Gaiolas de ouro

Pe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

 

“Gaiola de ouro”! A imagem foi utilizada por Max Weber para traduzir a realidade do sistema de produção capitalista, onde o progresso técnico e científico concentra, ao mesmo tempo, riqueza e renda de um lado, e exclusão social de outro. Após o salto qualitativo e quantitativo da Revolução Industrial, de uma forma ou de outra e em maior ou menor grau, somos todos prisioneiros da corrida frenética e sem precedentes do produtivismo/consumismo. Para retomar as palavras da Carta Encíclica Rerum Novarum (1891), do então Papa Leão XIII, “a sede de novidades” se converte em uma espécie de choque de uma corrente elétrica que nos fulmina e nos deixa em permanente “agitação febril”, prisioneiros das gaiolas de ouro.

Construímos casas e apartamentos munidos de cercas, muros e cães raivosos, ou dos mais sofisticados sistemas de vigilância e segurança. Depois, nos sentamos em confortáveis sofás ou leitos para observar, via tela ou telinha, o mundo que, lá fora, segue inexorável seu percurso. Perdemos a liberdade de contemplar o céu azul, sentir a brisa no rosto descoberto, dizer “bom dia” ou “boa tarde” às pessoas pelas ruas e praças; ou escutar a melodia dos pássaros, as intrigas dos vizinhos e a algazarra das crianças sob a luz do sol; ou, ainda, acompanhar a lua e as estrelas que, no escuro da noite, nos fixam com a saudade de um olhar recíproco.

Fabricamos automóveis cada vez mais inovadores, se possível fechados, aclimatados e impermeáveis, para fugir à precariedade dos transportes coletivos e às massas humanas que se vêm obrigadas a utilizá-los. Aumentamos ao extremo o número de veículos, sua potência e velocidade e, orgulhosamente, desfilamos pela cidade. Ao fim e ao cabo, porém, essas “máquinas maravilhosas” nos deixarão prisioneiros de gigantescos engarrafamentos, no “inferno do tráfego”, ironicamente, ao ritmo de uma pessoa que caminha. E perdemos justamente o sabor de caminhar, livres e senhores do tempo, sem a ansiedade e a sensação de sufocar no interior exíguo dessas pequenas celas ambulantes. Caminhar como bons vizinhos!

A revolução dos transportes, das comunicações e da informática, por sua vez, espalha pelas lojas fornadas e fornadas de televisores, telefones celulares, smartphones. Os produtos da chamada “quarta revolução industrial” brilham exuberantes na luminosidade dos centros comerciais. Daí à espetacularização exacerbada da notícia simultânea, às vezes sem o devido tempo para a reflexão e a digestão, o caminho costuma ser breve e frívolo. Um passo, uma pose ousada, uma imagem, uma frase, uma foto de momento, um WhatsApp, uma piada – por mais banais, fúteis e vaidosos que sejam – passam a navegar pelas redes sociais. Estas acabam por converter-se numa nova Feira das Vaidades, para citar o livro do escritor britânico William M. Thackeray. TV e Internet aprisionam nossos olhos e nossas atenção, impedindo-nos do contato direito, cara-a-cara, olho-no-olho, que nutre e reforça o sentido mais profundo da vida. Sempre à espreita está o risco de substituir o encontro real e concreto, de pessoa a pessoa, pelo intercâmbio virtual. A tendência à superficialidade ronda e semelhante risco.

Bem entendido, necessitamos de casa, carro, meios de comunicação e outros produtos da ciência e da tecnologia. Inútil imaginar uma vida sem eles. O saudosismo do “paraíso perdido” não tem lugar. Tais avanços técnicos fazem parte de nosso dia-a-dia. Trazem conforto, rapidez e, além disso, podem promover novas formas de relação interpessoal. Resta, porém, a pergunta: como escapar de seus apelos, de seu fascínio ou sedução desordenada? Como evitar convertê-los em ídolos indispensáveis, diante dos quais nos ajoelhamos submissos? Numa palavra, como usá-los sem que eles nos tornem escravos de seu encanto mágico? Escravos e doentiamente dependentes de um toque, de um chamado, de um watt de um objeto de desejo! Por outro lado, é extremamente tênue e subtil a fronteira entre a necessidade e o exibicionismo, a liberdade de usar a tecnologia de ponta e a escravidão diante de sua exaltação. O dito popular “nem tudo que brilha é ouro” serve como ponto final.

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