Necessidade da ideologia ao desinteresse ideológico pela história: marxistas e marxianos

JOÃO DOS SANTOS FILHO*

György Lukács (1885-1971)
Fotó: Balla Demeter

Nunca duvidei e também sempre o disse que o stalinismo é um tipo de destruição da razão”. Somente não considero correto criticar Stalin apontando, onde pudesse ser descoberto, digamos, um eventual paralelo com Nietzsche, porque por esta via nunca chegaríamos à verdadeira essência do stalinismo. A verdadeira essência do stalinismo, no meu entender, consiste no fato de que, conservando teoricamente o caráter prático do movimento operário e do marxismo, na práxis a atuação não é regulada pela mais profunda inteligência das coisas, ao contrário, essa mais profunda inteligência é construída em função da tática do agir. Em Marx e Lênin a linha de fundo do desenvolvimento social, que procede numa determinada direção, era assumida como dada. No interior desta linha de fundo se produzem continuamente certos problemas estratégicos. No interior destes últimos emergem em seguida toda vez os problemas táticos. Stalin inverteu esta sequência. Ele considera primordial o problema tático, e dele faz derivar as generalizações teóricas.

(Georg Lukács. Diálogo sobre o “Pensamento Vivido” (Última Entrevista de Lukács) – extratos – Revista Ensaio de 1986, n.15/16. p. 62/63.)

 

Algumas premissas sinalizam o debate que fazemos sobre o conceito de ideologia, como a entendemos, quais os teóricos que nos apoiamos e por que a eles fazemos questão de nos agasalhar teoricamente. Para levarmos adiante esse processo de compreensão do conceito de ideologia, recorremos a Georg Lukács, que a define como expressão de um ato permanente e presente no cotidiano da vida social, para ele:

A ideologia é acima de tudo aquela forma de elaboração ideal da realidade que serve para tornar a práxis social dos homens consciente e operativa …. Neste sentido, toda ideologia tem seu se-precisamente-assim social: ela nasce direta e necessariamente do hic et nunc social dos homens que agem socialmente na sociedade. [1]

Necessitamos entender que a mesma não pode ser vista somente como “…um instrumento de dominação de classe e, como tal, sua origem é a existência da divisão da sociedade em classes contraditórias e em luta” [2] , como assim, define Marilena Chauí em seu livro O que é Ideologia, que tornou-se a leitura básica sobre o assunto. Mas sim, resultado da atividade humana que está presente em todas as ações dos homens, seja de uma ou outra classe social em todo e qualquer modo de produção existente na realidade.

Com isso o conceito de ideologia ganha uma dimensão diferente daquela que a maioria dos interpretes marxistas da academia ou dos grupos políticos – partidários fizeram com a obra de Marx. Um instrumento de banalização e nega foção da própria teoria em favor de uma exacerbada objetivação da prática partidária como o instrumento capaz de buscar a emancipação humana. Bem como, alguns mais ousados, procederam à falsificação de suas ideias, seja por acréscimos ou omissões utilizando um processo de apreensão do real via a naturalização histórica, criando uma casta de marxistas iluminados que acompanhando a evolução do mercado acadêmico podem ser classificados de modistas.

Esses caronistas e deformadores da verdadeira ontologia marxiana[3] fizeram do pensamento de Marx, campo de experimento de suas racionalidades independente do conteúdo e axiomas explicitados pelo mesmo. Nesse sentido, podemos afirmar que esse procedimento demonstra que os marxistas sempre tiveram o hábito e a liberdade de interpretar a obra de Marx segundo os limites dados pelas internacionais e do partido comunista.

… autores influenciados por Marx han realizado fundamentales trabajos científicos, aportaciones decisivas como historiadores, sociólogos, economistas, antropólogos, psicólogos, pedagogos y en otras ramas de la ciencia y de la cultura, pero se tratan de esfuerzos ajenos a la producción industrial de una vulgata marxista para uso masivo, controlada política y policialmente por los comités centrales. [4]

O estrago feito pelos marxistas à Marx foi profundo, esqueceram-se da necessidade de preservar os princípios teóricos em troca do imediatismo politicista como assim, diria um dos seus melhores leitores o filósofo José Chasin.

