“Exerção”

LUIZ ROBERTO EVANGELISTA*

“…E o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…”
(Carlos Drummond de Andrade, “A Mesa”)

Depois de concluir o curso primário no Anita Garibaldi, fui admitido como aluno no João XXIII, separado do primeiro por uma improvisada parede de madeira compensada, atravessando em diagonal um longo corredor. As duas escolas, como sabem os que habitam minha cidade, faziam parte de uma única construção, nos limites formais da Vila Operária (Maringá-PR).

Na década de 1960, no Brasil, para quem saísse do curso primário e desejasse entrar no ginasial era necessário um exame: o famoso Exame de Admissão.

Era um exame complicado, pesadelo para muita gente, obrigada a estudar português, matemática, história do Brasil e geografia. Quem não fosse aprovado e não quisesse desistir teria de cursar o quinto ano, trampolim recentemente inventado, humilhação para muitos; os alunos daquele ano eram vistos como os que nem haviam tentado o exame por serem alunos fracos, ou como os que o haviam tentado, mas não conseguiram a vaga. Em palavras cruéis, como são as dos meninos, era a série dos fracos ou dos fracassados.

“É sempre assim: quando chega a nossa vez, alguma coisa acontece”, foi o que pensei quando, depois de ter superado o exame com alguma facilidade, fiquei sabendo da existência de uma taxa de matrícula para o Ginásio – algo muito estranho em uma escola pública de periferia. Era uma taxa salgada para a minha família, de finanças sempre precárias. Um ano depois, suprimiram-na. Nunca soube a razão daquela exigência não usual; um segundo pesadelo para os alunos mais pobres e para suas famílias. Certamente, um pesadelo para a minha mãe, a Dona Irma.

Quando lhe dei a notícia, voltando da Escola com uma ficha de matrícula em branco para que assinasse, ela quis saber mais. Conversou com as vizinhas, mães em situação parecida, e ficou ainda mais angustiada. O que fazer, se o dinheiro era curto e a taxa nada tinha de simbólica?

Ela provavelmente não dormiu naquela noite e, bem de manhã, vestiu a sua melhor roupa – que não era lá grande coisa – e, depois de me arrumar também, tomando-me pela mão, levou-me à Escola com aquele passo decidido e nervoso que sempre a caracterizou. Outras mães tiveram a mesma ideia, embora a maior parte, mesmo a duras penas, esperasse conseguir o dinheiro para a matrícula. A minha não esperava, e quis falar com o Diretor.

Um professor de origem espanhola, bem alto, que depois seria nosso professor de ciências. Eu me lembro bem dele, tenho dele boas recordações. Era um homem educado, mas atendeu à minha mãe em público. Aquela senhora, de poucos estudos, neta de imigrantes italianos, agricultores como ela, e como ela acostumados a pegar no pesado desde cedo, no meio de tanta gente, disse ao Diretor que não podia pagar a minha matrícula, que queria “exerção”.

Ela disse, claramente, “exerção”, assim mesmo: ela queria a “exerção” da taxa para a minha matrícula.

O Diretor a entendeu perfeitamente, mas a corrigiu, obviamente em voz alta, explicando-lhe que o “certo” seria dizer “isenção”: “I-sen-ção, minha senhora”, escandiu bem para que ela – pobrezinha – aprendesse a pronunciar corretamente a palavra mais importante naquele momento.

A Dona Irma não se perturbou; não sentiu (como eu senti) que aquela correção fosse humilhante. Ela estava bem mais acostumada a outras humilhações, que tinham sido e seriam depois a tônica de sua vida. Aquilo nem a fez hesitar; ela insistiu no pedido. E o Diretor, aborrecido, a contragosto, visivelmente irritado com o rumor produzido pelas muitas mães e seus filhos pré-adolescentes falando ao mesmo tempo, lhe disse que nada podia fazer, que era uma norma da Escola.

Acrescentou, perguntando-lhe: “Se todos devem pagar, por que a senhora está pedindo isenção para o seu filho? O que ele tem de diferente dos demais?”

Ela respondeu, pronta e orgulhosamente – e disso eu espero me lembrar para o resto da vida:

– Porque o meu menino é bom aluno e eu não tenho dinheiro. O moleque gosta de estudar!

Ela, que de escola entendia muito pouco, intuía, sabia por instinto que o “moleque” devia estudar porque gostava, porque era dedicado, e que dependia dela, de sua firmeza, a vida futura do seu menino, cuja vida presente ela salvara há pouco tempo, carregando-o, aparentemente morto e às pressas, a um hospital, onde também terá pedido, e conseguido, a “exerção” para um atendimento de emergência.

