Clube Hebraica Rio: eu não sou seu judeu

MARCELO GRUMAN*

O clube judaico Hebraica, no Rio de Janeiro, faz parte de minha memória afetiva. Lá, passei muitíssimos momentos de prazer durante a infância e adolescência. Esquentei o banco de reservas (era perna de pau, confesso) das categorias “fraldinha” e “pré-mirim” que participavam do campeonato metropolitano de futebol de salão. Frequentei a colônia de férias durante o verão. Adorava a piscina, sempre lotada nos finais de semana. Ainda sinto o gosto do hambúrguer e da coxinha de galinha do bar do clube, no qual tinha conta a ser paga no final do mês. Almoçava, de vez em quando, aos domingos, com minha família, no excelente Buffet de comida judaica, no salão do segundo andar do prédio principal. Lembro-me, também, das discotecas. Jogava pingue-pongue nas mesas armadas nos pilotis e acabava-me nos fliperamas, especialmente o de luta livre. Os anos 80 e 90 foram os anos dourados do clube, “bombava”.

Aos poucos, ele foi perdendo seu protagonismo por conta da migração de boa parte dos judeus, até então moradores da zona sul da cidade, para a Barra da Tijuca, na zona oeste, e da diversificação de atividades recreativas. O clube judaico deixou de ser um importante espaço de sociabilidade para a comunidade judaica, pelo menos no Rio de Janeiro. A decadência é esteticamente incontestável. As instalações parecem malcuidadas, sujas, encardidas, paredes descascadas. O clube não é autossustentável. A falta de sócios obriga os dirigentes a alugar o espaço para eventos nada relacionados ao judaísmo, como festival de comida de food trucks. É um cenário melancólico.

A possibilidade de convite a Jair Bolsonaro para uma palestra, aventada pelo atual presidente da instituição, só pode ser entendida como uma tentativa mal ajambrada de recolocar o clube no mapa afetivo dos judeus cariocas, uma marketing meio torto, do tipo “falem mal, mas falem de mim”. Quem sabe os dirigentes do clube não pensaram algo do tipo “será que, mostrando aos nossos patrícios que o clube está às moscas, que é irrelevante nos dias que correm para o exercício da judeidade e a perigo de ser tomado por fundamentalistas de extrema-direita, eles se mobilizam e voltam a frequentá-lo?”. Só pode ser isso. Não consigo imaginar outro motivo, afinal, não faz sentido abrir espaço, em nome da liberdade de expressão, a alguém que defende a restrição a esta mesma liberdade, que despreza o “outro”.

Segundo reportagem publicada na Folha de S. Paulo, o dirigente de plantão considera Bolsonaro “hoje um nome muito forte e muito querido. Eu mesmo tenho simpatia, sim”. Resta saber pelo quê o dirigente tem tamanha simpatia: sua explícita posição homofóbica, seu machismo, sua defesa da ditadura militar, seus elogios a um torturador confesso e à tortura como princípio ideológico, sua afirmação de que o Brasil é um Estado cristão. Ah, talvez seu antipetismo. Bom, até aí “morreu o Neves” porque eu não sou petista, mas tenho consciência de que, nem sempre, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Pior ainda se comportou a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro – FIERJ, cuja nota de esclarecimento “vaselina”, em que lava as mãos no caso do convite, revela o nível de mediocridade e irresponsabilidade dos supostos representantes dos judeus cariocas. A nota, aparentemente escrita pela assessoria de comunicação, porque de uma profundidade constrangedora, prega a autonomia das instituições e reafirma a necessidade de harmonia interna. No fundo, ao não se posicionar, transige com a misoginia, a homofobia e o elogio à tortura e aos torturadores que Bolsonaro incorpora. Ademais, que diabos de harmonia é essa? A quem interessa? Ou será o velho complexo de gueto falando, afinal, Bolsonaro é “amigo dos judeus” e defende Israel, embora sejamos cidadãos brasileiros? Ou sua luta contra os “comunistas” absolve suas posições tacanhas e homicidas? Transigir com este tipo de personagem é acumpliciar-se ideologicamente. Apertar o gatilho, neste caso, é mero detalhe.

O mais perigoso inimigo da democracia é o lobo em pele de cordeiro, que discursa enfadonhamente em nome da liberdade de expressão, que faz questão de dizer que não vota em fascistas, racistas, homofóbicos e misóginos embora, em nome do Estado democrático de direito, acha que devemos, em nosso próprio domínio, obrigatoriamente, abrir espaço e dar voz a quem discrimina e vomita bílis contra este mesmo Estado democrático de direito, cujo ideal de cidadania não se resume ao ato de digitar teclas numa urna eletrônica. O democrata ingênuo (ou seria falso?) gosta de relativizar, suavizar o discurso do fascista explícito, porque, no fundo, quem sabe, concorda com suas posições. É, talvez, enrustido, envergonhado, não consegue sair do armário. Liberdade de expressão, sim; conivência e estímulo ao ódio, não.

Relevar a intolerância de Bolsonaro em nome da “liberdade de expressão”, em nome do “Estado democrático de direito” é de um cinismo deslavado. É um tabefe na cara de quem sofreu e sofre na pele as consequências do preconceito e do ódio ao diferente. E pensar que nós, judeus, somos (ainda?) conhecidos como o “povo do livro”. A se confirmar o convite, estaremos diante, sem dúvida, um caso clássico de Síndrome de Estocolmo.

Por isso, digo: Hebraica, eu não sou seu judeu.

* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Atualmente é administrador cultural da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Blog: https://desconstruindomarcelo.blogspot.com.br/

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