Árabes – os filhos do deserto: elementos para uma visão sobre o mundo árabe

YASSER JAMIL FAYAD *

JAMIL ABDALLA FAYAD **

NAB04 NAPLUSA (CISJORDANIA) 22/09/2011.- Niños palestinas corean consignas contra el presidente estadounidense, Barack Obama, mientras ondean banderas palestinas durante una manifestación en el campo de refugiados de Al Fara cerca de la ciudada cisjordana de Naplusa hoy, jueves 22 de septiembre de 2011. La diplomacia internacional negocia hoy la manera de que israelíes y palestinos vuelvan a las conversaciones directas en la víspera de que la ANP presente su solicitud oficial para que Palestina se incorpore a la ONU. EFE/Alaa Badarneh.

A península arábica não possui rios cruzando-a, não existem florestas, o deserto entre a parte central e parte mais fértil na costa do Oceano Índico, não possui oásis e rios perenes. Naquela época, Meca não possuía agricultura própria para seu sustento, pois a água permitia somente o assentamento de pessoas. Desse cenário surge a necessidade do comércio, da caravana, da peregrinação, do encontro com o “outro”, que nada mais foram que vasos ligando e alimentando esse corpo milenar. Dessa nutrição rica de Ásia e África é que o acúmulo civilizacional se desenvolve no ponto cego dos olhos de Europa.

O deserto é a geografia que define o árabe restrito e povoa o íntimo do moderno, ainda que a maioria dos árabes nunca o tenha vivido. É a imensidão indomável que não se subordina nem se submete, que é simples e sua beleza é sua força terrível de exigir que a vida nele se assemelhe a si. O árabe é o humano desse deserto que compreende a constante mudança das areias, das fontes de água intermitentes, das possibilidades. A solidariedade entre os que nele sobrevivem é essencial à vida, formando a base objetiva da sociabilidade, que tanto unifica como rivaliza, “tribaliza” os comuns, pois essa geografia não é capaz de sustentar grandes contingentes humanos, mas também não permite o individualismo, pois sozinho o deserto lhe engole.

O camelo é a nau do deserto – Que os poetas façam Odes a ele! – sua importância para os árabes restritos sedentários e beduínos é incalculável! A mobilidade comercial e militar, a boa velocidade, a imensa rota que ele é capaz de percorrer entre os desertos sem necessidade de água, a força descomunal, o olhar de quem não teme o deserto: foi através dele que os árabes construíram sua supremacia de terreno. Os desertos se amam, suas areias como tal, se conjugam em toda a região da península arábica ao crescente fértil, do Maxerreque ao Magrebe, da Ásia central ao crescente fértil tudo se conecta com pequenas intersecções de biomas semelhantes a savanas. Essa é a grande rota dos árabes e seus camelos, foi essa a estrada que edificou a Civilização das areias.

O Islã é uma das chaves do Oriente próximo, sua evolução e ascensão são indissociáveis da invenção do mundo árabe moderno. É preciso ter clareza que ele não foi um fenômeno stricto sensu religioso, foi um fenômeno político – social – econômico – cultural novo em seu tempo, transfigurando a sociedade árabe de então, dando unidade linguística, uma escrita com caracteres próprios e fixos – o árabe clássico definido pelo Alcorão, uma unidade política e militar com o Profeta e Seus Aliados próximos. O Islã é fruto da cultura árabe restrita que deu coesão e direção ideológica as tribos peninsulares para o movimento de expansão fulminante que engoliu outros povos e mastigou-os, digeriu-os e remontou-os a sua semelhança. A língua árabe é o Islã.

