O capitalismo não é uma abstração fantasmagórica!

WELLINGTON FONTES MENEZES*

A abstração no campo da Política é um péssimo condutor para uma via reflexiva em momentos que exigem maior densidade de compreensão de fenômenos críticos na sociedade. Toda ação real somente poderá ser operada dentro da realidade concreta dos fatos. O capitalismo foi criado e continua sendo gerenciado por pessoas físicas (que podem e, geralmente estão, fantasiadas pela couraça de “pessoas jurídicas”) e não por abstrações fantasmagóricas como a “entidade mística” do “dinheiro” ou do “sistema”.

Ao dizer que é o “dinheiro” que controlaria os processos da democracia, como afirmou o eminente estudioso do capitalismo, o britânico David Harvey em sua entrevista na “Revista Época”[1], redundou em um equivoco desnecessário e reducionista! Quem ou o que seria o “dinheiro”? Uma entidade metafísica, imaterial, fenomenológica e paranormal? Certamente que não! O dinheiro é o elemento simbólico em essência que dá fluido nas relações socioeconômicas e permite a circulação de poderio econômico com voraz rapidez e magnitude. Quem detém o poder de concentração do dinheiro? Em linhas gerais, são e continuam sendo os donos dos meios de produção material e seu aporte imaterial que é a financeirização cujas posses estão nas mãos de homens e mulheres terrenos.

Ao utilizar um termo “místico” como o dinheiro, Harvey ajuda involuntariamente mascarar com uma “abstração mística”, os reais interesses de classes daqueles que detêm o poder econômico e que interagem para sistematicamente sabotam o “sistema democrático”. Com todo respeito à David Harvey, tudo que esquerda e o pensamento crítico não precisam agora é caírem no desespero e no abstracionismo.

A sabotagem contra o sistema democrático é uma praxe constante nas sociedades ocidentais, em particular, aquelas associadas ao de capitalismo tardio, dependentes das variações externas e gerenciadas por instituições governamentais de solidez gelatinosa. Tal percurso acontece quando a burguesia sente perder as rédeas da condução do poder real na sociedade ou, quando é mais usual, segue com tranquilidade as regras que o próprio núcleo burguês que detêm o poder de concentração de renda e produção impõe para a dinâmica socioeconômica.

Não há abstração que se sustenta no campo da Economia real. De fato, o que há na prática, os grandes esquemas operativos para mascarar (ou escancarar) a fluidez do capital e, por sua vez, a manipulação da concentração, circulação e retenção especulativa. Nunca deve se esquecer que é o lucro, acima de tudo e de todos, que sustenta a matriz lógica do sistema capitalista.

O embate entre as relações sociais materiais (formadas por indivíduos em número e sujeitos de auto-interesses) produz as classes igualmente materiais e suas formas de operarem dentro da sociedade. A democracia como forma de relação político-social, é visceralmente formada por ações sociais mediadas por uma fluida ideia de igualdade ancorada por sistemas de leis de proteção jurídica e física. A manipulação dos elementos ditos “democráticos” está na esfera de valores e desejos dos grupos sociais dominantes economicamente (o que se constitui no termo clássico de “burguesia”).

Cabe aqui ressaltar os bons trabalhos de Harvey, mas ninguém está imune às críticas. Quando se evoca abstrações no debate político, opera-se um mecanismo subjetivo carregado de sintomas neuróticos e psicóticos no seio social de que “nada é possível de mudar”, ou seja, toda dinâmica social é nula. Tal premissa é tudo que a burguesia, detentora do poder real, deseja projetar no imaginário social e, naturalmente, se consolidar.

O abstracionismo é o pior dos terrenos para o debate político e se constitui na certeza da derrota e a perda de referências de percepção sobre a realidade. Desta maneira, é um desserviço à reflexão de mundo e a luta contra as formas brutais (veladas ou não) de exploração e desigualdades socioeconômicas evocar abstrações que ao invés de desvelar as formas de operação do mundo material, apenas jogam mais areia nos olhos daqueles que continuam fechados (e muitos desejam com sofreguidão!).


* WELLINGTON FONTES MENEZES é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (PPGSD/UFF).

[1] A entrevista está disponível em https://epoca.globo.com/david-harvey-o-dinheiro-quem-controla-processo-democratico-nao-as-pessoas-23076538?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

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Um comentário sobre “O capitalismo não é uma abstração fantasmagórica!

  1. Qual o poder que impera categoricamente no atual sistema social? O poder econômico é a resposta mais concreta. Como se efetiva esse poder econômico? As riquezas econômicas estão espalhadas por toda parte no atual sistema social nas lojas, supermercados, mercadinhos, feiras, camelôs, bancos, shoppings etc., mas o acesso e a fruição dessas riquezas costumeira e habitualmente só é feito por quem dispõe de uma abstração concretizada em papel-moeda ou, em representante do mesmo, via cartões de crédito ou de débito, ou seja, sem o tal do dinheiro o mendigo permanece sem acesso ao consumo de uma dessas riquezas, exceto se consumir lixo ou o desperdício dessas riquezas.