O hospital da minha infância era a Santa Casa, e o responsável pela “exerção” fora seguramente o Irmão Diretor, acostumado a atender aos pobres diabos que lhe pediam ajuda, sacrificando a saúde financeira do hospital para fazer jus ao voto que fizera ao deixar a Alemanha e vir morar na periferia do Brasil. Mas essa é outra história.

Hoje, a minha memória afetada pela emoção não me permite recuperar os pormenores do que se seguiu naquela manhã na escola, mas me lembro bem que, pouco depois, o Diretor acabou se rendendo. As notas do menino da Dona Irma não eram ruins, e aquela senhora pobre e pouco alfabetizada era ainda mais convincente; tinha uma força a que nenhum poder deste mundo consegue se opor: era mãe, e a sua cria estava precisando de ajuda.

Não era uma leoa, pois era brasileira de nascimento e não era arrogante; não era uma tigresa, pois essa imagem não se coadunava com a sua austeridade quase monástica e, àquela época, a língua não permitiria o uso dessa forma para a fêmea do tigre; talvez fosse mais parecida com uma onça, como fora chamada algumas vezes, por se menor e por causa da sua força e da cor de algumas manchas em sua pele. Se estivesse viva, provavelmente ela diria, com aquele seu olhar meio vago e com o queixo tremendo: “Vê lá se uma taxinha de matrícula ia deixar o meu menino fora da escola!”

E foi assim que eu entrei para o Ginásio.

Essa história eu gosto de contar a mim mesmo e a uns poucos, educados ou piedosos, que pacientemente a escutam e, inevitavelmente, me veem invadido pela emoção ao final. Uma emoção que se renova com o passar dos anos e que, desconfio, será sempre mais intensa daqui para a frente.

Eu a estou invocando hoje porque acaba de chegar em minhas mãos, impresso, um livro muito especial, que escrevi com a ajuda de um grande e competente amigo. Um livro científico que parece de gente grande, publicado por uma casa prestigiosa; uma obra de grande fôlego, fruto de um trabalho enorme: muito tempo despendido, muita teimosia, muito cansaço e muita fé. Durante a sua redação, acreditávamos compor uma espécie de testamento científico, uma suma dos trabalhos de nosso grupo, para a posteridade. A obra será irrelevante, por certo, mas representou um desafio que afrontamos com muita diligência.

Quando recebi o pacote há poucos dias, eu o abri, tomei o primeiro exemplar e o cheirei; e depois eu o folheei várias vezes. E então eu o cheirei de novo, passando rapidamente as folhas. Logo, tive de me afastar da pessoa que gentilmente me entregara a encomenda, pois me invadia um sentimento difícil de descrever, que ancor non m’abbandona. Eu não pude conter algumas lágrimas.

Aquelas lágrimas não foram derramadas por causa do livro em si. Digo-o porque já “cometi” outras obras antes dessa e posso dizer que, para mim, é sempre uma grande emoção receber, pela primeira vez, uma obra quando sai do forno, novinha, e levá-la diretamente às narinas. É, aliás, um bom motivo para escrevê-las.

Mas ao receber esta última, fui assaltado por outra coisa, por aquele sentimento indescritível, e pensei na Dona Irma e no dia memorável da “exerção”.  Não pude evitar e pensei que aquele fruto maduro do trabalho insano de dois físicos teóricos, ou seja, de dois desajustados socialmente, também tinha o dedo do menino para quem ela conseguira a “exerção”. Ao menos a parte do trabalho que cabia ao seu menino era obra dela.  E, assim, eu desabei.

De Dona Irma eu herdei o amor pelo rádio; dela, que gostava de notícias, de horóscopos, de radionovelas e, sobretudo, de música. E de música de orquestra, como ela mesma dizia, quando se referia a um determinado tipo de orquestra que fazia um tremendo sucesso nas décadas de 1950 e 1960 pelo mundo afora.

Pouco tempo antes de sua partida deste estranho mundo, em minha casa, enquanto esperávamos um almoço, usando as facilidades do mundo da Internet, eu a convidei a revisitar alguns desses seus “clássicos” orquestrais – que para mim recriavam a infância, sobretudo por ouvi-los em sua companhia, em meio aos livros que ocupam boa parte do espaço de minha casa. Ela se surpreendeu com a facilidade com que podiam ser encontradas essas músicas do passado. Mesmo assim, muito triste e com o olhar pensativo, me pediu que não procurássemos mais nada, que não teria condições de ouvir: traziam-lhe recordações dolorosas, de um tempo de felicidade, das muitas pessoas que ela tinha amado e perdido.

