Esaú e Jacó: Machado de Assis retrata esteticamente a transição da Monarquia para a República

CARLOS RUSSO JR.*

Esaú e Jacó, escrito em 1904, é uma das últimas e mais importantes obras de Machado de Assis. Ele nunca deixou de tratar as questões de cunho político-social de forma profunda e ironicamente mordaz, é nessa narrativa, entretanto, que o Bruxo do Cosme Velho vai fundo na crítica à conformação política do país, denunciando o jogo de interesses que antecederam ao final do Império e à proclamação da República no Brasil.

O que é extremamente significativo no romance é a maneira como, explorando divergências políticas das elites que são apenas aparentes, transcende a crítica simplesmente política.  Consegue assim, chegar ao trato estético da questão dos dualismos falsamente contraditórios, mas que não passam de aparências.

A narrativa se desenrola desde o ponto de vista do Conselheiro Aires, um diplomata aposentado. O personagem pode ser interpretado como o retrato da elite brasileira: uma elite inteligente, calculista que, acima de tudo, evita o conflito enquanto classe dominante. Aires adota uma postura de não confrontar-se em momento algum. Portanto, ele é volúvel e apegado nas aparências de um intelectualismo liberal, mas parceiro fiel do atraso, no seio de uma sociedade escravocrata e elitista.

“Aires tinha o coração inclinado a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio a controvérsia”.

A proclamação da República, propriamente dita, é explicitada claramente no episódio da tabuleta de uma confeitaria. O português Custódio, proprietário doceiro, é vizinho de Aires. No diálogo a respeito da tabuleta, entre ironias e metáforas, a opinião do genial autor sobre a quartelada de 15 de Novembro é claramente expressa.

Custódio, depois de muita relutância, mandara repintar a tabuleta que levava o nome de sua loja: “Confeitaria do Império”. O pintor o avisa que “a tábua está velha e precisa outra, pois está rachada e comida de bichos”.  A alusão à Monarquia é óbvia: um regime decadente, comprometido e sem sustentação, que não suporta mais nem uma reforma e tem que mudar. O proprietário encomenda uma nova tabuleta justamente no dia do golpe de 15 de Novembro. Custódio manda um bilhete para o pintor com o seguinte recado: “Pare a pintura no d.” Não sabia se era melhor concluir a mesma com a palavra “do Império” ou “da República”.

A indecisão de Custódio quanto ao nome é sintomática de um país em que algo sempre muda para que se mantenha, na essência, tudo como está. O Conselheiro o “aconselha” que escreva um nome neutro. Machado de Assis, assim, compara a proclamação da República a uma simples troca de tabuletas, uma mudança só de nomes. República e Império se equivalem como rótulos de fachada.

Raciocina Aires sobre o decreto de exceção assinado por Deodoro: “Bem pensado, a morte não é outra coisa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpétua, ao passo que o decreto daquele dia (15 de Novembro) durou apenas 72 horas. Ao cabo de 72 horas todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver”.

O simbolismo dos gêmeos filhos de um banqueiro como uma dama da alta sociedade.

A referência bíblica que empresta seu nome à obra, “Esaú e Jacó”, nos traz gêmeos que brigam desde sua permanência no útero e que lutarão toda uma vida por reconhecimento materno-paterno e pela herança, jamais convivendo em harmonia.

“O que o berço da, só a cova tira, diz um velho adágio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever: “Dico, Che quando l’anima mal nata…””

No romance, Pedro, um dos gêmeos, vem de São Pedro, que na tradição bíblica se vincula ao conservadorismo; faz Medicina, carreira que figura como conservadora na literatura da época e é um defensor da Monarquia. Paulo, o outro, remonta a São Paulo, faz Direito, carreira tida como liberal, e defende a mudança do regime para a República. Mas com a proclamação da República, pressupõe-se que Pedro, sempre a favor da monarquia, se tornaria um crítico do novo regime, e que Paulo passaria a defendê-lo. Mas não é o que ocorre. Aliás este é um dos curtos período em que as brigas entre os irmãos é contida.

