Política como expressão viva da caridade

Pe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

Citando e parafraseando o seu antecessor Bento XVI, que em 2005 publicou a Carta Encíclica Deus caritas est, o Papa Francisco se referiu à política como “a melhor forma de fazer caridade”. O pontífice sublinhou essa frase num encontro em que se referia à ausência dos cristãos na política. Ocorre, porém, que a confiança da população com respeito aos políticos brasileiros parece sofrer de uma erosão prolongada (ou de uma diarreia incurável!) e sem perspectiva de recuperação, pelo menos no curto e médio prazo. Erosão que é, ao mesmo tempo, causa e efeito dessa generalizada falta de participação. Indício disso constata-se na falta de lideranças relativamente confiáveis no cenário nacional.

Fatores imediatos e remotos contribuem para tal erosão. De imediato, através da mídia, continuam a desfilar diante de nossos olhos os escândalos de corrupção revelados pela operação Lava Jato, entre outras, envolvendo não poucos de nossos representantes políticos. Depois, prosseguem as tentativas de privatização e terceirização por parte do atual governo, sem falar da PEC 241, que limita os gastos públicos, o que aumenta ainda mais o desgaste dos serviços à polpulação, já tão precarizados ou simplesmente ausentes. E temos, ainda, a fatídica reforma da previdência social, em que os pobres devem pagar a conta contraída sobretudo pelos que habitam o pico da pirâmide, como lembra a recente nota da CNBB.

De ponto de vista mais remoto, certos entraves da política brasileira mergulham suas raízes em mecanismos histórico-estruturais retrógados e perversos, denunciados por Raymundo Faoro, Celso Furtado, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freire, só para citar alguns de nossos clássicos. Vale ilustrar com o caso do “patrimonialismo”, conceito que veio da Península Ibérica, mas encontrou terreno fértil na Terra de Santa Cruz – Brasil. O termo designa a apropriação privada da res publica por parte da elite do poder, que passa a administrar o patrimônio nacional como se fosse a própria casa, fazenda ou empresa. A confusão é tamanha que, a um certo ponto, nem os “donos do poder” (Raymundo Faoro) nem os cidadãos são capazes de distinguir o que é público do que é privado, situação que dá margem de manobra para o uso incorreto dos cofres públicos em proveito dos governos de plantão. Daí os títulos, privilégios, tráfico de influência, apadrinhamento, etc…

Tudo isso provoca apatia, inércia e desinteresse. O cidadão comum se cansa dos discursos vazios e das promessas não cumpridas. Planalto Central e planície, para usar uma metáfora conhecida, giram em órbitas paralelas e distintas. As exigências do cotidiano popular não encontram repercussão nos gabinetes, corredores e sessões dos três poderes. E estes, por sua vez, relegam a um segundo plano as políticas públicas necessárias e urgentes. A distância entre uns e outros aumenta na proporção direta do descrédito quanto à prática política. A nave espacial de Brasília segue surda e indiferente aos clamores que se erguem do chão. Os lucros exorbitantes e a especulação financeira falam mais alto do que o alimento, a saúde, a educação, o transporte coletivo, a segurança, a criação de postos de trabalho…

Que fazer? O Ensino Social da Igreja (ESI) fornece uma série de orientações com vistas à justiça social e ao bem-estar público. Uma das principais consiste na primazia do trabalho sobre a acumulação de capital, seguida de uma remuneração salarial que ofereça os meios para a conquista e a defesa da dignidade humana, centralidade de todo ensinamento do Magistério. Além disso, continua o ESI, não bastam o progresso técnico e o crescimento econômico, é preciso buscar as os bases para o desenvolvimento integral de todo ser humano, fundamento da justiça e da paz, conforme a Carta Encíclica Populorum Progressio, da qual celebramos o 50º aniversário (1967-2017). A verdadeira política, com expressão da caridade, consiste justamente em pavimentar esse caminho.

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