Muitos se diziam marxistas por modismo ou interesses político-partidário, mas poucos permaneceram fiéis à Marx. Há casos em que tornam-se ferozes inimigos ou até extremados apologistas do anti-marxismo, de ortodoxos passaram a seguidores messiânicos do neoliberalismo ou fundamentalistas do existencialismo.

Essa crise de princípios aliados à fragilidade ideológica da maioria dos defensores do marxismo, demonstra um conhecimento inconcluso sobre as obras de Marx, levando muitos a um processo de dissidência no campo partidário e acadêmico. Ao grande intelectual do século sobraram as frases montadas junto a uma nova intelectualidade que acredita estar Marx ultrapassado e ser este o fim da história.

Na verdade, existiram e continuam a existir interpretações da obra de Marx, que contribuem para seu próprio desconhecimento ou resultaram em algumas derivações de raiz positivista. Em uma passagem de uns dos melhores trabalhos existentes sobre a vida de Marx a historiadora cubana Paquita Armas Fonseca, faz os seguintes comentários:

Plagiado, incomprendido, tergiversado, dividido en ela Marx joven y el Marx viejo, en el siglo XX, aún en vida comenzó a percibir las malas interpretaciones que se hacían de su teoría. Com un grado de cólera comprensible – se trataba nada menos que de sus yernos – el 11 de noviembre del 82 le escribía a Engels: “Que se vayan al diablo Longuet, el último proudhoniano, y Lafargue, el último Bakunista!”.[5]

Em seguida a autora destaca uma carta que Paul Lafargue recebe de Engels em 27 de outubro de 1890, contendo as seguintes afirmações:

Há habido revueltas de estudiantes, literatos y otros jóvenes burgueses desclasados se han lanzado al partido, han llegado a tiempo para ocupar la mayoría de los puestos de redactores en los nuevos periódicos que pululan y, como de costumbre, consideran la universidad burguesa como una escuela de Saint Cyr socialista que les da derecho de entrar en las filsa del partido com el título de oficial, si no de general. Estos señores practican todos el Marxismo, pero de la especie que se conoce en Francia desde hace diez años, y del que Marx decía: “Todo lo que sé es que yo no soy marxista.” Y probablemente dirá de estos señores lo que Heine decía de sus imitadores: “Sembré dragones y coseché pulgas.” [6]

Na citação acima Marx, coloca-se contra aqueles que em seu nome interpretam sua obra de forma pessoal e determinista, transformando o materialismo histórico em um sistema generalizador e aplicável a qualquer situação. Uma perfeita mecânica da vida que permitiria em si entender que havíamos alcançado um conhecimento perfeito. Essa pretensão tornou a maioria dos marxistas grandes negadores da história e alquimistas de profissão no trato da realidade social, divulgando os “avanços” alcançados no interior das sociedades chamadas socialistas.

No campo da crítica a esse socialismo, aparece Georg Lukács, o mais contundente e capaz contra os que vinham banalizando e destruindo Marx e tornando o partido comunista em órgão policialesco.

Poucos conseguiram permanecer imunes à crítica das estruturas partidárias locais e internacionais, os mesmos foram perseguidos, censurados, execrados. Os sobreviventes ficaram com sequelas e necessitaram para sobreviver de impor seus estudos críticos em relação ao partido e aos axiomas básicos do marxismo vulgarizado.

O sinalizador da crítica às sociedades pós-capitalistas – Georg Lukács

Quem era Lukács? Segundo Leandro Konder foi um intelectual, militante e objeto de perseguição: “Entre os stalinistas, … de anátemas furiosos e rejeições peremptórias … cujo nome se tornou sinônimo de ‘desvio’ e ‘revisionismo'”.[7] Em entrevista realizada pelo mesmo a Lukács na cidade de Budapest em1969, afirma:

Na raiz de nossa crise, está uma modalidade de oportunismo que é, talvez, a mais grave das deformações que nos deixou Stalin: o taticismo. Ao invés de utilizarmos os princípios teóricos gerais do marxismo para criticar e corrigir a ação prática, subordinamo-los mecanicamente, a cada passo, às necessidades imediatas, às exigências momentâneas de nossa atividade política. Com isso renunciamos a uma das conquistas fundamentais da perspectiva marxista: a unidade de teoria e prática. A teoria fica reduzida à condição de escrava da prática e a prática perde sua profundidade revolucionária. Os efeitos de semelhante situação são catastróficos. Hoje em dia, infelizmente, todos os PCs são mais ou menos taticistas. [8]