Agora que ela se foi, todas essas pequenas histórias podem dar a impressão de banalidade, de descrever alguma coisa corriqueira. E é bem possível que assim o seja. Eu não posso pretender que as histórias de minha infância interessem a outras pessoas além de mim. No entanto, eu preciso contá-las; registrá-las para que não se percam, enquanto assisto o declínio inevitável de minha memória; eu preciso registrá-las para, quem sabe, lê-las ou ouvi-las mais tarde, se eu for brindado com os anos suplementares com os quais estou contando.

Consolo-me pensando que provavelmente o esforço da Dona Irma não tenha sido em vão. Embora nunca tenha aprendido a fazer nada de mais concreto, o menino dela continuou estudando e continuou ouvindo rádio, apesar de todos os meios inventados depois.

Foi, aliás, usando um desses meios que há poucos dias ouvi a Meditação de Thaís, de Massenet – interpretada desta vez por uma grande orquestra sinfônica. Era a música que ouvíamos depois do programa Por um Mundo Melhor, de nosso Bispo, que o encerrava invariavelmente citando Pio XII, exortando-nos a sermos pessoas melhores: “O mundo será melhor, quando eu, quando você, quando todos nós formos melhores”.

Esse grande sucesso da radiodifusão maringaense de então era acompanhado pela Dona Irma, todos os dias da semana. Estou certo de que ela o acompanhava na esperança de que o mundo se tornasse um lugar melhor para os seus filhos e para os filhos dos seus filhos, como é mister das mães esperaram. Acho mesmo apropriado dizer, em sua honra, que ela esperava um mundo bem melhor do que aquele seu; um mundo em que a “exerção” fosse a regra natural para os pobres; ou melhor, um mundo em a “exerção” não fosse mais necessária: talvez um mundo no qual nem pobres mais houvesse.

* LUIZ ROBERTO EVANGELISTA é brasileiro de nascimento, de origem italiana (Molise e Lombardia), é professor titular de física teórica no Departamento de Física, Universidade Estadual de Maringá (lre@dfi.uem.br). É pesquisador do CNPq na área de fluidos e sistemas complexos, e trabalha com problemas de física teórica, desenvolvendo pesquisa no campo dos cristais líquidos (teoria elástica e efeitos de superfície) e da mecânica estatística, com a descrição teórica dos fenômenos de difusão anômala, por meio das equações de difusão fracionárias. Autor, junto com o prof. Ervin Kaminski Lenzi, da obra  Fractional Diffusion Equations and Anomalous Diffusion (Cambridge: Cambridge University Press, 2018).

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6 comentários sobre ““Exerção”

  1. Prezada Baruana, muito obrigado por seu comentário. Sou eu quem deve agradecer o apreço e a atenção que você dispensou ao texto. Mesmo tendo perdido muitas das ilusões, e as ilusões são – assim me parece – quase todas sempre perdidas, continuo a esperar por um “mundo melhor”. Luiz Roberto

  2. Parabéns à Dona Irma, por todos aqueles gostos da infância, que ajudaram o filho a desenvolver esse maravilhoso talento de contador de historias. E’ um presente que a gente vai recebendo, à medida que lê e se emociona com essa bela homenagem prestada à admiravel Mae Coragem que foi a sua. Parabéns, Professor.

    • Prezada Regina, fiquei muito contente com o seu comentário. É um exercício novo para mim – esse da escritura de “crônicas” (sobretudo versando sobre a minha vida!). Muito obrigado pelo seu tempo, por seu apreço e por suas generosas palavras.

  3. Prezado professor Evangelista!!!

    Também me emocionei com o seu depoimento. Ele diz muito mais do que os artigos acadêmicos, pois nos abre para os contextos. São nos contextos que podemos tirar lições fundamentais para a vida. Infelizmente, nem todos possuem a generosidade de compartilhar os contextos de sua trajetória com seus semelhantes. Seu depoimento demonstra grandeza de alma e espírito! Lembro-me com saudades de suas aula de Filosofia da Natureza, no inícios dos anos 2000. Saiba que ainda carrego uma corda e não desisti de procurar aquele cristão que você mencionava.

    Um grande abraço,
    Jonas Jorge

    • Prezado Jonas, que agradável surpresa! Faz tempo: não tive mais notícias suas e foi com alegria que li o seu comentário. Muito obrigado, de coração pela mensagem e pelas palavras generosas. Eu também continuo a procurar aquele único cristão; tinha alguma secreta esperança no espelho, mas já me desiludi. Um forte abraço. Luiz

  4. Professor, que depoimento lindo. Obrigada por escrevê-lo e compartilhá-lo. Certamente, histórias como esta são de interesse a que se engaja na luta contra as desigualdades, tão necessária! Grande abraço e que orgulho de Dona Irma!

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