    O jornal impresso, de um modo geral, é pago, mas pode ser consumido quando vira lixo ou desperdício. O rádio pode ser consumido por quem não é seu proprietário desde que este não use fones de ouvido. A televisão pode ser consumida por quem não é seu proprietário, desde que se encontre ao alcance da visão e da audição dos não-proprietários. A internet é acessível gratuitamente, desde que se disponha de um computador ou celular, os quais podem ser alugados, emprestados ou comprados no mercado oficial ou no mercado informal de objetos roubados. Os aplicativos apareceram fornecendo gratuidade para acesso à telefonia e à internet e, em seguida, como formas de acesso a serviços que se tornam muito mais baratos e que destroem a hegemonia dos serviços tais como eram fornecidos anteriormente.

    A importância dos meios de comunicação não é só a da exibição da riqueza como ocorre nas lojas etc., mas é também a da exibição de formas da sensibilidade quase que exclusivamente humanas (existem animais que veem, ouvem e manipulam esses meios, sendo que alguns, como, por exemplo, os macacos, chegam até mesmo a usar teclados, “mouses” e outras vias de acesso a áudios e visuais) por resultarem de criações humanas, mais do que isso é a afirmação da criatividade sensível exclusivamente humana e, portanto, de que o modo de produção artificial, quer dizer, exclusivamente humano é o modo de produção mais produtivo e capaz não só de se igualar às produções da natureza, como também capaz de vir a superar a natureza, seja regulando-a, seja desregulando-a, mas principalmente através da criatividade produtiva capaz de vir a reproduzir artificialmente a natureza da sensibilidade exclusivamente humana, incluindo aí o entendimento humano e/ou a inteligência humana. No entanto, dentre todos esses meios de comunicação, de troca, de exibição, de produção existe um, que se destaca como meio artificial sensível exclusivamente humano e, com o qual o acesso a todas as riquezas e a todos os meios de produção se realizam efetivamente, porém, sem tal meio artificial sensível exclusivamente humano não é mais possível acessar nenhuma riqueza tampouco qualquer meio de produção, com a exceção de um único que é a força natural humana de trabalho do próprio ser naturalmente humano. Esse meio artificial sensível exclusivamente humano tão demasiadamente capaz, apto e funcional nesse sistema social é conhecido pela “alcunha” de dinheiro e, assim, como a abstração mais concreta desse sistema social.

    Essa passagem de “Sobre o indivíduo e o individualismo”, de Walter Praxedes (ver: https://espacoacademico.wordpress.com/2019/05/06/sobre-o-individuo-e-o-individualismo/):

    “Na era moderna, ao contrário, a destruição se tornou uma das principais alavancas da produção e a depreciação planejada dos bens e criações humanas passou a alimentar uma economia baseada no desperdício que propicia a nova produção, o consumo deixa de ser um meio para a satisfação das necessidades humanas para se tornar um meio de incrementar a produtividade. ”

    Essa passagem é o que mais ajuda a entender e explicar como o roubo, como agente destrutivo da realização de uma determinada produção, transfere essa realização para um outro que pode vir a fazer parte de um novo processo de produção. Por exemplo, a expansão do mercado informal começa roubando e destruindo o mercado formal regulado pelo Estado do Bem-Estar Social e se torna parte ativa do desenvolvimento de um novo processo de produção como o da informática, dos micros computadores e celulares, mais adiante, se torna parte ativa integrante da difusão dos aplicativos que “dissolvem no ar toda a solidez” dos táxis e expandem toda a fluidez dos “ubers” e serviços de transporte via aplicativos. É certo que as necessidades humanas que antes eram atendidas pelos táxis passaram a ser atendidas pelos aplicativos, ou seja, não deixaram de ser satisfeitas como a citação acima dá a entender, mas também é certo que o novo meio de consumo satisfaz essas necessidades humanas de forma muito mais produtiva, quer dizer, mais barata e acessível, porém, também com maiores riscos para o consumidor e também para o servidor direto do serviço, beneficiando numa escala gigantesca a produtividade e/ou lucratividade do proprietário do aplicativo.

    O capitalismo é cada vez mais uma concretização da produtividade virtual, ou seja, ao contrário do diz o título do artigo de Wellington Fontes Menezes, o capitalismo parece não só demonstrar por toda parte que ele é “uma abstração fantasmagórica” como também parece trazer à tona por toda parte figuras aterrorizantes revestidas com os encantos folclóricos dos mitos e dos contos de fadas, quer dizer, traz à tona e concretizadamente a sua afirmação plena como “uma abstração fantasmagórica”. Os líderes de diferentes países atualmente são ou não são a concretização de figuras fantasmagóricas?!

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