Apontando sempre para uma crítica severa às imposições do partido, denunciando as aberrações que eram cometidas no pensamento de Marx, como também, aos companheiros comunistas que estavam tangenciando para um desvio ou negação do próprio marxismo. Georg Lukács foi criticado por vários intelectuais de expressão política e acadêmica [9] dentre esses, o filosofo polonês Adam Schaff que, quando esteve em João Pessoa na Universidade Federal da Paraíba, em março de 1982, e em entrevista concedida à revista Ensaio [10], fez uma série de comentários sobre Georg Lukács.

Em primeiro lugar, o professor Schaff (1913), em 1982 estava para completar 70 anos e possuía um domínio exemplar da língua espanhola, o que facilitou o contato com os colaboradores da revista. Em sua entrevista admite que Lukács foi “…vítima do stalinismo em determinado sentido”. [11] E, em seguida, faz uma defesa de Stalin, procurando minimizar os crimes por ele cometido, insinuando que os mesmos ocorreram em virtude da geração pó- revolucionária, como relatado na citação abaixo:

Ele criticou, falou contra o stalinismo, mas trazia todo um ponto de vista de uma geração. Ponto de vista que não era somente de Stalin, enquanto indivíduo, mas ponto de vista de uma geração na euforia da pós-revolução. E isso é o mais perigoso, porque as coisas feitas pelos indivíduos Stalin não são tão graves. As coisas foram feitas pelo movimento, cuja emanação foi Stalin. Não esqueçamos, ele foi o grande herói, as suas ideias foram a emanação do melhor de toda uma geração, dentro da atmosfera de toda uma época. [12]

Adam Schaff, apesar de sua luta como “… combatente marxista do anti-stalinismo…”, como assim se refere José Chasin, afirmando com muita percepção e ressonância teórica que:

Adam Schaff é bem uma expressão do universo de tendências e problemas do marxismo contemporâneo: dos esforços por sua reconstrução, da crise que o transpassa e dos descaminhos velhos e novos que o habitam. [13]

As observações de Schaff sobre Lukács são claras e bem sinalizadas, decorrentes da encruzilhada teórica presente no interior de seu pensamento, com nítidos sinais stalinistas que enxergam todos aqueles que passaram a criticar o partido de revisionistas. Considera Lukács “um grande filósofo marxista, porém produtor de coisas falsas e “… ligado ao humanismo alemão, principalmente a Hegel, e isto é a sua maldição, apesar de sua autocrítica, ele está totalmente embebido nesta filosofia alemã”. [14]

As críticas a Georg Lukács por parte de Adam Schaff, naquele período continuaram e em 1995, no mês de abril, tive o privilégio de acompanhar uma série de palestras sobre a nova esquerda e o socialismo real na Universidade nacional – Heredia na Costa Rica na qual estava como professor visitante. No qual Schaff, quando questionado por mim sobre a importância de hoje aprofundar a leitura das obras de Lukács, respondeu asperamente que esse filósofo, nada tinha a contribuir para a filosofia marxista.

As exposições de Schaff ficava claro sua agressividade para com Lukács e certa visão preconceituosa toda vez que era questionado sobre o papel da América Latina para o movimento de esquerda. Até que em uma das últimas exposições, questionado por seus antigos alunos de pós-graduação durante uma de suas exposições, fizeram-lhe a seguinte pergunta: Qual seria o papel da América latina na constituição da nova esquerda. De forma rápida e sem qualquer receio respondeu que nenhum. Esse foi um momento de extremo constrangimento por parte dos participantes que permaneceram calados e em seguida esboçaram algumas reações de indignação e mal-estar.

Essa visão etnocentrista parece ser ainda determinante para alguns intelectuais europeus. Há um desconhecimento de atualidade sobre o outro lado da linha do equador, pois muitos acreditam que por termos incorporado a civilização ocidental e decretado a morte de nossos antepassados, permanecemos dependentes do pensamento colonialista. Não seria este um dos pressupostos que sustentam ainda o stalinismo?