A historiografia ocidental e árabe islâmica oficial coincide em tratar os árabes do período pré-islâmico com um olhar negativo. Para o Islã, que se afirmava era compreensivo essa negação do passado, chamando-a de “Era da ignorância”, pois ele próprio queria superá-lo. Já no caso Europeu, tratava-se da repetição do olhar negativo sobretudo o que não é espelho ou que não lhe tem serventia de uso. Apesar de pouco documentado, esse período nada teve de pobre, primitivo, pelo contrário, foi rico em poesia, literatura oral, nele se forjaram as condições subjetivas e objetivas para o salto qualitativo do período do surgimento do Islã. A caravana do comércio e da peregrinação alimentou os árabes pela boca e também o espírito. Além das trocas comerciais habituais nesses encontros se trocava conhecimentos, saberes, artes, culturas, pessoas das mais diversas fontes eram recebidas nesse mundo pré-islâmico. É provável que até mesmo o último profeta Muhammad (que a paz e a bênção de Deus estejam sobre ele) tenha antes da Revelação conhecido outras culturas, como mercador que foi.

A primeira vitória do Islã foi sua habilidade de coesão tribal, nesse mundo árabe restrito, o tecido social era demasiadamente fragmentado para uma expansão que necessitava de uma coordenação política e militarmente centralizada. Somente pela cosmovisão religiosa e pela habilidade política de Muhammad e seu grupo (que a paz e a bênção de Deus estejam sobre ele e seus companheiros) que os árabes deram um salto qualitativo de um mundo restrito a península arábica ao gigantesco domínio que ligava três continentes.

Essa sociedade árabe restrita já não tinha como expandir-se geograficamente, já não podia manter-se em si mesma, seu comércio necessitava de novas rotas e controle sobre outras. Sob uma conjuração única, os árabes restritos criavam unidade e visão de mundo comum (“Assabiyah”, conceito de Ibn Khaldun), para saírem de si num momento em que os Persas e Bizantinos estavam fracos. No processo de expansão dos árabes sua dominação não se apresenta como “estranha”, “estrangeira”. Eles não hostilizam o vencido militarmente, não estupram, não violam cemitérios ou templos (em especial, cristãos e judaicos), não forçam pela violência a conversão religiosa… rapidamente criaram canais de absorção do conquistado… uma extensão da hospitalidade árabe, da curiosidade mercantil pelo outro… a islamização era antessala da arabização – processo de desfazer e refazer os povos conquistados em árabes modernos. É nesse processo complexo que os palestinos de outrora se transfiguram etnicamente em árabes.

Os árabes desenharam um processo civilizacional distinto do fluxo majoritário ocidental em sua forma e conteúdo, de longo fôlego, de longa extensão territorial (Espanha a China). Foram capazes de se deparar com culturas e conhecimentos mais sofisticados do que possuíam, sem negá-los ou destruí-los pela força cega, nem absorvê-lo mecanicamente, ou seja, não foram um furacão que apenas passa e deixa rastro de destruição, nem tampouco cultural e politicamente foram vulneráveis a deixarem de ser si mesmos diante dos Impérios que absorveram. A conversão ao Islã foi encorajada e ligada à alfabetização do idioma da revelação divina. O controle das grandes rotas comerciais, das cidades polos desse comércio exigia uma capacidade maior do que a mera pilhagem – a sedimentação externa ao território da península os moldará num novo árabe (2º Grande salto qualitativo). A cultura árabe forjou-se aberta a influências, a “umrãn” é a comunidade em construção permanente (conceito de Ibn Khaldun), com uma capacidade única de novas sínteses, de sincretismos ricos em todos os campos (incluso religioso), destruindo, construindo e reconstruindo a si mesmo e ao outro como continuidade da cultura árabe – com a ambição de ser a melhor síntese de todas as culturas e conhecimentos. Seus valores, sua religião, sua unidade deram a eles a posição orgulhosa de si o suficiente para não abdicarem da sua própria identidade étnica, souberam enriquecê-la, tricotaram novos pontos seguindo a orientação base da trama da cultura árabe restrita: fizeram um novo tecido sócio-étnico-cultural, nascedouro de um novo árabe!

Se por um lado a flexibilidade, a capacidade de adaptação, de absorção dos árabes em expansão mostrou ser seu grande trunfo em distinção a Marcha europeia, por outro lado deixava claro as fraquezas de uma instabilidade política do Império que se erguia. Esse tecido social que se formava era gelatinoso e heterogêneo, sem um esqueleto capaz de lhe dar estabilidade – papel cumprido pela instituição Igreja na experiência europeia – desde a morte do profeta Muhammad (que a paz e a bênção de Deus estejam sobre ele), as cisões políticas já começavam aparecer e se traduziam em distinções religiosas, seitas e facções. A falta de intuições que dessem continuidade histórica é um dos grandes dramas do mundo árabe – sempre que esse ensaiou uma tentativa… essa falhava.