Por isso, ao invés de caracterizá-los meramente como conservador e liberal, podemos usar as expressões situacionista e oposicionista, ou seja, os gêmeos não são idênticos apenas na aparência, a ponto de Flora (uma paixão de ambos) mal distingui-los, mas na sua própria essência, apenas com revestimentos e discursos diferentes.

O olhar crítico de Machado está aí: no Brasil, não se consegue perceber a diferença entre Monarquia e República — diferentes no discurso, mas semelhantes em práticas políticas. Machado, relativista, mostra que o destino do homem permanece uma questão de fé, tanto para a religião quanto para a própria ciência. O mesmo ocorre com a política, República ou Monarquia, já que a disputa entre ambas é mera questão partidária, de interesse de grupos políticos que são diferentes apenas na aparência e representam, ao alternarem-se, mera troca de poder.

Falava Aires: “E lembrava-se do discurso do Senador Albuquerque que dizia não haver nada mais parecido com um liberal que um conservador e vice-versa”. Ainda referindo-se aos políticos da Velha República: “Não é a ocasião que faz o ladrão, o provérbio está errado. A ocasião faz o furto, o ladrão nasce feito”.

Um pouco mais do enredo.

Natividade, esposa do banqueiro e futuro barão Santos, está grávida de gêmeos e decide, como tantas madames, visitar incógnita uma cabocla tida como “vidente” no Morro do Castelo. A previsão da cabocla é animadora: “Serão grandes”! Ao chegar a sua casa, a mulher relata as previsões ao marido. O homem fica feliz, mas resolve procurar um amigo e mestre espírita Plácido para saber sobre pontapés sentidos no ventre. O amigo o tranquiliza, afirmando que os meninos seriam grandes homens e por isso brigavam antes mesmo do nascimento. De todas as maneiras, tudo “seriam cousas futuras”.

Pedro e Paulo crescem idênticos fisicamente, mas completamente diferentes na personalidade. Paulo, republicano e Pedro, monarquista. Jamais exercerão a profissão por cada um escolhida. Preferem o “flaneur” característico de uma sociedade, que, mesmo após a abolição da escravidão recente, permanece alicerçada no sinhô, na sinhá e nos que trabalham para servir, naturalmente negros e mulatos.

Os gêmeos encantam-se por Flora, filha de um político oportunista, Batista, ora conservador, ora liberal, na dependência do grupo político no poder. Cláudia, sua esposa, lhe diz quando vacila: “Você estava com eles, como a gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha”.

Atente-se como Machado compõe Pedro e Paulo nessa perspectiva, diferentes, mas análogos, e como, nesse jogo de contraditórios, Flora, de certa forma uma metonímia do Brasil, se confunde e definha, sem conseguir definir-se com qual Partido casar-se.

A interlocução direta do narrador ao leitor acentua sua consciência de ficção. A moça, dividida entre os gêmeos, depois da proclamação da República falece na casa de Rita, irmã do narrador, sem ter tempo para escolher um dos dois. Os irmãos sofrem, mas depois logo dão curso às suas carreiras e vidas. Em seu momento realista, os amores escorrem e se perdem com a vida.

Os irmãos sempre se enfrentam na vida política, deputados em lados opostos no Parlamento. Com a morte de Natividade, a mãe e atendendo a seu último pedido, cessam os desentendimentos. A paz, entretanto, dura pouco, logo os irmãos voltam a trocar farpas e terminam separados, agora por uma questão de partição de heranças. “Um ódio comum é o sentimento que mais liga duas pessoas”.

Por outro lado, de forma muito sutil, o autor trata o conflito entre fé, ciência e religião, em voga no início do século. Na época, as descobertas da ciência experimental, o advento do materialismo e a redefinição do homem acabaram causando uma sensação de desencantamento, instaurando um ceticismo desesperado. “Aires negava que fosse incrédulo. Ao contrário, sendo tolerante, professava todas as crenças desse mundo”.

