquei pensando em quantas pessoas velhas sofrem preconceito racial e/ou sexual e etc. e de quebra vão sofrer também por serem velhas, ou seja, estão na fase por si só invisível de suas existências. Talvez elas tenham sido valorizadas quando crianças, adolescentes, jovens ou enquanto estiveram na ativa; mas elas também podem ter sido desprezadas a vida inteira e agora, velhas são (serão) ainda mais.

Um dia da mulher no qual a velhice dos muitos tipos de mulheres não seja ao menos lembrada com certo afeto e algum respeito não será em sua plenitude, verdadeiramente, dia da mulher. Enquanto no ‘dia da mulher’ formos obrigadas a ver sempre as mesmas frases vazias e as imagens retocadas de mulheres abaixo dos 35 anos, não fará sentido algum essa comemoração.

As mulheres que envelheceram tão depressa e no meio de tantos afazeres que nem tiveram tempo de se olhar no espelho enquanto o tempo rapidamente, as envelhecia. As mulheres velhas que já foram admiradas não por suas exuberantes belezas ou raras inteligências e sim, porque nos momentos mais difíceis em família ou no trabalho, souberam agir da melhor maneira possível. As mulheres velhas que hoje veem os filhos crescidos, ajudam a cuidar dos netos e netas com dedicação e não reclamam de cansaço (embora devessem reclamar). A todas as mulheres mais velhas que são ignoradas simplesmente porque ‘ousaram’ ficar velhas. As mulheres velhas que não deixam que a velhice de seus corpos seja empecilho para curtirem a vida e continuam indo à praia de biquíni, e continuam fazendo tudo que gostavam de fazer quando eram jovens e conseguem ignorar com louvor, os muitos olhares de desaprovação. Também as mulheres mais velhas que preferem ficar em casa vendo TV, fazendo artesanato e cozinhando (ou não) e nunca usaram um biquíni porque preferem maiô ou sequer gostam de tomar sol. As mulheres mais velhas de qualquer classe social, qualquer etnia, qualquer religião (também as ateias), aquelas que estudaram muito e também aquelas que preferiram fazer outras coisas na vida… O mundo está transbordante de mulheres velhas que hoje olham para suas trajetórias e sabem o quanto lhes custou cada passo dado e isso, por si só, já deveria ser motivo de celebração de suas existências no dia da mulher. De nossa parte, fica registrada aqui, nossa homenagem a essas tantas e múltiplas mulheres velhas e saibam: a velhice de vocês deve ser motivo de admiração, por isso, não se deixem, nunca, desvalorizar por quem quer que seja! No mais: feliz dia das mulheres para todas nós!

 

* ANA CLAUDIA VARGAS é Jornalista, editora do Portal Plena, jornal digital que discute a velhice de forma aberta, ampla e inclusiva.

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Um comentário sobre “E o dia da mulher velha?

  1. Amém! Mas essa cronica me lembrou também a abertura dos Jogos Olimpicos na Africa do Sul, ha alguns anos atras.
    De repente, um contraste gritante com os deslumbrantes espetaculos habituais e seus milionarios efeitos especiais. E, o que me emocionou, foram as mulheres, umas como que pastoras de escolas de samba, silhuetas pesadamente ritmadas, movimentos ancestrais, danças que pediam quase que uma explicaçao, ou melhor, uma aproximaçao curiosa e empatica…
    Enfim, eram imagens ricas de sugestoes e emoçoes, como todas essas coisas de mulheres velhas e carregadas de um passado cheio de afetos, bons e/ou maus.
    Boa crônica, boa lembrança. Ha que diversificar a paisagem midiatica, tao chatinha de banalidades em papel brilhante….

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