Mas apesar, de tudo isso, podemos dizer que a contribuição intelectual de Adam Schaff deve ser reconhecida no campo metodológico e da teoria do conhecimento, apesar de seus equívocos estarem localizados na “…concepção geral do marxismo e à sua problemática metodológica: Schaff compreende o marxismo, fundamentalmente, como um integrador de conteúdos, na continuidade histórica de uma grande linha de pensamento…”. [15]

Conclusões preliminares

Começamos com uma das conclusões extremamente oportunas escritas por Georg Lukács em seu livro “El asalto a la razon”, quando afirma que “Una de las tesis fundamentales de este livro es la de que no hay ninguna ideologia inocente. Mas uma vez Lukács por ser uns dos guardiões mais combativos e competentes na defesa do pensamento de Karl Marx, onde sua preocupação se estende em fazer uma análise ontológica, preservando o valor da racionalidade e o embate para com o irracionalismo. Consegue dar ao pensamento de Marx uma originalidade que havia sido perdida e separa os marxistas de moda dos marxianos, abrindo um novo campo para os leitores das obras de Marx.

No campo do estudo da ideologia, percebemos que aquele velho e desgastado jargão que afirmava ser a ideologia essencialmente um instrumento de dominação de classe, é resultado de uma leitura equivocada das obras de Marx. Poucos tem essa consciência, mas alertamos que ideologia na verdade deve ser entendida como a forma de idealmente conceber a realidade e sinalizador da práxis social dos homens de forma consciente e altamente operativa.

Neste sentido, tudo que fazemos é consciente, isto é, tem um movimento histórico que independente de ser de classe é social, pois apresenta um valor teleológico que só a racionalidade e a razão social dos homens podem configurar e, portanto, ser da natureza humana.

Apesar de nossa modesta contribuição para o estudo da ideologia, esperamos que surjam outras para que a academia possa detonar um processo de reflexão e estudo sobre essa temática polêmica e instigante.

 

Referências

ARMAS FONSECA, Paquita. Moro: el gran aguafiestas. Havana: Editora Pablo de la Torriente, 1989.

CHAUÍ, M. S. O que é Ideologia? São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981.

CHASIN, José. Contra o Stalinismo e a Alienação. São Paulo: Editora Nova Escrita/Ensaio n.º 10, 1982.

LUKÄCS, Georg. Diálogo sobre o “Pensamento Vivido”. São Paulo: Editora Ensaio n.º 15/16, 1986.

LUKÄCS, Georg. A autocrítica do marxismo. Revista Temas n.º4. São Paulo: Editora de Ciências Sociais, 1978.

KONDER, Leandro. Lukács. Porto Alegre: Ed. L&PM, 1980.

SÁENZ, Luiz. M. Marx sin Marxismos.

VAISMAN, Ester. O problema da ideologia na ontologia de G. Lukács. Tese de mestrado apresentada no mestrado de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba, 1986.

 

* JOÃO DOS SANTOS FILHO é sociólogo, turismólogo e professor aposentado da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Departamento de Ciências Sociais. Texto publicado na REA, n. 01, junho de 2001.

[1] VAISMAN, ESTER. O problema da ideologia na ontologia de G. Lukács. João Pessoa, 1986. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Universidade Federal da Paraíba

[2] CHAUÍ, M. S. O que é ideologia? Coleção primeiros passos. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1984, p.102.

[3] Se entende por referência marxiana a leitura feita das obras de Marx segundo a interpretação de George Lukács

[4] SÁENZ, Luis M. Marx sin marxismos, p.1 – http://www.geocities.com/Atnens/Acropons/1664/marx.ntm.

[5] ARMAS FONSECA, Paquita. Moro: El Gran Aguafiestas . Editorial Pablo de Torriente, la Habana, 1989, Cuba, p. 131.

[6] Idem, P.132 (grifo nosso).

[7] KONDER, Leandro. Lukács. Rio Grande do Sul – L & PM Editores Ltda, 1980. p. 14.

[8] LUKÁCS, Georg. A autocrítica do marxismo. In: Revista Temas de Ciências Sociais. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas LTDA., 1978, p. 19-25.