O nascimento étnico do árabe se faz na península arábica. Ele é o sujeito de uma civilização que dialoga com o outro, curiosa sobre as diferenças, habilidosa ao lidar com elas, mas que até então jamais saíra de si. Essa civilização se unifica com o Islã – seu Profeta encarna a liderança desse movimento que não está voltado para si mesmo, que quer se expandir pelo mundo conhecido e além. Esse é o árabe acordado de um sono de 2 mil anos (1º Grande salto qualitativo) – acordado, pois vê sua coesão, visão comum e unidade como força (“Assabiyah”). Esse árabe, que engole as demais civilizações e as digere transformando-as, (re)significando-as, em uma nova configuração, que dá novo conteúdo étnico a si mesmo e aos outros, que arabiza… vencendo seu sentido “restrito”, do qual o grande califado dos  Omíadas foi sua maior expressão política… e realizou o 2º Grande salto qualitativo – o nascimento do árabe moderno, do qual o califado dos Abássidas são o romper.

As Cruzadas são a resposta europeia à ascensão do Islã/árabes. O elevado grau de violência usado pelo invasor branco foi algo não esperado pelos árabes islâmicos, como os relatos dos cronistas deixam claro. Essa atonicidade deu-se em decorrência das relativas boas relações com que os mulçumanos, cristãos e judeus mantinham sob domínio islâmico, em especial na Palestina. Desde a chegada do califa Omar (que a paz e a bênção de Deus estejam sobre ele), a Palestina é declarada uma “waqf” (terra de Deus) e esse decreto é irrevogável até o Juízo Final na lei islâmica (“Sharia”), ou seja, os mulçumanos não se entendem senhores da terra sagrada, mas apenas seus guardiões – a terra é de todos os crentes em Deus. A primeira resposta árabe a essa horrenda agressão foi a negociação sob a pressão e o medo. A segunda resposta é fruto da unificação política e militar no período de Saladino, que era capaz de “destruir” com facilidade os cruzados, mas não o faz, prefere a negociação sob outra relação de força. A terceira resposta é a violência aberta dos mamelucos para expulsar o invasor incapaz de viver com a diferença altiva do outro.  A Civilização árabe nunca quis destruir o outro, mesmo os agressores de Europa – ela não se forjou assim, não pertence a seu ímpeto essa modalidade de encontro.

Sunitas versus Xiitas é a versão hollywoodiana pobre e podre para tudo que acontece no Oriente próximo e no Mundo islâmico. Quer esconder a luta encarniçada entre os imperialistas e seus aliados, dos quais Israel é cão fiel e a elite Saudita a odalisca preferida, contra as forças heterogêneas contrárias.

A Causa Palestina pode ser tomada no sentido de “potência acumulada”, essa há muito vem sendo alimentada pela sua própria práxis que desvendou o Império, Israel e seus tentáculos, as elites árabes, a solidariedade das esquerdas e dos povos do mundo inteiro, podendo assim se (re)encontrar com aquele ímpeto que tomou o mundo vertiginosamente e criou momentos civilizacionais ímpares para humanidade (Califado Al-Andaluz, Bagdá dos Abássidas, o encontro com Índia (Taj Mahal), com China, com África no Mali, etc.). Nesse sentido, a Causa Palestina contém em si, potencialmente um novo “momentum” desse árabe que se (re)fará como há 1500 anos num novo projeto de homem e de sociedade – Um Grande salto mais ousado do que o primeiro e segundo descritos – um salto para uma sociedade socialista e árabe.

* YASSER JAMIL FAYAD é graduado em Medicina (UFSC), residências médicas em Pediatria (HU/UFSC) e Infectologia pediátrica (HCRP/USP), militante do Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani.

** JAMIL ABDALLA FAYAD é graduação em Agronomia (UPF), mestrado em Fitotecnia (UFV), militante do Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani.

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