O voo do Pássaro-sol Palestino: elementos para uma visão geral do colonialismo na Palestina

YASSER JAMIL FAYAD *

JAMIL ABDALLA FAYAD **

 

A Questão da Palestina não é, senão, mais uma horrenda e sombria invenção do capitalismo – fruto de sua dinâmica central de acumulação que subordina, espezinha e espreme o sumo, sangue e tutano de tudo o que denomina e o faz periférico.

A civilização europeia nunca quis ficar fechada em si, foi desde sempre uma narcisista ativa, em seus encontros com o “outro”. A Marcha, que representa o fluxo principal de sua evolução, foi essencialmente a da exploração e da dominação, sua concepção que vê o outro como bárbaro e sem alma o limitou ou mesmo impediu encontros que a enriquecesse profundamente. Sua ferramenta essencial foi a violência que subordina o outro e o reconstrói para lhe servir e parecer à imagem, mas nunca com status de igual. Essa face hegemônica europeia, com seus pares, somente queria matérias-primas como o ouro, petróleo, ferro, minérios, madeira, café, gado, algodão, açúcar e mãos de obra escrava ou semiescrava para saciar sua imensa gula. Esse ocidente político só foi capaz de ver beleza em si mesmo.

O Orientalismo não é, senão, um capítulo da Marcha europeia, uma das faces do processo de homogeneização do homem, que deseja apenas as visões de mundo de fundo único que beneficia Europa, EUA, Canadá, Austrália e Israel, que transforma a todos em meras cópias miméticas do American Way Of Life/ Eurocêntrica. Nesse processo, veem o vasto Oriente humano árabe digno somente de uma curiosidade excêntrica e animalesca.

O seu discurso de democracia, cosmopolitismo, universalismo e desenvolvimento nada mais é que uma roupagem para as visões de mundo de fundo único, que são usadas para que os outros engulam goela abaixo seu conteúdo, seus valores. Em contraposição pejorativa a este discurso a identidade étnica árabe e religiosa islâmica são apresentadas como atrasos e obstáculos ao seu progresso.

O capitalismo central europeu, que já havia concluído sua etapa de acumulação primitiva sobre as entranhas das classes trabalhadoras internas e sobre a superexploração da força de trabalho nas economias coloniais/dependentes, cria um excedente humano como subproduto da industrialização, da formação das grandes cidades modernas e do êxodo rural, expulsa-os numa operação de limpeza com função social de estabilidade política interna. Externamente lhe serviu de pilar humano para a necessidade de expansão de uma nova onda de acumulação de matérias-primas e mercados num movimento neocolonialista. É nesse movimento que inventam Israel sobre as vísceras do povo palestino. Como no passado, as Cruzadas discursavam que Jerusalém era a porta para os céus, mas queriam seus tesouros, mercados e rotas comerciais. Mimetizando-os, o sionismo fala em Jeová, mas quer a posição estratégica militar para servir-lhe de auxílio à rapinagem do petróleo e apoio ao controle geopolítico regional pelo Império, do qual seu papel é de extensão e de lacaio.

O capitalismo transformou-se na grande religião mundial que subordina todas as velhas formas de religião. Os antigos deuses perderam seus postos diante do dinheiro, lucro, mais-valia e desejo de consumo, verdadeiros deuses que controlam o mundo. Israel é um acabamento dessa teologia do capital e suas ações só são inteligíveis dentro dessa óptica. O Judaísmo é uma mera máscara aos ateus-sionistas ou releitura religiosa de extrema direita ao judeu-sionista. O Judaísmo, enquanto fenômeno religioso, nunca precisou de um “estado” para existir enquanto tal, ao contrário do projeto sionista. Para esse é imperativo um “estado” recheado de ogivas nucleares e arsenais militares, agressor, racista, expansionista, fechado em si diante do outro.

A força do sionismo é sua unidade estratégica, seu militarismo, sua imagem falsa sustentada pela megaindústria midiática que (re)produz diariamente toneladas de imagens, livros, filmes, mas também pelas pequenas seitas religiosas que associam o velho testamento e a colonização sionista num imenso delírio de fanatismo doentio e suturado de racismo do Deus que “elege”, “apadrinha”, “dá eterna carta branca” a alguém em detrimento de todos os outros “não eleitos”. Nesse sentido, o sionismo só poderia nascer como nasceu, no seio do neocolonialismo europeu e ser a continuidade sincera dessa herança maldita.

É uma ilusão acreditar que os trabalhadores modernos em Israel, expulsos da Europa, para o mundo num movimento direcionado, como a colonização sionista, possam deixar a primazia da sua posição de colonizador para assumir uma aliança emancipatória com os trabalhadores árabes. Diferentemente dos demais trabalhadores expulsos da Europa, estes nasceram e mantem uma função colonizadora específica como enclave militar e político na região. Em decorrência disto, não há movimentos políticos e sociais de esquerda, mas somente alguns poucos e heterogêneos indivíduos deste campo político sem peso nesta sociedade.

A Marcha europeia produziu seu acabamento final com o capitalismo, nesse “progresso” rendeu o sistemático genocídio indígena das Américas, martírio negro em África e as guerras de pilhagem em Ásia, Oceania e América Latina. A luta Palestina é uma afirmação de uma variante cultural do gênero humano, uma das faces árabes do mundo que carrega consigo, na sua resistência e nos seus apontamentos de alternativa, todas as dignidades dos povos que lutam e lutaram contra a expansão predatória da Europa e suas filiais.

A ampliação das formas discursivas e de ações como sugerida adiante para o “conceito de Palestina” não exclui aquilo que vê beleza na luta de libertação e faz uso da potência vingativa desta. Não existem insurreições, revoltas e mesmo processos mais profundos como revoluções sem essa força, da qual os palestinos carregam toneladas em suas artérias. A vingança sempre foi um sentimento de força dos explorados e oprimidos em suas lutas. Quem clama pela exclusão desse sentimento trai essa potência que é redentora. Só pode vingar a história quem dela foi vítima!

O movimento socialista é uma expressão dessa potência vingadora que nasce no coração da Europa numa contramarcha, sintetizando toda sua herança positiva. A revolução socialista é o ponto de metamorfose da vingança da história na mais elevada práxis humana emancipatória.

 

* YASSER JAMIL FAYAD é graduado em Medicina (UFSC), residências médicas em Pediatria (HU/UFSC) e Infectologia pediátrica (HCRP/USP), militante do Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani.

** JAMIL ABDALLA FAYAD é graduação em Agronomia (UPF), mestrado em Fitotecnia (UFV), militante do Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani.

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2 comentários sobre “O voo do Pássaro-sol Palestino: elementos para uma visão geral do colonialismo na Palestina

  1. Esse é um texto tão unilateral como os chamados discursos sionistas. Como não se admitir que o Islã foi e é expansionista? É só olhar a história. Por menos que se goste das Cruzadas é preciso lembrar que elas foram precedidas pela grande expansão muçulmana a partir dos últimos séculos do primeiro milênio da era cristã. Eles conquistaram vastas regiões do norte da África e do sul da Europa. E não foi uma conquista cultural, foi pela espada. O Islã também fez e faz escravos ( é só ver o que há anos ocorre no Sudão). Outra coisa, durante a atual crise dos palestinos, por que não vemos grandes e ricos países muçulmanos ( Irã, Arábia Saudita, Emirados, etc.) oferecendo asilo e territórios aos Palestinos? Por que se limitam apenas ao discurso de que Israel precisa ser destruído? Não somos sionistas mas também não somos tolos.

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