Palavras com raízes e asas

Pe. ALFREDO J. GONÇALVES, cs

A palavra que emerge do útero fecundo do silêncio é uma palavra frondosa, com raízes e asas. As raízes, por sua natureza, mergulham e ramificam-se no interior do solo úmido e escuro. Lenta e laboriosamente, aprendem a garimpar os ingredientes que as haverão de nutrir e se robustecer. O silêncio equivale a essa terra fértil. Calam-se todos as vozes, todos os ruídos cotidianos, superficiais e estridentes como fogos de artifício. Na serena quietude das trevas subterrâneas, a palavra expande e fortalece sólidas raízes. Delas é que se alimenta: ganha energias para levantar-se do chão.

Em semelhante descida ao ventre do silêncio, a palavra, além de raízes, também engendra asas para voar. Depois de crescer em profundidade dentro desse terreno mudo, mas cheio de reais potencialidades, ela então pode erguer-se como um pássaro que canta e anuncia a chegada da aurora – para buscar a luz radiante do sol, embriagar-se com céu azul e respirar o ar livre e puro. Nesse processo de passagem da noite para o dia, o verme metamorfoseia-se em borboleta. Sem o silêncio, ao contrário, prevalecem os rumores, o palavreado estéril. O rojão se transforma em cinzas e se precipita com a mesma rapidez com que subiu e iluminou o horizonte,

Emudecem as palavras, com letra minúscula e no plural, para dar lugar à Palavra, com letra maiúscula e no singular. As palavras, de boca em boca, costumam circular ao léu, nas ondas do vento. Fazem um barulho ensurdecedor, sem nada de substancial para transmitir. Dessa forma, impossibilitam o surgimento da Palavra. Somente esta, porém, traz embutida a capacidade de ser vital e criativa, livre e libertadora. Boa Nova, mas sem espetáculo! Somente ela pode trazer paz e conforto, quando não ofuscada e neutralizada pelo palavrório inócuo e dispersivo. Palavrório oco como uma lata rolando pela calçada: quanto mais vazia, tanto mais rumorosa. Tanto é verdade que, quando alguém não sabe o que dizer, põe-se a falar.

Se, de um lado, as palavras transitórias e efêmeras fazem emudecer a Palavra, de outro, esta última, quando se faz sentir e levanta voo, não se deixa levar pelos vendavais enganosos da moda passageira. Tendo fincado raízes fundas e fortes no solo, será igualmente capaz de resistir à fúria das tempestades, superando sua força invernal. Ademais de firmar-se solidamente à terra, ganhou e soube desenvolver asas próprias para voar, sonhar, lutar e esperar. Pode ser sacudida com brutalidade, jamais será arrancada; pode ser despida da roupagem, exibindo a própria nudez, jamais definhará; pode ser golpeada por todos os lados, mas os golpes lhe reavivarão o vigor. Nela, o medo foi vencido pela esperança, e esta guia seus braços de maneira solta e livre, descortinando horizontes novos e desconhecidos.

A Palavra cresce vigorosa para o alto porque já mordeu a lama e o pó da terra. Ergue sua voz de forma autorizada porque já visitou as entranhas mais obscuras do silêncio. Sorri e põe-se a cantar porque já conheceu o pranto e engoliu muitas lágrimas amargas. Ama e perdoa porque já visitou a própria dor e o sofrimento. Usa de misericórdia porque conhece as fraquezas e debilidades ocultas por trás das aparências. Transfigura vícios em virtudes, demônios em anjos, porque os identificou com lucidez no espelho silencioso de si mesmo.

Conclui-se por isso que, enquanto as palavras revelam-se superficiais, infecundas e estéreis, a Palavra que brota e viceja no silêncio, e sendo por este mesmo fecundada, tende a produzir colheita abundante. Renova-se emudecendo para melhor escutar: na escuta acerta o passo com os “mil rostos dos outros”, aprende a ouvir o ritmo do universo, dos astros, dos animais e das plantas – o ritmo da natureza e da criação. E assim, a exemplo da árvore viçosa, produzirá em cada estação folhas, flores e frutos. Em outros termos, produzirá relações justas e fraternas, équas e solidárias. E o fará tanto do ponto de vista socioeconômico e político-cultural quanto do ponto de vista ecológico e planetário.

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