Logo nos primeiros capítulos, o conflito apresentado, ainda que de forma ironicamente branda, gira em torno da crença. Pode-se inferir que, entre os espaços de crença (o barracão da cabocla e a Igreja) se coloque o espiritismo, na figura de Plácido, como tentativa de estabelecer a união entre fé e ciência, o que pelo vazio de suas propostas é inalcançável.

Quanto ao narrador onisciente, o Conselheiro Aires, afirma Machado: “Aires tinha particular amor à sua terra e, por ventura, tinha se cansado de outras. Não atribuía a esta tantas calamidades. Na verdade, estava cansado de homens e mulheres, de festas e vigílias. Dado às letras clássicas, achou em padre Bernardes a tradução de um salmo: “Alonguei-me fugindo e morei na soedade”. Mas como tudo cansa, até a solidão, Aires acabou trocando uma palavra e o sentido: “Alonguei-me fugindo e morei entre a gente””.

Isto porque “tudo é possível abaixo do sol e da lua. A nossa felicidade é que morremos antes”.

Em suas Memórias, assinala Aires: “De todos os maus costumes, o de envelhecer é o pior. Deixa para lá filósofos dizerem que a velhice é um estado útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças minha amiga, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O estio é bom, cálido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu aparece logo azul. Assim dançarás sempre”.

Sobre o destino, ensina-nos Machado que tudo são instrumentos em mãos da vida: “Aires suspirou e curvou a cabeça ao destino. Não se luta contra ele, dirás tu. O melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos”, pois:

“Quando se envelhece os receios da morte crescem. Mas não bastam os receios, é preciso que a realidade venha atrás deles. Daí as esperanças. Mas também não bastam esperanças, pois a realidade é sempre urgente”.

 

Referências

ASSIS, Machado de: Obras Completas. São Paulo, Aguilar, 1962.

BOSI, Alfredo: “Entre a literatura e a história”. São Paulo, Editora 34, 2013.

BROCA, José de brito: “Machado e a política”. São Paulo, Polis, 1983.

CÂNDIDO Antônio: “Esquema de Machado de Assis”. São Paulo, Duas Cidades, 1970.

GLEDSON, John: “Ficção e história”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.

SCHWARZ, Roberto: “Ao vencedor as batatas”. São Paulo, Duas Cidades, 1977.

SCHWARZ, Roberto: “Um mestre na periferia do capitalismo”. São Paulo, Editora 34, 2006.

 

* CARLOS RUSSO JR. é escritor, ensaísta e professor, dedica-se ao ensino de Literatura e Mitologia, com militância política na esfera dos Direitos Humanos. Blog: www.proust.net.br

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2 comentários sobre “Esaú e Jacó: Machado de Assis retrata esteticamente a transição da Monarquia para a República

  1. Obrigada por essa analise que enriquece minha leitura de Esau e Jaco, livro que na minha opiniao tem uma bela arquitetura visivel, mas que como os icebergs, tem uma parte ainda maior submersa e misteriosa.
    So um exemplo, logo no começo do livro. a cabocla, a dança, a incompreensao das duas damas que sobem o morro como se penetrassem em territorio estrangeiro – territorio esse da infância de Machado. E isso no morro do Castelo, cujo desmonte, ligado à especulaçao imobiliaria, ja era denunciado por José de Alencar, p/ex neste dialogo entre personagens da A viuvinha:
    “Os dois conversavam sobre o projeto do desmoronamento do morro do Castelo, projeto que julgavam devia estender-se a todos os morros da cidade; era um ponto este em que o reumatismo do Sr. Almeida e uma antiga ferida do militar reformado se achavam perfeitamente de acordo.”
    E por ai vai. Entre ética exigente e estética densamente criativa, ha muito o que decifrar am varios autores do XIX, que nao tiveram a chance de estar ao gosto do dia neste começo de século XXI.

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