Conexão 24 horas

Pe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

Conhecemos bem o internauta compulsivo. Navega todo tempo e em todo lugar: no ônibus, no metrô, nas ruas, na padaria, numa reunião, no restaurante, no supermercado… Não é difícil tropeçar com ele, aparentemente falando sozinho pela calçada. Também não é difícil encontrá-lo atravessando o farol, na faixa de pedestres, com o celular colado no ouvido. Se convidado para uma janta, pode substituir a companhia dos comensais pelo rumor mecânico do Whatsapp. Até mesmo na Igrela é incapaz de desconectar-se. O pequeno aparelho e a chegada de uma mensagem “inesperada” o tornam, a um só tempo, atento e evasivo.

A conexão cumpulsiva, porém, comporta riscos. O primeiro deles recai sobre as relações com outras pessoas, sejam tais relações virtuais ou presenciais, e em distintos graus de intimidade. Uma vez que se mantém o tempo todo conectado, sua presença ou palavras perdem o caráter de novidade. Não se dá conta que a novidade é o segredo de uma boa amizade, de um bom namoro, de um bom matrimônio, de uma saudável vida em comum. Quando o contato adquire uma natureza ininterrupta, desgasta-se por si mesmo. Um corte breve ou até mesmo prolongado na relação, só faz aumentar a vontade, a novidade, o fascínio e o sabor do reencontro. Muitas vezes o tempero do encontro cresce com a expectativa em torno dele. Se não há espaço para a privacidade de cada pólo da relação, tampouco haverá coisas novas a descobrir e a intercambiar. Os laços interpessoais ou intercomunitários entram, então, numa rotina invasiva, nociva e corrosiva.

Quando a pessoa não tem espaço e tempo para respirar e destilar suas experiências e emoções, seus sentimentos e pensamentos, tende a tornar-se pesada, repetitiva, e até supérflua. A tarefa de construir a própria individualidade anda de pari e passo com a construção de qualquer tipo de relação. Uma depende e se nutre da outra. Ou seja, à medida que o individuo aprofunda o conhecimento sobre seu próprio ser, alarga o espaço de sua tenda para a acolhida de outros viajantes. E estes, por sua vez, expandem com novos conhecimentos, novos costumes e novos valores a interioridade do primeiro. Ambas – a individualidade e a relação – interagem: se interpelam e se enriquecem reciprocamente.

Resulta que se uma pessoa esquece de reservar tempo para si mesmo, nada de novo terá a dizer. Não haverá verdadeiro reencontro, mas uma conexão ininterrupta e asfixiante. Manter-se sempre conectado é uma forma de banalizar o encontro e a comunicação interpessoal. Quando tudo ou qualquer ninharia se converte em notícia “urgente e necessária”, não há mais o que noticiar. Em outras palavras, quando o “inesperado” se transforma em algo perfeitamente “esperado”, não há mais novidade. Quem sabe quantos rompimentos ocorrem justamente pela obsessão de manter uma conexão “24 horas por dia”! Repete-se aqui o mesmo que na amizade ou namoro possessivos. Quem quiser conquistar uma pessoa, deixe-a livre para escolher; quem quiser perdê-la, basta mantê-la prisioneira. Além de escravo da telinha, o internauta corre o perigo de ser escravo de outro internauta, ou de uma determinada rede social.

Outros riscos derivados são a perda do encontro consigo mesmo e com o Transcendente. A compulsividade da conexão toma todos os minutos e todos os passos. Outras portas se mantêm fechadas. Não há mais “espelho” para o silêncio e o confronto; para a pergunta e as dúvidas, para a inquietude e a interpelação. A Internet virou uma espécie de latinfúndio que tudo abarca e tudo submete, na maioria das vezes com escassa produtividade. E o telefone celular uma espécie de controle remoto que, em vão, tenta acompanhar à distância a vida dos “amigos” e dos “acontecimentos”como se fossem marionetes. O problema é que a tentativa de acompanhá-los no cotidiano e a partir do exterior – compulsivamente – não deixa lugar para um real encontro: consigo mesmo, com o outro e com o totalmente Outro. O internauta, a estas alturas, navega nas ondas aparentes e visíveis dos fatos, das pessoas e do sagrado. Desconhece as correntes subterrâneas e invisíveis da existência humana. Navega de forma tão obsessiva e ininterrupta que perde a oportunidade de um encontro mais profundo com a própria experiência de vida, a própria vocação e a meta a ser alcançada. Numa palavra, perde o sentido último da vida.

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