A imagem do nosso professor

RAYMUNDO DE LIMA*

A foto com o rosto machucado de uma professora brasileira rodou o mundo; havia sangue em vez do sorriso docente. Professora da cidade de Indaial/SC. Ela sofreu dois tipos de agressão: foi espancada por um aluno e depois foi agredida nos comentários raivosos na internet. De vítima a professora se tornou culpada por gente que perdeu a capacidade de empatia.

Desaprendemos a respeitar nossos mestres; não sabemos educar filhos e alunos; não sabemos respeitar os velhos. Não aprendemos a ser éticos suficientemente, no dia a dia.

Processos judiciários de alunos contra professores e de pais contra professores vem aumentando drasticamente no Brasil. Políticos de moral duvidosa elaboram projeto para vigiar e punir professores que não pensam como eles. Vivemos uma “judicialização dos conflitos escolares”. Geralmente os professores perdem nas sentenças do judiciário brasileiro.

Uma pesquisa de referência indica os alunos que mais maltratam professores no mundo são: Brasil (1o.lugar), Estônia e Austrália. Por quê países com culturas tão diferentes e distantes entre si produzem alunos tão agressivos aos professores? Malásia, Romênia e Coréia do Sul apresentaram índice zero de violência contra os professores. Será que a culpa pela violência na escola é dos próprios professores estressados pela atividade do dia a dia? Ou é dos pais que não se responsabilizam educar filhos? Ou é das políticas públicas impostas pelos governos? Ou seria produto da cultura da geração Y ou Z (internet é tudo pra eles, gente presencial, não)?

Comentários dentro e fora da internet foram favoráveis ao espancamento da professora, porque ela seria de esquerda. (Enfim, a extrema-direita brasileira mostra sua cara: sonha com retorno dos fornos crematórios dos nazistas, para eliminação física dos esquerdistas). Outros comentam que ela mereceu porque é defensora dos Direitos Humanos e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Não raro os comentaristas se dizem cristãos, e aclamam aquele que venera torturadores e pretende ser presidente do Brasil.

Dias depois, outra professora foi agredida, torturada e morta por enforcamento quando dava aulas de catequese numa paróquia da cidade de Estância Alegre, Rio Grande do Sul. Culpa da professora? Mesmo mês, outra notícia contra professora de Jaraguá do Sul/SC: alunos encheram a garrafinha da professora com água do vaso sanitário com comprimidos dissolvidos para ela dormir durante a aula. O que dizem os comentaristas da internet?

Os comentários raivosos sugerem um aumento brutal de pessoas com pouca ou nenhuma empatia (capacidade de sentir o sofrimento de outra pessoa). Será uma nova doença mental marcada por um olho cego subjetivo, que impede a análise da totalidade da situação? Também elas perdem a capacidade moral de amor ao próximo. Outro sintoma dessa doença é a indignação seletiva, por exemplo, a pessoa fica indignada com a corrupção de um partido, mas não consegue enxergar e se indignar com a corrupção em outro partido. Um professor sem o comprometimento com a análise do todo lembra aos alunos o 11 de setembro (que matou muita gente para implantar a ditadura do general fascista Pinochet, no Chile, em 1973), mas o próprio se “esquece” de incluir na aula o 11 de setembro de 2001, cujos terroristas fanáticos religiosos jogaram aviões de passageiros sobre as torres gêmeas nos Estados Unidos. “A verdade é o todo”, dizia Hegel.

 Ainda em agosto/2017, vimos a foto de um professor com um cartaz, na rua, pedindo emprego numa cidade paulista. Embora seja digno usar qualquer meio para poder trabalhar, este gesto piora a imagem do professor. A última faculdade em que o professor Eduardo Cobra, de 56 anos, trabalhava o demitiu por correspondência. O professor Eduardo é formado em Teologia, mestre em Ciência da Religião; tem licenciatura em História, é doutor em Educação e pós-doutorado em Literatura pela USP. Os comentários de internet criticam o professor, afinal, por que escolheu se formar em Teologia, Ciências da Religião, História, Literatura, atividades sem valor de mercado?

A imagem dos professores agredidos em 29 de abril de 2015, no Centro Cívico, em Curitiba, também rodou o mundo. “É assim que o governo do Paraná trata os professores?”, comentam os estrangeiros. Mas, aqui, no Paraná, os comentários não se pautaram pelo bom senso. Até uma juíza do Paraná inocentou o governador Richa e o comando policial que causou mais de 200 feridos. Sentença judicial como esta gera na população imagem negativa dos professores e do protesto legítimo. Somente aqueles que não perderam a capacidade de ver/analisar o todo compreendem a função docente, suas condições de trabalho e nos apoiam quando somos agredidos. Não somos coitadinhos, nem queremos visto como vítimas; queremos apenas respeito na nossa função docente na sala de aula e nas ruas.

DIA 15 DE OUTUBRO é DIA DO PROFESSOR. NÃO TEMOS NADA PARA COMEMORAR.

* RAYMUNDO DE LIMA é professor da UEM. (Publicado da revista Maringá Missão, out/2017).

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3 comentários sobre “A imagem do nosso professor

  1. É lamentável a vida dos professores no Brasil. Afinal, que rumo vamos dar ao país, sem professores, sem uma educação em que possamos libertar o sujeito do determinismo, com plenas condições de agir e pensar. Urge a necessidade de mudanças estruturais e somente os professores no ambiente escolar é que poderá fazer essa discussão e livrar toda uma sociedade da escravidão. A escravidão do não pensar, do não agir, deixar que apenas uma parcela da sociedade decida os rumos da educação.

  2. É lamentável e revoltante ler os fatos narrados e saber que existe total falta de respeito dos poderes e dos pais dos alunos para com os professores. O Brasil será sempre o país do futuro – um futuro que jamais chegará – enquanto não respeitarem e valorizarem os professores. É uma vergonha a falta de estrutura na educação municipal, estadual; o baixo salário dos professores: e a falta de conhecimento, e menosprezo da profissão por parte da maioria da população – PROFESSOR ENSINA, os pais educam. Está tudo errado. Se não houver mudanças, faltará profissional, em breve.

  3. Tem o que comemorar sim, professor. Comemorar significa “lembrar junto” e, nesse sentido, pode-se até comemorar a morte da mãe. O que não se pode (ou não se deve) é FESTEJAR a morte da mãe.

    A vaca do ensino no Brasil começou a ir para o brejo quando tiraram o latim das escolas.

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