[9] Estudo detalhado sobre isso está no livro já citado de Leandro Konder. A nós cabe acrescentar um teórico de prestigio mundial o filósofo polonês Adam Schaff o qual tivemos o privilégio de conviver durante dez dias na Universidade Nacional-UNA de Heredia – Costa Rica.

[10] A Revista Ensaio, publicação trimestral na área da sociologia, política, história e filosofia, desenvolvia estudos no campo da história do pensamento burguês brasileiro, como também, sobre a obra de Marx e Lukács. Saiu de circulação em 1993 e se preparava para retornar em 1999, com outro nome, quando em 30 de dezembro de 1998 faleceu seu idealizador um dos mais competentes filósofos do Brasil o professor José Chasin.

[11] CHASIN, José. et al. Contra o stalinismo e a alienação. In: Revista Escrita – Ensaio, n.10, São Paulo: Editora e livraria Escrita, 1982, p. 96.

[12] Ibidem, p.96.

[13] Ibidem, p. 26.

[14] Ibidem, p.101/102.

[15] Ibidem, p. 26.

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3 comentários sobre “Necessidade da ideologia ao desinteresse ideológico pela história: marxistas e marxianos

  1. Mais do que um comentário, se trata aqui de escrever inspirado por este artigo

    Porque sempre ideologia e nunca ontologia?!

    “O primeiro trabalho, empreendido para resolver as dúvidas que me assaltavam, foi uma revisão crítica da filosofia do direito que Hegel, um trabalho cuja introdução apareceu nos Deutsch-Französische Jahrbücher[N13] publicados em Paris em 1844. A minha investigação desembocou no resultado de que relações jurídicas, tal como formas de Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do século XVIII, resume sob o nome de”sociedade civil”, e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porém, na economia política. A investigação desta última, que comecei em Paris, continuei em Bruxelas, para onde me mudara em consequência duma ordem de expulsão do Sr. Guizot. O resultado geral que se me ofereceu e, uma vez ganho, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado assim sucintamente: na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem de se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o qual é constatável rigorosamente como nas ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, em que os homens ganham consciência deste conflito e o resolvem. Do mesmo modo que não se julga o que um indivíduo é pelo que ele imagina de si próprio, tão-pouco se pode julgar uma tal época de revolucionamento a partir da sua consciência, mas se tem, isso sim, de explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, do conflito existente entre forças produtivas e relações de produção sociais. Uma formação social nunca decai antes de estarem desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais é suficientemente ampla, e nunca surgem relações de produção novas e superiores antes de as condições materiais de existência das mesmas terem sido chocadas no seio da própria sociedade velha. Por isso a humanidade coloca sempre a si mesma apenas as tarefas que pode resolver, pois que, a uma consideração mais rigorosa, se achará sempre que a própria tarefa só aparece onde já existem, ou pelo menos estão no processo de se formar, as condições materiais da sua resolução. Nas suas grandes linhas, os modos de produção asiático, antigo, feudal e, modernamente, o burguês podem ser designados como épocas progressivas da formação económica e social. As relações de produção burguesas são a última forma antagónica do processo social da produção, antagónica não no sentido de antagonismo individual, mas de um antagonismo que decorre das condições sociais da vida dos indivíduos; mas as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a resolução deste antagonismo. Com esta formação social encerra-se, por isso, a pré-história da sociedade humana.” (Extraído de https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/01/prefacio.htm)

    Esta passagem é uma das mais famosas e citadas passagens do pensamento de Marx e, no entanto, mesmo assim, na prática em nada altera o curso daquilo que ela critica que é o pensamento de Hegel.

