Hospital público – uma experiência pessoal

REGINA M. A. MACHADO*

Meu filho tinha que extrair os quatro dentes do siso, e, com todas as dificuldades causadas pelo autismo, tem medo de tudo que possa ameaçar sua integridade física, mesmo no plano imaginario.

A dentista nos tinha orientado para uma clinica particular, grande, bem organizada, seca, globalizada como numa série de TV. Consulta com o cirurgião, formalmente cordial, superficialmente pedagógico, instalado atrás de uma grande escrivaninha. Consulta marcada com o anestesista. Este, face ao medo e resistências de A., impediu a cirurgia, dizendo que ele tinha o direito de recusar a hospitalizaçao ou a cirurgia. “Na França, dizia ele com orgulho, “nao se obriga ninguém a ser operado”. Voltamos à dentista, que confirmou a urgência da intervençao e a resposta do anestesista. Apesar disso, ela nos obteve uma segunda consulta na clínica, com outro anestesista. Este, meio escondido atras de um leptop aberto, ficou com medo do medo que ele próprio suscitou em meu filho, realmente mais forte do que ele, além de mais bonito de sua dourada mestiçagem que parece ter absorvido a luz de todos os genes espalhados pelo mundo.

Tentamos o hospital universitário de Nantes, mas este so tinha consulta para um ano e meio mais tarde. Além disso, uma amiga em tratamento por câncer na região parisiense, tinha ficado muito mal impressionada com a sujeira de um hospital público nos arredores de Paris. Mas, como nao tinha outro jeito, fiz uma tentativa no hospital regional da Vendeia, onde moramos. A acolhida e o cenário da consulta ja foram bem diferentes: o paciente numa confortável poltrona de dentista no meio do consultório, o médico numa cadeira mais baixa e a conversa fluindo. De igual para igual, com calma, com o contato se estabelecendo e a confiança se afirmando. Meu filho riu, entendeu e acreditou nesse médico.

Uma semana depois, a indispensável consulta com o anestesista, desta vez um rapaz calmamente objetivo, simplesmente organizado. Operação marcada para a semana seguinte.

Normalmente, a entrada no hospital para cirurgia é às 7h30 da manha. Porém, três dias antes, a enfermeira da cirurgia ambulatória ligou, ja com o cronograma do dia e informando que A. poderia entrar às 10h30, para nao ter que esperar demais. Para nós, um alívio, pois não moramos na mesma cidade que o centro hospitalar.

Na chegada, tudo muito bem indicado, na entrada do grupo cirúrgico uma auxiliar de enfermagem nos guiou até um quarto individual, limpíssimo, funcional, simples e agradável. A enfermeira chegou com um questionário, confirmou dados, diagnóstico, histórico de saúde, confirmou que tínhamos vindo para uma cirurgia dentaria, quais dentes, etc. Tudo com cordialidade, paciência, objetividade. Como meu filho queria encompridar a conoversa, ela nos disse que tinha ainda muitos pacientes para atender. Nao sei se existe sobrecarga de trabalho para eles, mas é evidente que ninguém tem tempo a perder.

Enquanto esperávamos, eu me distraí e sentei na beira da cama de A. para conversar com ele, mas os lençois e coberta descartáveis e esterilizados me fizeram levantar num pulo, envergonhada, tanto mais que ele foi levado nessa mesma cama para o bloco operatório. Fiquei rezando para nao ter trazido da rua algum micróbio perigoso.

Fui dar uma volta, pois o quarto é pequeno e sem janela, não dá vontade de ficar muito tempo lá dentro. Umas três horas depois, outro auxiliar veio me chamar para ir com ele buscar A. no bloco, ja acordado, tranquilo.

A recuperação foi rapida, ontem fomos a uma última consulta de controle, ouvimos os conselhos para mais alguns dias sem comer pipoca e continuando com os bochechos, mas está tudo bem.

Dedico este relato a uma jovem amiga, médica num hospital público no Rio de Janeiro, e a todos os profissionais que se esforçam por preservar a saúde pública no Brasil.

* REGINA M. A. MACHADO é pesquisadora associada ao CREPAL; autora de tese sobre a ficção das fazendas de café escravagistas no vale do Paraíba disponível em https://tel.archives-ouvertes.fr/tel-01086733

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4 comentários sobre “Hospital público – uma experiência pessoal

  1. EXCELENTE ARTIGO. SIMPLES CLARO E OBJETIVO. NECESSÁRIO PARA TODOS OS QUE OR PRECONCEITO ACHAM QUE O PARTICULAR E MELHOR QUE O PÚBLICO!!!

    • Que bom que em ao menos alguns lugares do mundo a saúde pública funciona! Bom exemplo para nós. O artigo é muito bem escrito, claro e objetivo.

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