Marx e a revolução

MICHEL GOULART DA SILVA*

Não são raras as interpretações que apontam para uma natureza teleológica do marxismo, afirmando que, para essa corrente de pensamento, a revolução socialista seria um processo a ocorrer de forma brusca. O Manifesto Comunista seria um dos principais exemplos que expressam essa teleologia marxista, na medida em que a maior parte das leituras realizadas acerca dessa obra afirmam que os autores previam para breve o fim do capitalismo. Mas, nessa obra, de forma geral, a “iminência” da revolução que derrubaria o poder da burguesia é perceptível apenas ao final, quando se afirma:

É sobretudo para a Alemanha que se volta a atenção dos comunistas, porque a Alemanha se encontra às vésperas de uma revolução burguesa e porque realizará essa revolução nas condições mais avançadas da civilização europeia e com o proletariado infinitamente mais desenvolvido que o da Inglaterra no século XVII e o da França no século XVIII; e por que a revolução burguesa alemã só poderá ser, portanto, o prelúdio imediato de uma revolução proletária.[1]

Nos capítulos anteriores, além de levar ao público pela primeira vez de forma sistemática conceitos fundamentais do materialismo histórico, como “relações de produção” e “meios de produção”, os autores demonstram a existência de um antagonismo de classes na sociedade capitalista. Traçando comparações entre as formas de exploração do trabalho em outros momentos históricos, como no sistema escravista da Antiguidade ou o feudalismo medieval, Marx e Engels apontam a história das lutas de classes como a “história de todas as sociedades até hoje existentes”.[2] Em sua análise do capitalismo os autores demonstram a contradição entre a exploração capitalista e a luta do proletariado, que tem como pano de fundo as contradições das relações de exploração capitalistas, estrutural ao próprio sistema.

Marx e Engels apontam que essas contradições não são eternas, ou seja, chegaria um momento em que o proletariado derrubaria o poder da burguesia e construiria um Estado proletário. Contudo, como os autores mostram em seu texto, o capitalismo é dinâmico e tende a encontrar formas de superar suas crises. Marx e Engels também apontam que a derrubada do capitalismo não seria um produto natural da luta antagônica da burguesia contra o proletariado, mas resultado da ação política organizada dos explorados. Essa ação política organizada teria um partido à frente, reunindo os segmentos mais conscientes da classe trabalhadora. O caráter estratégico que possui a construção do partido mostra talvez a principal tarefa do Manifesto comunista: apresentar uma síntese das elaborações teóricas e políticas da Liga dos Comunistas, fundada havia pouco tempo, enquanto possível direção política que poderia levar o proletariado à vitória na revolução.

O Manifesto comunista foi escrito para uma conjuntura política específica, quando a Europa se via agitada pelo fantasma da revolução:

um cataclismo econômico europeu coincidiu com a visível corrosão dos antigos regimes. Um camponês que se insurgia na Galícia, a eleição de um papa “liberal” no mesmo ano, uma guerra civil entre radicais e católicos na Suíça no fim de 1847, vencida pelos radicais, uma das perenes insurreições autônomas da Sicília, em Palermo, no início de 1848, foram não só a indicação prévia do que estava para acontecer, mas se constituíam em verdadeiras comoções prévias do grande tufão.[3]

Não era apenas da boca dos socialistas – que se dividiam nas mais variadas correntes, como mostram em certas passagens do texto Marx e Engels – ou dos comunistas que saía a palavra “revolução”, mas também das classes médias europeias e mesmo da burguesia. O continente todo esperava pela revolução e todas as classes, com seus partidos, tinham uma compreensão do processo em marcha. O Manifesto Comunista tornou públicas as posições de um desses partidos, que procurava expressar um projeto político para o proletariado. Pouco tempo depois de sua publicação, embora não sob sua influência, foram travadas na Europa grandes jornadas de lutas:

a revolução que eclodiu nos primeiros meses de 1848 não foi uma revolução social simplesmente no sentido de que envolveu e mobilizou todas as classes. Foi, no sentido literal, o insurgimento dos trabalhadores pobres nas cidades – especialmente nas capitais – da Europa Ocidental e Central. Foi unicamente a sua força que fez cair os antigos regimes desde Palermo até as fronteiras da Rússia.[4]

O processo revolucionário colocava-se contra os resquícios dos velhos regimes, ou seja, pelo aprofundamento das revoluções ocorridas nos séculos XVII e XVIII. Em 1848, contudo, esses resquícios eram defendidos pela própria burguesia, que havia se aliado aos seus antigos inimigos para estabilizar os regimes políticos e, dessa forma, governar. Ou seja, a burguesia era também um inimigo a ser derrotado pela revolução, o que explicaria a fórmula expressa no Manifesto comunista de que a burguesia, pela pressão revolucionária, seria obrigada a reformar o regime e levar adiante algumas transformações sociais e políticas, mas também viria a ser derrubada na continuidade desse processo. Essa é, de forma simplificada, a fórmula da “revolução em permanência”, sobre a qual escreveriam Marx e Engels. Enquanto os reformistas se limitavam a comemorar as eventuais vitórias parciais, os revolucionários não poderiam se contentar com essas medidas, devendo “exacerbar as propostas dos democratas, que de qualquer modo não agirão de modo revolucionário, mas meramente reformista, e transformá-las em ataques diretos à propriedade privada”.[5]

Portanto, a análise exposta no Manifesto comunista acerca da dinâmica mais iminente da revolução se mostrou equivocada, embora essa parte conjuntural do texto não supere o conjunto da análise mais profunda e de longo prazo que é apresentado. Os autores perceberam antecipadamente a amplitude social dos acontecimentos que se desenrolariam naquela conjuntura, ao analisar em toda a sua profundidade as contradições do sistema capitalista. Por isso erraram ao apontar que a Alemanha logo passaria pela revolução socialista. O máximo que houve nos Estados germânicos foi uma reforma do regime político, passando a ser mais “republicano”. Não houve uma efetiva revolução burguesa, que só viria a ocorrer mais tarde pela chamada “via prussiana”. Nessa análise específica e conjuntural, Marx e Engels tanto subestimaram a capacidade do capitalismo em superar crises quanto superestimaram as possibilidades do proletariado alemão.

Não foi o proletariado que subiu ao poder depois desses processos revolucionários. O produto da revolução europeia foi consolidação de governos republicanos, paulatinamente pondo fim aos resquícios do antigo regime. Como a “previsão” para a conjuntura específica era um fragmento marginal do Manifesto comunista, Marx e Engels, identificando as incorreções de sua caracterização, conseguiram fazer importantes balanços daquelas revoluções e intervir, por meio da Liga dos Comunistas e dos partidos operários aliados, nos processos políticos europeus subsequentes, além de deixar como legado não apenas um rigoroso método de análise para entender as contradições e dinâmicas do capitalismo, mas também referências fundamentais para as ações táticas e estratégicas das gerações de revolucionárias e revolucionários que os sucederam.

* MICHEL GOULART DA SILVA é Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Catarinense (IFC).

[1] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 69.

[2] MARX & ENGELS, 2005, p. 40.

[3] HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: Europa 1789-1848. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 332.

[4] HOBSBAWM, 1997, p. 329.

[5] MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Mensagem do comitê central à Liga dos Comunistas [1850]. ______. In: Luta de classes na Alemanha. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 74.

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