    No dia a dia os humanos permanecem agindo como se as relações jurídicas e as formas de Estado se desenvolvessem a partir de si mesmas ou do desenvolvimento do espírito, mas, como já foram informados e prevenidos de que elas se desenvolvem a partir das relações materiais da vida da Sociedade Civil e que a anatomia desta é a economia política, eles supõem que, se partirem de setores ou partes que nomeiam e assumem como sendo a Sociedade Civil Organizada, então eles poderão desenvolver as relações jurídicas e as formas de Estado e/ou do espírito a partir das organizações da Sociedade Civil Organizada, porque estarão partindo dos corpos, melhor, das corporações da Sociedade Civil Organizada para desenvolver as relações jurídicas e as formas de Estado e/ou do espírito. Não percebem que as Corporações da Sociedade Civil Organizada são precisamente aquelas formas estabelecidas pelo Estado e que ficam engessadas em relações jurídicas que congelam e/ou interditam o desenvolvimento das relações materiais da vida da Sociedade Civil sob o estabelecimento do desenvolvimento absoluto do espírito ou do Estado de um modo que afirma o desenvolvimento de um Estadão ou Espírito Absoluto e suprime, nega ou permanece ocultando, escondendo o desenvolvimento das relações materiais da vida da Sociedade Civil.

    Ou seja, este percurso faz precisamente o inverso do que é o objetivo do pensamento crítico de Marx, logo, em lugar de dissolver o Estado e libertar a Sociedade de sua organização Civil e/ou em corpos, partes, setores, classes etc. expande e desenvolve ao máximo o Estado e acorrenta as classes, setores, partes, corpos etc. da Sociedade como Corporações dentro do Estadão Absoluto. Marx visa precisamente o inverso, ou seja, quer a dissolução do Estado e da Sociedade Civil Organizada por meio do desenvolvimento e constituição da vida material da Sociedade e/ou Comunidade Humana.

    Ora, como se sai deste absurdo que é o uso do pensamento de Marx para realizar efetivamente aquilo que seu pensamento critica e que é o pensamento de Hegel?! Como se sai deste absurdo de usar um pensamento que visa a dissolução do Estado e da Sociedade Civil Organizada em Classes para precisamente chegar ao seu contrário que é a edificação de um Estadão que oculta e desenvolve dentro de si como Corporações as Classes Organizadas da Sociedade Civil?!

    Porque, estes que usam o pensamento de Marx para realizar efetivamente o pensamento de Hegel e não a crítica do mesmo feita por Marx, permanecem reproduzindo aquilo que Marx critica, quer dizer, permanecem fazendo o uso da sua consciência social, a qual, por sua vez, permanece ignorando o ser social que a determina?! Porque as formas de consciência social dos humanos permanecem ignorando que são inconscientemente determinadas pelo ser social?! Porque as formas de consciência social dos humanos permanecem sendo ideologia e/ou formas ensimesmadas da consciência, do espírito ou da(s) ideia(s) inteiramente inconscientes do desenvolvimento das relações materiais da vida, do ser e/ou da ontologia?!

    Quando olham para as relações materiais da vida só percebem as correlações de forças constitutivas das relações de poder que tomam o Estado e nele encarnam o desenvolvimento do Poder do Espírito Absoluto, a Ditadura, a Autocracia, o Estadão. Olham, por exemplo, para as organizações criminosas como o PCC, o Comando Vermelho etc. e para as Milícias, os Esquadrões da Morte, os Grupos de Extermínio etc. e ainda para as Polícias e para as Forças Armadas que só mostram o seu poder de destruição material das vidas alheias que, como espíritos, se incorporam como poder material da Vida da Própria Morte que é o Estado ou este Espírito que reina Absoluto sobre a Vida. Olham para este poder de destruição e nele percebem a Revolução por meio da qual, supondo realizar o pensamento de Marx, realizarão o pensamento de Hegel, quer dizer, chamarão os Golpes e Tomadas do Poder do Estado bem como o desenvolvimento Autocrático do Estado de Revolução, tal qual, por exemplo, o Golpe de 64 no Brasil que, até hoje, chama o seu Ato ou Feito de Revolução de 64.

    Isto para o pensamento de Marx, crítico do pensamento de Hegel, merece ser chamado de Reação e não de Revolução até porque realiza efetivamente o contrário e/ou a Reação da Revolução proposta por Marx. Este quer o fim do Estado e da Sociedade Civil Organizada ou de Classes, portanto, quer mudar a anatomia desta Sociedade Civil Organizada, quer dizer, quer mudar a Economia Política e constituir uma outra Economia Política como a anatomia da Sociedade Humana ou da Comunidade Humana Sem Classes Nem Estado.

