EMILLY GABRIELA MENEZES FRANCO*
Durante muito tempo, pensei no assunto e em como eu escreveria. Afinal, este é um tema extremamente complicado. Entretanto, não pisarei em ovos aqui, pois sei muito bem a quem incomoda e para quem estou escrevendo — que são justamente categorias de pessoa opostas.
Como surge uma mulher? Para alguns, no dado momento da fecundação do óvulo que leva o cromossomo X com o espermatozoide igualmente X. Permito-me citar a frase que polemizou na prova do Exame Nacional do Ensino Médio de 2015, da filósofa Simone de Beauvoir:
“Ninguém nasce mulher. Torna-se.”
Torna-se mulher não porque, segundo interpretações simplórias — e que certamente não conhecem a obra extraordinária da referida autora — , qualquer um pode nascer, então, outra coisa que seja e tornar-se mulher através de uma cirurgia de redesignação, por exemplo.
Isso porque Beauvoir em momento algum de sua obra disse que a mulher em potência é em ato necessariamente uma fêmea. E tal afirmação incomoda. Incomoda tanto porque é pertinente!
Da construção de uma mulher, desde seu nascimento — e agora me referindo à fêmea — é marcada por rigorosas fases cheias de regras para a formação de sua feminilidade. Se, de fato, nascêssemos mulheres, por que seria necessário uma cadeia de costumes tão intensos para instituir papéis de gênero, quando eles seriam, em tese, intrínsecos? Justamente porque não o são.
Desde o ventre materno recebemos designações de gênero. Os objetos, vestimentas e preferências são escolhidos por pessoas próximas desde antes mesmo de compreendermos o que é ser homem ou mulher. As crianças não se diferenciam entre si até aprenderem a assim o fazerem, seus comportamentos são moldados de acordo com o perfil daqueles que um dia também não eram coisa alguma.
De fato, por reproduzirmos comportamentos semelhantes entre si, inicialmente se dá a impressão de que somos o que somos por simplesmente sermos. Todavia, a designação está presente e ela é explícita. Caso não existisse, o garoto não sofreria represália por apresentar “comportamento feminino” e a garota não seria reprimida até internalizar o seu dito papel.
Não tão somente a fêmea que se torna mulher é inferior como também qualquer um que manifeste características do grupo, sejam estes(as) designados(as) aos papéis ou incorporados posteriormente. Porque o comportamento feminino em si é frágil, irresponsável e impulsivo, porque a fêmea não pensa como um homem construído, com a razão, mas sim através de seu temperamento instável. É destino delas ser “menos”, ao passo de que é reprovável a incorporação de elementos de tais indivíduos. Nascer homem é nascer forte, decidido, desafiador; não faz sentido atribuir-se como o Outro, portanto.
À mulher são destinadas duas facetas opostas: a de inferiorização e idealização. Porque ela é menos capaz, menos racional e menos competente, mas ao mesmo tempo adorável e admirável — quando faz aquilo que lhe cabe, é claro.
Seu destino, sua aparência e suas escolhas não são exclusivas à sua vontade. É direito seu estudar e ter uma posição de importância, desde que não seja mais que seu marido. É permitido que se vista como quer, desde que não provoque aos homens ou que pareça desleixada demais. É permitido que alcance sua independência, desde que sobre espaço para a maternidade e para se estabelecer como esposa. Não importa quão bem-sucedida alguém se considere, ela nunca será o bastante se não alcançar o seu destino como mulher.
E se for qualquer mulher que não cis ou hétero, nunca será feliz, pois seus relacionamentos sempre serão baseados em desejo carnal, adultério e instabilidade. Porque sempre uma das duas há de ser “o homem da relação”, a trans nunca será uma “mulher de verdade” porque não foi designada a ser uma, porque não existe o Outro, o segundo gênero, sem o seu primário. Não existe mulher sem homem porque a construção da mulher se dá a partir da complexa definição do que é um homem. Porque a mulher sempre estará incompleta se não houver sua antítese. Para a sustentação de uma mulher há sempre uma figura masculina, seja consanguínea ou matrimonial.
É a partir daí que se constrói a ideia de que a segurança da mulher depende do homem, que por acaso protege-a de outros homens. Porque ela é frágil e precisa de um porto seguro. O mito da fragilidade feminina em todas as circunstâncias é sustentado pela ameaça que a própria figura masculina impõe através da violência, seja ela sexual, física ou psicológica. O motivo disto está na naturalização da violência na formação masculina, no homem como figura ativa e a mulher como sujeito passional. As exceções não são nada além uma confirmação à regra, já que são consideradas desvios de um padrão que deve ser seguido.
A antropóloga Margaret Mead, em sua obra Sexo e Temperamento, estuda sociedades que diferem do ocidente, trazendo-nos conclusões fantásticas sobre tribos da Nova Guiné, em especial os Tchambuli, que possuíam padrões de gênero completamente diferentes dos atribuídos por nós como naturais, apresentando homens como criaturas passivas e emocionais, enquanto mulheres eram agressivas e dominantes.
A historiadora Joan Scott, por sua vez, em seu artigo “Gender and the politics of history” traça um parâmetro de que as mulheres participaram ativamente da confecção dos momentos históricos, mas que, entretanto, elas não aparecem como figuras importantes na produção dessa história. E, quando aparecem, é de forma paralela à “história principal”, ou seja, sua participação é reconhecida, porém descartada do enredo principal: cabe a ela uma “história da mulher”, mas não um espaço na história do mundo.
É fato que padrões de gênero existem e que eles são seguidos. Entretanto, como a própria Beauvoir notou, não há quaisquer argumentos que comprovem que tais características são definidas de forma inata, ou ainda que não deveriam ser questionadas mesmo caso fossem.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida (vol. II). São Paulo: Nova Fronteira, 2016.
MEAD, Margaret. Sexo e temperamento. Brasil: Perspectiva, 2000.
SCOTT, Joan. Gender and the politics of history: Tradução de Christine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila. New York: Columbia Unive Rsity Press, 1989. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/%20185058/mod_resource/content/2/G%C3%AAnero-Joan%20Scott.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2018.
* EMILLY GABRIELA MENEZES FRANCO é graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).


Vixe, que artigo bom! O “prazer do texto” (Barthes) ta ai inteiro, e o “prazer de pensar”,(Chaui), entao, nem se fala!
O incipit é instigante, da vontade de ler o que vem depois; o miolo é denso e informativo, e a vontade de continuar a leitura aumenta. O final é pertinente e entusiasmante, e abre para outras leituras e horizontes.
Parabéns e obrigada pelo prazer e aprendizado na leitura do seu texto.