    Porque nunca e em momento algum vemos este pensamento de Marx ser praticado tal qual ele se propõe, mas, ao contrário, sempre o vemos suposto como ideologia, utopia, ilusão usada de forma prática e militante por todos aqueles que realizam efetivamente a sua negação, o seu contrário ou a sua Reação tal qual a efetivação real do pensamento de Hegel que Marx tanto criticou?!

    A Revolução Marxiana está à margem da história e à margem da vida porque a centralidade da história e da vida se fixou no desenvolvimento das formas jurídicas e de poder de Estado a partir de si mesmas e/ou de suas correlações de forças e se alienou, desprendeu ou libertou por completo do desenvolvimento das formas vitais e de ser da Humanidade Social a partir de si mesmas e/ou de suas capacidades de seres vitais?! A centralidade da história e da vida é a Consciência e a Revolução Marxiana é a centralidade da história e da vida Inconsciente?!

    Conclusão. Marx errou redondamente ao pensar que os humanos situados na realização efetiva da materialidade da história e da vida, os conhecidos trabalhadores, poderiam a partir de seu ser social vir a revolucionar a materialidade da história e da vida abrindo o caminho para o desenvolvimento da história e da vida do ser humano, logo da vida e da história da comunidade humana que é a forma de desenvolvimento da materialidade das relações do ser humano?!

    A materialidade da história e da vida não está mais sendo realizada efetivamente pelos humanos denominados trabalhadores?! Não são mais os humanos que realizam efetivamente a materialidade da história e da vida e são sim suas próprias produções, mades, feitos ou fetiches que realizam efetivamente a materialidade da história e da vida como trabalho humano abstrato ou espírito?! A produção da materialidade da história e da vida conquistou autonomia e se afirma como espirito ou trabalho abstrato das coisas automáticas ou robóticas que só permanece se relacionando de modo interessado com a consciência, o espírito ou pensamento do ser humano, logo, só mantém a vida ou a ontologia do ser humano por estar inteiramente interessado no espírito ou na ideologia que o ser humano ainda permanece capaz de desenvolver na relação com o trabalho abstrato ou espírito do autômato?!

    Ou enfim, Marx não se enganou, mas são seus seguidores que não levam em consideração e “esquecem que são os (trabalhadores) humanos que mudam as circunstâncias e que os educadores precisam ser educados, e por isso, dividem a sociedade em duas partes, uma das quais se eleva acima da outra”, portanto, se as circunstâncias mudadas se mostram como autômatos independentes dos trabalhadores humanos, mas que precisam ser educados pelos educadores humanos, então cabe aos trabalhadores humanos realizar efetivamente a libertação completa dos humanos do trabalho humano de modo que só reste a todos os humanos o trabalho de ser educado e, mais ainda, o de ser educador dos autômatos, portanto, de modo que só reste o educador humano dos autômatos a exigência de poder desenvolver livremente a materialidade da vida e da história de seu ser humano e/ou de sua humanidade social/sociedade humana para que possa efetivamente ser educado e, assim, vir a ser educador humano do autômato?!

    Finalmente, sem o trabalho humano de produzir a história e a vida do ser humano, a qual, por sua vez, muda materialmente precisamente porque o ser humano muda as circunstâncias, os humanos cairão sempre na condição de meros produtos das circunstâncias limitados meramente a desenvolver a consciência produzida pelas circunstâncias e educação, quer dizer, limitados a desenvolver o espírito já produzido e/ou o Estado e, assim, nunca se abrirão para o trabalho humano de produzir a própria vida e a própria história mudando materialmente as circunstâncias e a educação e não meramente expandindo espiritualmente as circunstâncias e a educação mudadas materialmente pelos autômatos?! Sem o trabalho humano histórico e vital se permanece sempre no desenvolvimento da ideologia e nunca se abre caminho para o desenvolvimento da ontologia?!

  2. Ótima contribuição do professor João dos Santos Filho à reflexão do conceito de Ideologia, cuja tradição acadêmica parece tê-la limitado a um reducionismo mecanicista em que tem levado em conta apenas um dos sentidos que Marx concebe à ideologia. O texto é oportuno por nos convidar a ler ou reler Lukács e refletirmos sobre a sua contribuição à luz da realidade atual.

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